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Publicado: Segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O nascimento paterno: A chegada da Helena

Crédito: Francine Pires O nascimento paterno: A chegada da Helena

Aproximadamente, quatro horas da madrugada, em uma noite tranquila e silenciosa, com poucas estrelas no céu e uma lua que iluminava o inicio da jornada, é quando, quase na sensação “de repente” sou acordado com o chamar de minha companheira, alertando que a sua bolsa acabara de estourar, a partir desse ponto, começou a intensa caminhada de se tornar pai.


Rapidamente levantei, respirei e olhei para minha companheira, ela estava plena com um sorriso no rosto aguardando qual seria o próximo passo que a linda Helena estava a escolher. Levantei, preparei um café da madrugada para nós, comemos juntos sorrindo (eu estava sorrindo de nervoso), dialogamos para combinar o que iríamos fazer e quem avisaríamos. Em seguida, minha companheira decidiu tomar um banho, enquanto eu já avisava nossa querida doula (que foi extremamente importante em todos os momentos) que o parto estava a começar. Depois de tudo “organizado” resolvi também tomar uma ducha, afinal estava sendo convidado para um dos eventos mais intensos e transformadores da humanidade o “nascimento de uma vida”.


Aos poucos as contrações da minha companheira foram aumentando e ficando menos espaçadas, ela já não se comunicava muito de maneira verbal comigo, a doula chegou e partimos para o hospital que era em outra cidade, devido aos inúmeros relatos de violências obstétricas que ocorrem no município que residimos, resolvemos ir para uma cidade vizinha. A sensação que tinha é que o hospital nunca chegava. Minha companheira vivenciava cada contração de maneira intensa e poderosa e a doula com seu toque carinhoso acalentava e auxiliava a cada etapa. E eu? Dirigia, dirigia, dirigia...Milhões de pensamentos surgiam na cabeça daquele menino/jovem/homem e logo mais também se transformaria em pai! Então eu dirigia...


Então chegamos ao hospital, aproximadamente as sete e meia da manhã, a equipe estava ciente do que estava ocorrendo, subi com a minha companheira e doula para o quarto em que conheceríamos a pequena Helena. Imediatamente fui orientado a descer para fazer a ficha (as burocracias do sistema que podem atrapalhar momentos íntimos e humanos). No momento em que passava os dados que a instituição demandava, a doula me manda uma mensagem: “Ela já está com oito centímetros de dilatação”. Oito? Pensei! Imediatamente fiquei inquieto e nervoso com a possibilidade de não conseguir ver minha filha nascer, de não acompanhar minha companheira em um momento tão importante, de não sentir a energia que um parto lança em todos envolvidos. Não, a burocracia não poderia me tirar esse momento! Comecei a acelerar a profissional que estava fazendo a papelada, afinal o evento do parto já estava acontecendo, a nossa fotógrafa me acalmava e acolhia de maneira única, fui me acalmando até que subimos ao quarto.


Chegando ao quarto, vi um dos momentos mais marcantes da minha vida, minha companheira entregue ao trabalho de parto, experienciando aquele momento como uma mulher poderosa, de cócoras como as “antigas” pariam, toda empoderada. Era algo incrível! Existia uma energia no ambiente difícil de descrever! Ao redor daquela mulher iluminada (era assim que eu a enxergava) havia uma enfermeira obstétrica observando e auxiliando de maneira sutil o que era necessário, ao seu lado o médico obstetra aguardando de maneira respeitosa cada contração, atrás dela estava a doula massageando e fazendo o necessário para aliviar cada dor. Entrei sem saber o que fazer, sem saber o que falar, olhei para minha companheira e sorri, meio tímido e com medo. Mas ela me olhou de uma maneira única, me aproximei lentamente, ajoelhei ao seu lado, e lhe dei a mão (era o que podia fazer para estar com ela presente de corpo e alma). Ela me chamou baixinho em sua intimidade e me beijou, abrindo um sorriso e dizendo: “já estou com oito de dilatação, vai ser rápido, a Helena está vindo amor”. Acenei com a cabeça de maneira positiva, mas por dentro meu coração transbordava com a alegria que emanava dela.


Algumas horinhas se passaram, ao fundo e em cada silencio após contração, escutava o som de uma goteira no lado de fora do quarto, a cada conjunto de gotas que caiam, vinha uma explosão potente no grito feminino de minha parceira, durava um tempinho e logo o silêncio reinava, novamente escutava as gotas, as respirações e meu coração disparado. Eu, ao lado de minha companheira tentava acolher em cada etapa, oferecia o que ela desejava, as vezes lhe dava a mão, em outros oferecia água, em alguns períodos falava palavras de carinho e o quanto ela estava sendo uma mulher incrível, e em outros apenas me silenciava olhando para cada etapa, respirando lentamente, sentindo aquele momento, vivenciando aquelas sensações únicas. Lembro-me de poucos pensamentos naquele dia, mas de uma intensidade emocional difícil de racionalizar.


Próximo ao inicio do nascimento, minha companheira sentou-se em uma banqueta, que a mulher fica em uma posição de cócoras. Eu fiquei sentado atrás dela em uma bola que é utilizada para exercícios de pilates. A cada contração, ela se apoiava em mim, me apertando com muita força, sentia um pouco do poder que transcendia de seu corpo e o grito que emanava do âmago de sua alma. No término da contração, ela repousava em meus braços, cansada, se preparava para próxima jornada que iria vir. Então uma intensidade começou a surgir, minha parceira estava no pico do trabalho de parto, a cabecinha da Helena já apontava no mundo externo, faltava pouco para vermos o rostinho dela, faltava pouco para aquele evento mágico se encerrar.


Um grito forte, vindo do fundo da alma se apresentou no ambiente, em seguida um silêncio, sorrisos no rosto de todos, então, as 10h31min, Helena havia chegado ao mundo externo. Lentamente minha companheira, banhada em lágrimas e risadas encantadoras, me mostrava o rostinho da pequena, eu, estupefato com aquela cena, com toda a energia que havia ocorrido, fixava meu olhar no olho de Helena. A sensação é de que o tempo tinha parado nessa troca de olhares, estava conhecendo o ser que modificaria minha vida para sempre, estava sentindo o poder do nascimento em minha frente. Não sabia se sorria se gritava, se chorava, se abraçava, não sabia... o que fazer? Não tinha uma regra, eu precisava sentir tudo que estava borbulhando em mim. Então todos trocavam olhares, sorrindo e aos poucos as falas voltaram, ainda baixas, todos tinham vislumbrado um lindo nascimento. E eu? Estava vendo uma nova vida, que participaria para sempre de minha vida!


O nascimento da pequena Helena foi um dos momentos mais inesquecíveis e inexplicáveis que vivencie em meu pequeno tempo de vida. Percebi o quanto o parto é fantástico e agradeço imensamente por ter sido convidado a presenciar esse maravilhoso evento humano. Entendi que é fundamental que os pais experienciem a chegada de seus filhos, apoiando suas companheiras em cada etapa e principalmente, se for desejo da mulher, na hora do nascimento. Tive a oportunidade de participar apoiando minha parceira, de cortar o cordão de minha filha quando parou de pulsar, de acalenta-la no colo, de cuidar de minha companheira nas primeiras horas após o parto etc. Helena chegou ao mundo respeitada, foi acolhida como merecia, como todos os bebês deveriam ser recebidos.


Hoje, minha pequena Helena, completa seu primeiro ano de vida. Depois de certo tempo desejando contar meu olhar do nascimento resolvi escrever no dia de seu aniversário o meu "relato de parto paterno" para presentear minha pequena. Hoje, faz um ano que me tornei pai, que me transformei como homem, filho, companheiro, profissional, pessoa etc. Hoje, vivencio minha paternidade de maneira ativa, acolhendo as demandas de minha pequena como posso, auxiliando ela em cada nova etapa que descobre, rindo com suas maluquices, chorando com suas dores e aprendendo uma nova forma de amar. Desejo a todos os pais que estão lendo esse texto que tenham a oportunidade de participar de um momento tão mágico que é o nascimento, mas além disso, que vivenciem de maneira ativa suas paternidades, pois acredito que é um excelente momento para experienciarmos um processo de metamorfose intenso para sermos novos homens, aprendendo com os pequenos sábios que a vida nos presenteou.
 

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Maternidade & Paternidade

Diego Henrique Perez

Diego Henrique Perez

Formado em Psicologia pelo CEUNSP com pós-graduação em Psicologia Clínica em Saúde Reprodutiva da Mulher e Hospitalar pela UNICAMP. Educador Perinatal pelo GAMA e colaborador do grupo GAIA. Dedica-se a grupos de patern/matern, atendimentos em psicoterapia

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