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Publicado: Sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Gentileza, Assédio ou Esquizofrenia Social?

Crédito: Internet Gentileza, Assédio ou Esquizofrenia Social?
O atual estado de confusão mental é fruto de uma elaborada engenharia social.

Nossa sociedade está cada vez mais esquizofrênica. Pouca gente percebe isso. Seguindo uma total falta de lógica o brasileiro pensa uma coisa e faz outra. E vice-versa. Esta esquizofrenia social está presente nas leis, nos costumes atuais, nas frases feitas espalhadas via internet, no cotidiano de todas as pessoas. Ninguém pense ser obra do acaso. Trata-se de um muito bem arquitetado projeto de engenharia social, cujos fundamentos encontram-se em curso há mais de meio século mundo afora.

A esquizofrenia é uma doença que acomete gravemente cerca de 2,5 milhões de brasileiros. Aqui utilizo o termo não em relação a estes clinicamente diagnosticados. Falo sobre "esquizofrênicos" no sentido social, não patológico. Não é algo simples de explicar ou exemplificar.

Como ilustração inicial, pensemos no caso da indústria do fumo e da bebida em solo nacional. Há anos estão proibidas as propagandas de cigarros em qualquer tipo de mídia. Não se pode dizer o mesmo sobre as bebidas alcoólicas. As destiladas foram praticamente banidas dos comerciais em horário nobre, mas as cervejas imperam no marketing.

A lei obriga que se coloquem fotografias horrendas nos maços de cigarro, com mensagens temerárias. Por que não se faz o mesmo em cada garrafa ou lata de cerveja? A lei proíbe a compra de álcool por menores de dezoito anos, o que faz muitíssimo bem. Também é ótimo que desestimule o péssimo costume de dirigir após beber. Por outro lado, as instituições dão sinais de que incentivarão a plena liberação das drogas pesadas. Isto é esquizofrenia! Fumar e beber, não pode! Usar maconha, cocaína e crack, tudo bem!

Se as instituições realmente se importassem com a vida de todos nós, não estimulariam o povo a comprar cigarro ou bebidas, tampouco a usar drogas. A coisa não ficaria apenas no espectro da legislação, mas teria conseqüências bem mais práticas. Mas a esquizofrenia impera. Ao mesmo tempo que são atemorizados quanto ao consumo das bebidas e dos cigarros, os brasileiros são constantemente estimulados a beber e a fumar, seja pelas propagandas ou através de novelas, filmes ou músicas. Ou só eu que percebi o crescente número de canções cujo tema central é o beber, o fumar e o se drogar?

 A questão não se restringe ao campo do consumo. Podemos migrar facilmente para as situações comportamentais. Atitudes que até recentemente seriam normais e relativamente fáceis de se lidar, foram distorcidas por tontologias mil. A maldição do "politicamente correto" não só enxergou chifres em cabeça de cavalo como convenceu grande parte da população de que unicórnios realmente existem.

Imaginemos uma cena. Um rapaz chega no balcão de uma padaria e pede um café. Percebe que ao seu lado está uma moça muito bonita. Ele olha, sorri, diz "bom dia". Começa um papo. Faz elogios e se oferece a pagar a conta dela. Num filme romântico esse seria o roteiro ideal. Na vida real da nossa sociedade esquizofrênica, há quem interprete tudo isso como assédio sexual.

Com uma falta total de critérios confunde-se o galanteio gentil e honroso com a brutalidade forçosa da imposição de sexo. As feministas, por (mau) exemplo, vociferam gravemente que é preciso respeitar o corpo feminino e que ninguém deve tocar o corpo de uma mulher sem que ela o permita. Estão certíssimas, até certo ponto. Perdem completamente o moral quando posicionam-se a favor de safadezas disfarçadas de "performance" artística que permitem a crianças tocar o corpo de um homem pelado. Esquizofrenia ideológica pura!

Envolto em esquizofrenias mil, assim segue o Brasil. O país que se orgulha de ser tão acolhedor em relação aos estrangeiros trata muitíssimo mal a si mesmo. A turma que adora vomitar a frase feita do "gentileza gera gentileza" torna-se cada vez mais intolerante e incapaz de lidar com as diferenças, as contradições, as nuances tão normais da vida humana.

Há cura para isso? Sim, via educação e espiritualidade. O brasileiro não precisa aprender a pensar. Sinapses cerebrais qualquer gafanhoto tem. O que nós brasileiros precisamos aprender é a pensar direito. Pois nem tudo o que achamos correto está certo. Nem tudo o que a lei diz está bom. E nem tudo de que precisamos está contido nas leis humanas.

Pensar, entender a realidade, perceber as contradições da vida e tomar uma postura diante delas, é fundamental. O que não podemos continuar permitindo é esta esquizofrenia social que proíbe o cãozinho de beber a água da tigela, mas o ensina a lamber a mão do ladrão.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista e professor, iniciou sua carreira em 1996. É colunista do Itu.com.br desde 2005 e membro da Academia Ituana de Letras desde 2011. É seminarista na Diocese de Jundiaí, atualmente cursando Teologia.

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