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Publicado: Sexta-feira, 6 de julho de 2007

O velório do preconceito

Estamos todos, uma vez que somos sociedade pós-moderna, convocados para o velório do preconceito. Nem etnia ou orientação sexual; nem sexo ou religião; ateísmo, partido político ou classe social. Nada mais é desculpa para tentarmos encaixar os seres humanos ao nosso redor. Se queremos viver o tempo em que vivemos, devemos defender até a morte o direito do “outro” (o próximo, o seu vizinho, a sua concorrente) de dizer o que bem quiser. E se esse “outro” prefere dizer com palavras, melhor ainda!
 
Vivemos em um tempo de intensa produção de imagem. Não apenas de imagem pessoal (batom, roupa, cirurgia plástica, academia), mas também de produção intelectual através da imagem (exposições fotográficas, festivais do minuto, livros de charges, instalações). Encontrar pessoas com roupas “descoladas”, que trazem partes do corpo com piercing e cabelos multicoloridos é a coisa mais natural do mundo. Pelo menos deveria ser. Estamos no pós-modernismo, agora a imagem é tudo!
 
A principal diferença entre modernidade e pós-modernidade é a inversão no sexo que há entre do conteúdo e a estética. Os modernos (que Deus os tenha!) entendiam a estética como plataforma para facilitar a propagação de um conteúdo. Nós, os pós-modernos, temos a estética como o novo conteúdo. Dessa forma, a imagem é o resultado do Toque-De-Midas contemporâneo: tudo acaba em imagem!

Se você faz uma festa, é muito provável que as fotos estejam no Orkut ou em um fotolog no dia seguinte. Você pode receber, qualquer dia desses, imagens do seu próprio casamento feitas por algum convidado. E uma dica importante: nunca deixe que fotografem o que você faz no seu quarto, menos ainda se tiver muita gente envolvida.
 
Que seja servido logo um cafezinho neste velório do preconceito. Eu só posso ficar mais alguns minutos, pois logo mais tenho que tirar algumas fotografias em São Paulo. E depois vou me encontrar com amigos adeptos da body art, “umas minas e uns caras” tatuados que fazem do corpo a nova plataforma da arte. Eles me incentivam a descolorir o cabelo, colocar um brinco e até raspar um pedaço da sobrancelha. Calma, pessoal mais-que-pós-moderno, calma! Ainda estou no velório do preconceito. Esperemos, pelos menos, a imagem cobrir este corpo morto.
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