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Raul Carvalho
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Acelerando o Turismo

O jornalista Raul Machado Carvalho, natural de Itu, foi editor da revista AutoEsporte e Hotel & Cia., por mais de dez anos, além de colunista do jornal O Globo, do Rio de Janeiro. É ex-presidente do Instituto de Estudos Vale do Tietê - INEVAT.

Como é Viver em Itu, segundo os Ituanos

Publicado: Sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Pela primeira vez, uma pesquisa séria, encomendada pela Prótur ao Ibope, mostra a realidade do que pensa o ituano sobre a sua cidade. Perguntas que se aprofundaram pelas entranhas do povo tiveram algumas respostas surpreendentes e outras previsíveis. O mais importante, no entanto, é a imensa colaboração da Protur, (uma entidade que visa divulgar e organizar o turismo na cidade) que consolida seus objetivos de se implantar um turismo sustentável em Itu, visando o desenvolvimento econômico e tentando definir se a população concorda ou não com a vocação turística da cidade e do que ela mais se recente em relação às necessidades das pessoas que aqui vivem.
 
O trabalho, idealizado pela presidente da entidade, Neca Setúbal, disponibiliza informações que podem servir como alicerce para um futuro planejamento estratégico que poderá valorizar a identidade dos ituanos, apoiar novas iniciativas de instituições públicas e privadas, de pequenas empresas e empreendedores do turismo, com o objetivo de incentivar o surgimento de novos negócios e, assim, aumentar as possibilidades de geração de empregos e renda na nossa cidade.
 
Trata-se de um balizamento concreto para se por no papel um sólido plano diretor de turismo que, em futuro próximo, poderá acentuar o crescimento do turismo em Itu com reflexos altamente positivos para os que aqui vivem e se acham marginalizados, sem perspectivas, sem confiança, sem motivação e não acreditando mais na cidade. Esse será o grande trabalho político e educativo, daqui para a frente – fazer o ituano, além de ter orgulho da sua terra, pensar grande e ser retribuído pelo poder público com melhores condições e qualidade de vida.
 
Como é “Viver em Itu”?, uma das perguntas colocadas nos questionários, trouxe respostas ambíguas, conforme os segmentos abordados. Para uns, a cidade é tranqüila, segura, e tem um bom clima. Para outros, Itu carece de desenvolvimento e oportunidades para seus moradores. Entre os mais jovens, o clima é de descontentamento geral com a cidade. Eles apontam a falta de opções de lazer, oportunidades de trabalho, estudo e desenvolvimento pessoal como os maiores problemas.
 
Para os adultos, Itu é uma boa cidade para se viver, segundo a pesquisa da Protur. Entre os que participam do “trade” turístico a visão é mais otimista, embora reconheçam que é preciso acelerar mais as ações. Trata-se do único grupo de pessoas que consegue ver com clareza que a vocação principal da cidade é o turismo.
 
Vejamos o que disseram os jovens. Eles não vêem Itu com nenhum entusiasmo. O limite, para eles, é a falta de oportunidades nos três principais pilares de suas vidas: trabalho, estudo e lazer. Em relação ao trabalho, querem o desenvolvimento porque querem trabalho e melhores remunerações. Diante deste quadro, acham que sair de Itu em busca de trabalho e melhores condições em cidades vizinhas e até na capital é uma alternativa inevitável para muitos.
 
Quanto ao estudo, reclamam da inexistência de faculdades e instituições que ofereçam cursos profissionalizantes. Dizem que querem estudar mas não sabem como.
 
No item lazer, a sensação de falta de alternativas é comum a todos. A demanda é por danceterias, rodeios, parques de diversão, cinema, quadras esportivas, piscinas públicas etc. Nesse aspecto, destacam a Cidade Nova, onde começam a existir algumas opções de lazer. Nesse ponto, precisamos voltar a falar do Itusão, casa de eventos, especialmente construída para isso e que agora não pode receber shows de grande porte, rodeios com atrações artísticas que atraem a população, de Itu e da região, por ordem judicial.      Resumindo, os jovens ituanos têm a sensação de exclusão, de que a cidade não é deles. Eles se sentem na “antiguidade” E, para a maioria dos pesquisados, a responsabilidade é do Prefeito, dos políticos, dos “conservadores” como eles mesmos dizem.
 
Dentro dessas premissas apuradas na pesquisa, o desafio é contribuir para fazer de Itu um destino turístico de excelência no cenário estadual e nacional. Para alcançar esse patamar é preciso que se mostre aos profissionais do “trade turístico” de Itu, e à população em geral, os benefícios de se ter um turismo qualificado e certificado. Esses benefícios poderão trazer um aumento de lucratividade e empregos, satisfação dos clientes e taxa de permanência e retorno, entre outros aspectos positivos.
 
Todavia, e principalmente agora, às vésperas das eleições municipais, ouviremos muitas promessas, os repetitivos “planos de governo”, que tornam o eleitor desavisado em presa fácil das ofertas do mercado de ilusões, dos cantos de sereias. Nessas propostas encontraremos “soluções” para todos os problemas que afligem a nossa cidade.
 
De forma infalível, nenhum dos candidatos falará de onde virão os recursos para os novos empreendimentos prometidos. Exemplo disso é a atual administração que antes de ser eleita, em 2004, apresentou à população um plano para o turismo com 16 itens, para a revitalização e desenvolvimento do setor. De tudo isso, apenas duas propostas foram cumpridas, talvez por serem óbvias demais: a execução de um calendário anual de eventos e a constituição do Comtur – Conselho Municipal de Turismo.
 
Ao analisarmos os resultados das entrevistas realizadas, notamos que ninguém dos pesquisados, ao menos uma vez, citou os problemas que a cidade enfrenta em relação aos portadores de necessidades especiais. No censo 2000, do IBGE, foram registrados 27 milhões de brasileiros nessas condições, além de outros milhões de idosos. Importante lembrar que do número total de deficientes, cerca de 20% pertencem à classe A, isto é, em condições de viajar e fazer turismo. E, o turismo de idosos, é cada vez mais ativo.
 
Outro fato interessante é que ninguém citou a participação dos vereadores e as responsabilidades com a cidade por parte da própria Câmara Municipal, como se o legislativo ituano não existisse e não tivesse qualquer envolvimento com os destinos de Itu. Será que ninguém mais acredita nos “representantes do povo” ? A função do vereador, bom lembrar, é “ouvir” os anseios da população que representa e tentar ajudar com novas propostas de leis.
 
Pouco foi comentado, também, sobre a importância do turismo religioso e rural. No primeiro caso, além do patrimônio e da beleza das igrejas ituanas seria interessante começarmos a enxergar o futuro como promissor e se pensar em infra-estruturas para suportá-lo. Imaginem, no caso de Madre Maria Theodora e Padre Bento virem a ser canonizados pela Santa Sé e se tornarem santos. Serão motivo de grandes romarias e peregrinações. Ambos já são considerados “beatos” pela Igreja e estão em processo de beatificação, ela há 30 e ele há 25 anos, aguardando a confirmação de milagres atribuídos aos dois.
 
No caso da Madre Theodora, as irmãs já se adiantaram e conseguiram autorização do Vaticano para o traslado dos restos mortais para um local estratégico, dentro da Igreja do Patrocínio. Agora, compete aos fiéis rezar para que a santidade venha.
 
O turismo rural é outra força e orgulho da região. Fazendas com ótimas atrações e programações, adequadas à classe dos mais ricos, assim como instalações para a prática do golfe, sempre movimentando a cidade com a realização de diversos torneios.
 
Outro tema que não foi abordado na pesquisa, talvez porque ninguém tenha tocado no assunto, foi o importante patrimônio científico/geológico do Parque do Varvito. Até parece que os ituanos não o conhecem. Será? Ninguém se lembrou, também, da oportunidade única da comemoração do IV Centenário que se aproxima e que poderá render bons frutos para os ituanos em relação ao turismo.
 
Além de tudo isso, os planos de governo não falam em verbas reservadas à propaganda, necessárias para a divulgação da nossa estância turística na mídia de grande porte e incursões na área de marketing, com a cidade oferecendo o seu patrimônio histórico para locações de filmes e novelas, um “merchandising” super importante. A questão dos folders, mapas, folhetos etc., que deveriam estar nos portais da cidade, material indispensável para o trabalho dos guias turísticos profissionais, está sendo empurrada com a barriga e nunca ficam prontos ou nunca estão disponíveis pois, nos portais de entrada da cidade, adornados com mensagens religiosas, com as quais não concordamos, somente ficam guardas municipais que poucas condições tem de ajudar os turistas.
 
As conclusões e recomendações da pesquisa apontam que dificilmente, a curto ou médio prazos, os ituanos ou mesmo os “moradores de final de semana”, freqüentadores do seleto grupo de condomínios, que não estão ligados à atividade turística, conseguirão visualizar o Turismo como a vocação econômica prioritária de Itu.
 
A atividade industrial, nesse sentido, precisa ter seu espaço no projeto de desenvolvimento de Itu, mas, desde já, com um sentido de “diversificação saudável” e com papel cada vez mais coadjuvante.
 
Outra idéia que se faz do retrato de Itu é que os jovens da cidade, público com postura mais desencantada, serão facilmente atraídos para o projeto, se visualizarem oportunidades de emprego e lazer acessíveis.
 
Segundo a pesquisa, os trabalhadores ligados à indústria do turismo apontam a falta de diversificação e as carências estruturais como entraves para que esse projeto tenha sucesso. A diversificação é bem vinda, mas talvez seja necessário um “eixo” que, aparentemente, é dado pelo Turismo Rural que engloba melhor o que é a “experiência de viver Itu”.
 
Sobre a importância do planejamento turístico sustentável, o trabalho conclui que se trata de uma ferramenta de gestão de destinos e que deve se basear no tripé da equidade social, prudência ecológica e na dinamização da economia local.
 
Acrescentamos que, numa estância turística da importância de Itu, o turismo deveria ser matéria obrigatória nas escolas do município, públicas e privadas, para que os alunos de 1º e 2º graus tomassem conhecimento do assunto e possam levar para casa os conceitos que poderão mudar as suas vidas e a fisionômica da cidade, no futuro.
 
Se isso acontecer, a população colherá os benefícios que o turismo pode trazer para Itu e, principalmente, a revitalização da auto-estima da comunidade. Dessa forma, será possível conciliar os interesses e o desenvolvimento imobiliário e industrial, conservando, com muita intensidade e competência, por parte da sociedade e poder público, o patrimônio histórico, cultural e ambiental.
 
Para tanto, é imprescindível que os cargos públicos ligados ao turismo sejam ocupados, não pelos amigos do chefe, mas por profissionais do setor.
 
Além disso, é preciso garantir investimentos e que o orçamento do município contemple o setor do turismo com verbas adequadas para que o sonho de uma estância turística de verdade se concretize em Itu, em benefício da coletividade e especialmente dos jovens que poderão se assegurar de um futuro promissor, vivendo e trabalhando na nossa cidade.
 
E, finalmente, que este trabalho da Protur não se perca nas gavetas burocráticas da administração pública, mas que seja um incentivo ao “trade” e possa servir como base para projetos e planos governamentais que permitam o levantamento e análise da infra-estrutura básica de apoio ao turista com atrativos e equipamentos adequados.
 
Agora, só falta uma pesquisa séria sobre o número de turistas que visitam a cidade todos os meses e abandonarmos o “chutômetro” quantitativo que se estabeleceu. Já tentamos diversas vezes levantar os números registrados pelos hotéis, pousadas, campings etc. Mas, não há respostas do setor. Talvez, agora, após a feliz intervenção da Protur, a classe se anime em valorizar uma nova pesquisa que poderá ser decisiva para a infra-estrutura da cidade.