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Publicado: Sexta-feira, 23 de junho de 2017

Napoleão e o Profeta

         Nem Riobaldo, nem Severino, nem Diadorim. O menino haveria de se chamar Napoleão, tal como o pai. Família abastada, metida na política, só pode dar nome de aristocrata nobre ao herdeiro predestinado aos mais altos postos e às homenagens dos admiradores e súditos. O Ceará teria orgulho um dia do seu filho dileto, conterrâneo de José de Alencar e Rachel de Queiroz.

         Criado a pão de ló, cresceu Napoleão esperto e arretado como um menino do interior. Mal aprendeu a ler, cai-lhe nas mãos um livro de histórias de Saladino, o poderoso sultão muçulmano que combateu os cristãos cruzados e venceu incontáveis batalhas.

         Considerado o campeão da guerra santa, Saladino se tornou o herói de um ciclo de lendas, que percorreram todo o Oriente Médio e a Europa, e seus feitos são lembrados e admirados até os dias de hoje pelos povos muçulmanos. Combateu os cruzados para levar a fé islâmica aos povos do Oriente e tornou-se um exemplo dos princípios da cavalaria medieval. Com o Islã unificado, Saladino se tornou o soberano mais poderoso da época, reinando sobre uma população de dois milhões de habitantes de Damasco, Cairo e Bagdá. Por obra de Saladino, o Islã do profeta guerreiro Maomé expandiu seus domínios e consolidou sua religião.

         Na conquista de Jerusalém, Saladino capturou Reinaldo de Chatillon, cavaleiro cruzado e o degolou pessoalmente. Em outra ocasião 700 prisioneiros foram decapitados sob as ordens e olhares do sultão.desa  A figura de Saladino, imponente em seu cavalo árabe puro sangue, empunhando a cimitarra brilhante e ameaçadora, impressionou o menino Napoleão. Fascinado pelo conquistador de Jerusalém no ano de 1187, o menino arrochado se vestia de túnica e turbante e, munido de uma espada de pau, trucidava as galinhas do vizinho que se aventuravam em seu domínio.

Napoleão sonhou com um dia glorioso em sua vida, no qual assumiria os poderes do Profeta e as virtudes de Saladino, para derrotar seus inimigos e impor sua vontade. Desejava decretar uma fatwa, a aplicação da lei islâmica agindo em nome de Allah e seu mensageiro o Profeta Maomé. Sua fatwa cairia como uma espada no pescoço dos infiéis. Movido por este sonho pelejou para estudar advocacia e se tornou juiz.

 

Seu dia de glória chegou num julgamento crucial para a democracia de um país latino. Napoleão, vestido com a toga negra de juiz, tal como a kandoora, a túnica dos homens árabes, e tiririca com supostos detratores de sua suposta honra, soltou vigorosamente sua fatwa, um anátema segundo ele. “Com a medida que me medem, serão medidos. E sobre ele desabe a ira do profeta. É uma anátema islâmica. A ira do profeta não vou dizer o que é. Eu vou fazer um gesto da ira do profeta . É o que eu desejo, que sobre eles desabe a ira do profeta”. Neste momento, a espada vingadora cortou metaforicamente o pescoço do inimigo, fazendo jorrar o sangue do infiel e cumprindo a promessa de punir aqueles que ousam criticar e acusar os juízes.

E assim Napoleão, o degolador, realizou o seu sonho. Os que assistiram, ao vivo, a sua demonstração brutal, ficaram a pensar no desperdício do dinheiro dos contribuintes que financiaram a carreira e os desatinos desta figura patética. Com seu gesto, Napoleão conseguiu ao mesmo tempo ofender o cidadão brasileiro e os adeptos da religião islâmica.

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O Lado Humano

Orlando Mazzuli

Orlando Mazzuli

Consultor empresarial em Gestão de Pessoas. Ex-Executivo internacional de Finanças e RH. Coach Executivo. Conselheiro da ABRH - Associação Brasileira de RH e membro do G3RH. Articulista sobre Economia, Gestão de Pessoas, Comportamento e outros temas.

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