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Publicado: Terça-feira, 6 de novembro de 2007

Aliens voadores de verão

Gostava de encarar os pernilongos como alienígenas como aquele oitavo passageiro. Por isso, fosse de madrugada ou no amanhecer, não se importava em sair pelado pela casa, chinelo de dedos à mão para caçar os tais aliens. Não tinha desses aparelhinhos de colocar na tomada porque, se não causavam câncer, era certo que criavam novos aliens mais poderosos e resistentes e, com isso, ele obrigaria indiretamente as empresas a fabricarem produtos mais fortes com maior probabilidade de causarem câncer. Tinha um inseticida guardado, claro, para qualquer emergência, mas evitava de usá-lo.

Gostava de uma coisa em particular: deixava o aberto durante a noite e, pouco antes de o sol aparecer, ia com seu par de chinelos lá matar aliens. Sabia que os pernilongos se escondiam do frio em lugares fechados e, todo final de madrugada se reuniam boêmios dentro de seu carro.

Pá! Pá! Pá!

Às vezes fazia um revólver com os dedos antes de bater os chinelos. E ria. Adorava rir quando matava um dos grandes, tinha a impressão de ter derrotado o líder da gangue. Sentia tesão pela coisa, se é que me entende.

Quando descia à casa da praia com os amigos, ficava brincando com os chinelos enquanto os outros humanos, os anormais que não se importam com os borrachudos, iam fritar na areia e achavam o máximo.

Geralmente, após a matança intensa, fazia um montinho com os cadáveres e os
enterrava no quintal. Tinha respeito pelo inimigo, podia se dizer. E também gostava da impressão de que os pernilongos da noite seguinte vinham de longe para o velório desses recém-enterrados.

Certa noite, porém, quando chegou em casa, não encontrou nenhum pernilongo. Nenhum zzzzumbidinho, nenhum pontinhozinho na tela do computador, nenhum coçadinha sobre o pé. Nenhum nada dos aliens. Bateu no guarda-roupa, sacudiu o cobertor, abriu o armário. Nada! Já estava sentado no sofá, estranhamente triste, quando ouviu uma verdadeira esquadria que voava em sua direção. As portas todas fechadas. As janelas bem trancadas. Onde eles estavam escondidos? E queriam sangue, vingança e vitória. Ele correu pela casa como se estivesse sendo atacado por abelhas. Como não encontrava os chinelos em nenhum lugar, pegou o inseticida no armário. E apertou o gatilho. Espirrou pela casa toda e ficou observando a queda dos intrusos. Eram como aviões bombardeados, anjos sem asa, pernilongos assassinados. Sentiu um repentino alívio misturado com raiva de si mesmo por ter relaxado na batalha.

Ele se esqueceu, porém, de que também inalava o veneno. Só lembrou disso quando o nariz já escorria muito sangue. Primeiro sujou a roupa. Depois o chão. A pia do banheiro. E depois se debruçou sobre o vaso. Vomitou. Sua cabeça doía e seu corpo se contraía em posição fetal. A vista embaçada e a boca ressequida. Parecia que ia morrer. E morreu.

Ali perto, um grupo de pernilongos sobreviventes se recuperava da náusea que o inseticida lhes causara. Iam voar embora de vez, mas prefiram aguardar os outros humanos que viriam para o velório daquele ali, deitado no banheiro, finalmente derrotado. Os aliens venceram desta vez.
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