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Publicado: Sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Para quem tem visão

Apesar da legislação, poucas empresas estão preparadas para empregar deficientes visuais. O que elas não sabem é que, no ambiente adequado, eles ganham fama de funcionários exemplares, além de sensibilizar e incentivar os colegas de trabalho.
 
Está em andamento uma mudança ainda discreta e lenta do cenário profissional para aqueles que pouco ou nada enxergam. Há dez anos, talvez estivessem em alguma instituição especializada como atendidos. A diversidade do mercado de trabalho, assim como a diversidade do ser humano, possibilita a inclusão de pessoas com deficiência nas mais diversas funções (da mesma maneira que a pessoa sem deficiência). A possibilidade de sua inclusão no mercado de trabalho dependerá da possibilidade de reabilitação.
 
Em 2005, o Instituto Ethos realizou uma pesquisa nacional para traçar o perfil da diversidade no mundo do trabalho. Ela é intitulada “Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas”. Os resultados são animadores se levarmos em conta todos os tipos de deficiência. De 2003 para cá, houve um aumento significativo da participação de deficientes como um todo no quadro funcional – eles representavam 3,5% no levantamento anterior e, hoje, atingem uma fatia de 13,6%. Essa taxa se equipara aos 14,5% da população que apresentam alguma deficiência. Mas, ao enxergar a questão pela óptica de deficiente visual, os números decepcionam: ele representa apenas 0,2% do total, perdendo de longe para portadores de deficiências múltiplas, com 12%.
 
A falta de conhecimento das capacidades da pessoa de baixa visão ou cega é o maior obstáculo para sua inclusão na sociedade e, principalmente, no mercado de trabalho. No imaginário de um empresário, ele não poderia fazer mais nada se ficasse cego. Chamo a atenção para as outras habilidades que uma pessoa com pouca ou nenhuma visão desenvolve, por exemplo, para se orientar. Ela tem percepção sinestésica aguçada, ou seja, é mais sensível ao bloqueio do som e à circulação do ar. Uma vez que treinado, o deficiente visual pode executar qualquer tarefa. Um empregador não vai disponibilizar uma vaga se essa pessoa não estiver reabilitada nem atender às qualificações que a função necessita.
 
Já está na lei desde 1999. O decreto federal 3298/99, modificado pelo decreto 5296/2004, determina que todas as empresas com mais de 100 funcionários são obrigadas a contratar pessoas com deficiência seguindo proporcionalidade. Se tiverem até 200 empregados, 2% do seu corpo deve ser portador de deficiência. Aquelas que registram entre 200 e 500 devem conceder 3% das vagas. Se tiver de 500 amil carteiras assinadas, 4% delas devem ser de portadores de deficiência. E, para as empresas com mais de mil pessoas, a cota é de 5%.
 
Com fiscalização cada vez mais acirrada do Ministério Público e das Delegacias Regionais do Trabalho (DRTs), as empresas tem procurado as instituições e outros tipos de assessoria, jurídica ou em recursos humanos, para se adequar à legislação.
 
Para receber bem esse funcionário é necessária adequação arquitetônica do prédio, como elevadores com painéis em braile e sistema de voz para indicar o andar, até as políticas da empresa, que precisam incluir o deficiente.
 
Os deficientes físicos foram os primeiros a ser incluídos nas políticas de cota, porque com essa deficiência era mais fácil de lidar, apesar das adaptações exigidas nos locais de trabalho, como rampas de acesso, banheiros adaptados e passagens mais larga.
 
É mais difícil enxergar as possibilidades de uma pessoa cega, há um investimento em softwares para uso do computador, por exemplo, que poucas empresas encaram.
 
Capacidades valorizadas
Há alguns anos, profissionalizar uma pessoa com baixa visão ou cega significava qualificá-la para trabalhar em câmaras escuras para revelar filmes. Mas, com os processos digitais, essa função foi se acabando. É preciso pesquisar com os empresários que tipo de profissionais eles estão demandando. Temos que levar em conta o contexto geral, que é de desemprego.
 
O cego é visto com um misto de pena e curiosidade e depois de um tempo de convivência, ele é admirado. Na Escola de Cegos Santa Luzia de Itu os pacientes aprendem a se localizar nos ambientes, a se organizar em atividades da vida diária e experimentam a independência de locomoção.
 
Quanto mais corriqueira se tornar a convivência com deficientes visuais, mais simples ela se tornará. E os recursos para que eles sejam incluídos também se tornarão mais comuns.
 
A melhor maneira de ajudar um deficiente visual é perguntar se ele quer ajuda e como podemos fazer isso. Para ajudá-lo a atravessar a rua, por exemplo, não é só ir pegando no seu braço e conduzindo-o. É mais eficaz perguntarmos se ele quer ajuda e como fazê-lo. É gratificante para o comum e para o diferente o aprendizado nesse relacionamento que a inclusão estimula.
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