Publicado: Terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Rotinas
Eu não acredito que a rotina seja necessariamente negativa. As pequenas coisas que fazemos todos os dias são pistas importantes sobre quem nós somos e como lidamos com esse triste fato da natureza. Eu, por exemplo. Após acordar, permaneço sentado na ponta do colchão tentando me lembrar de algum sonho. Nunca dá certo. Mas no dia seguinte a cena se repete. Os moinhos de vento nunca estão mais lá.
Depois sigo almapenadamente até a cozinha que, para aqueles que não tiveram a chance de conhecer, fica desgrudada da casa dos meus pais. Faço isso imediatamente ao levantar porque gosto de encontrar meu pai e minha mãe na cozinha, eles geralmente estão terminando o café, parecem esperar que eu apareça. Conversamos algumas coisas, meu pai sempre faz algum comentário sobre a vida e eu imediatamente discordo dele. Sempre. Às vezes até penso igual, mas discordo para ter certa dose de adrenalina no café da manhã. Mas não brigamos mais, aquele tempo ficou para trás com os fantasmas.
Meu pai termina: vai com Deus, meu filho. E minha mãe: vai com Deus, bom trabalho, cuidado na estrada, que Nossa Senhora te guarde, os anjos te protejam e você chegue bem no final do dia.
Amém, mãe.
Eles vão trabalhar e eu tomo meu banho. Minha irmã já saiu pra faculdade, eu nem a vi. Após o banho, penso em chegar ao trabalho com um cabelo diferente, de repente penteio para a direita ao invés da sempre esquerda. Melhor não. Gel, pente e esquerda outra vez.
No caminho, ouço Calcanhotto; no escritório, escuto um pouco de Nina Simone e Jennifer Hudson; na volta pra casa, volto com Rita Lee e seus companheiros de MPB que não parecem MPB. Se eu não ler as tirinhas e o editorial da Folha, meu dia não é dia; se eu não fizer algum comentário sobre o calor ou o frio, há algo de errado comigo; e se eu não mudar alguma coisa dessa rotina, nem que seja a rua que eu sempre pego para chegar aqui, então estou realmente doente.
Não se trata de previsibilidade, mas icebergs das nossas escolhas. Isso: a rotina é um iceberg da nossa escolha! É um indício do que nós somos. Coisas que adquiriram a minha cara. De uma forma pouco perceptiva para os outros, coisas que têm o meu cheiro (espero que seja pouco perceptivo o cheiro, senão estarei fedendo).
Claro, quando eu sentir que devo mudar, eu me vou. Tal qual os ciganos de Macondo. Pra São Paulo, pra Madrid, para Querengué ou pra onde Deus não quiser. Não faz diferença. Lá eu também terei rotina, algum tipo de raiz eu também vou fincar. Isso não me incomoda. Desde que exista um amor de verdade para esquentar os pés e para o qual voltar no final do dia. Rotina, se apreciada com moderação, faz bem.
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