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Publicado: Terça-feira, 27 de novembro de 2018

Humanização do nascimento - Reflexões e dilemas

Humanização do nascimento - Reflexões e dilemas
Imagem Ilustrativa

Em uma de minhas noites de estudo, acabara de terminar a leitura de uma das obras de Ricardo Jones “Entre as Orelhas – Histórias de Parto” e comecei a refletir sobre as diversas questões que envolvem o parto. Meus pensamentos estavam adoçados pelas maravilhosas discussões entre Max, Nadine e Rick (personagens do livro), que auxiliam no esclarecimento dessa temática na contemporaneidade. Mas, uma das conversas e tópicos do livro, me chamou a atenção, gerando inúmeras reflexões. O assunto a que me refiro é sobre a humanização do nascimento, tema que gera muitas discussões entre mulheres grávidas e principalmente nos profissionais envolvidos com o nascer no Brasil.

Primeiramente, é fundamental abordar a ideia de “humanizar” o parto, que muitas vezes é compreendida de maneira equivocada. Quando se fala nessa ideia, sigo a definição apresentada no dialogo dos personagens do livro, descrevendo: “humanizar o nascimento é enfatizar o local de protagonismo da mulher no parto!” O pensamento em questão está pautado nas ideias do humanismo que surge no século XIV para retomar o protagonismo do ser humano na sociedade, favorecendo assim os estudos e avanços científicos do homem e sociedade, além de questionar a ideologia predominante da época, o teocentrismo que entendia que o homem ficava a mercê dos “poderes divinos” (pregada pela religião dominante da época), ou seja, as leis da sociedade eram construídas partindo dos princípios dos “desejos de Deus para os homens”, vontade essa, que era pensada a partir de uma parcela de pessoas que detinham o poder econômico e se denominavam como pessoas escolhidas na terra para transmitir os desígnios divinos. Ainda temos resquícios desses pensamentos na atualidade, pois muitas das leis e a própria ideia social de “justiça” são pensadas por uma parte da sociedade que muitas vezes visa beneficiar e proteger principalmente os poderosos.

Visto isto, a definição do termo “humanização”, que citei no parágrafo anterior, tem como intuito colocar o homem como protagonista. Se levarmos esse conceito para o parto, colocaremos a mulher como figura principal no momento do parto, devolvendo o protagonismo feminino que lhe foi retirado ao decorre dos anos, por ideais tecnicistas, machistas, econômicos, entre outros. Desta forma, a humanização do parto é respeitar as escolhas da mulher visando o bem estar do sujeito, entendendo a subjetividade de cada pessoa além de oferecer uma assistência de qualidade (baseadas em evidências cientificas) dos profissionais de saúde que acompanham a gestação e o parto.

Continuando a reflexão sobre humanização do nascimento, faço um recorte do livro, no momento em que os três personagens debatem a questão da “cesárea humanizada”. Assunto recorrente nas conversas sobre a humanização do parto, principalmente por uma parcela de profissionais que utilizam o termo, mascarando a complexidade da cirurgia em questão e a formas e intenções com que muitas vezes são realizadas. Nesse ponto também estou de acordo com as concepções levantadas por Max e Rick, os dois refletem sobre o termo realizando algumas críticas. Os mesmos acreditam que apesar da cirurgia cesariana ser realizada de maneira respeitosa em alguns casos e bem indicada, ela ainda continuará sendo um processo em que o protagonista do parto será o médico e sua técnica de cortar as camadas do corpo da mulher e salvar a vida do bebê e/ou mãe. Essa situação se agrava quando é uma cesárea desnecessária e a mulher é enganada, podemos entender esse ponto como uma violência obstétrica.

Esse debate dos personagens me faz refletir que, talvez, mesmo quando a mulher escolhe a cirurgia cesariana, por determinado motivo, essa mulher possa ter sofrido desrespeitos ao longo do seu processo histórico. Desrespeitada porque talvez ouvisse, freneticamente, de outras pessoas, histórias reais de violências que ocorreram nos partos “anormais” vivenciados por sua mãe, avós, tias, vizinhas, colegas etc. Desrespeitadas porque provavelmente foram desencorajadas a parir, com falas corriqueiras, como, Você não imagina a dor que irá sentir; Hoje é burrice sofrer para ter um filho; Você não vai aguentar a dor; A cesárea é melhor que o parto normal; Parto normal é coisa de pobre; Mulheres que fazem partos são loucas... etc. Desrespeitadas por alguns médicos que porventura acreditam saber mais do que a mulher sobre o corpo delas, que não aprenderam a acompanhar o parto de maneira respeitosa e não se atualizam com os estudos recentes (além de que, muitos profissionais são “reféns” do lucro econômico de uma cirurgia, cegos pela ignorância, amarrados ao medo de “errar” etc.). Desrespeitadas e desencorajadas, eventualmente, por companheiros, mães, amigos e uma sociedade que muitas vezes esquece-se de olhar para o humano e respeitar sua fisiologia, seus desejos e seus sonhos!

Por estes motivos, acredito que uma cirurgia cesariana DESNECESSÁRIA, escancara uma das facetas do desrespeito e principalmente de violência contra as mulheres que existem em nossa cultura. Muitas gestantes escolhem a cirurgia devido ao medo de uma agressão durante um momento extremamente significativo em sua vida. Acredito que é importante salientar que nenhuma mulher deve se considerar, em hipótese alguma, “menos” mulher e/ou mãe por ter escolhido e/ou sido levada à cirurgia cesárea, não é isso que definirá essa característica. Minha tentativa nesse post é refletir e principalmente apontar uma das violências obstétricas naturalizadas em nossa cultura que provavelmente deixa marcas significativas na vida da mulher e em todos que estão envolvidos na construção dessa nova família. A violência a que me refiro são as induções de cesáreas desnecessárias e a cultura de violências cotidiana nos partos normais que levam a construção de sentidos e significados sociais de que parir é sinônimo de sofrer.

Desta forma, enfatizo que cada mulher deve escolher de maneira consciente e saudável todo seu acompanhamento perinatal e em especial o momento do nascimento. Buscando profissionais que respeitem seus desejos e que realizem uma assistência baseada em estudos científicos produzidos nas recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e no Ministério da Saúde (MS). Entretanto, infelizmente, devemos estar alertas a cultura violenta contra as mulheres e a industrialização do nascimento em que estamos inseridos, visto que, dados alertam que o Brasil é um dos países que obtém números elevados de cirurgias cesarianas, acima do recomendado pela OMS.

Para finalizar o texto, deixo alguns pontos que acredito ser fundamentais para potencializar as mudanças. Primeiramente, aos casais grávidos: busquem informações sobre todas as etapas, conheçam os profissionais que acompanharão o parto e que se houver algum tipo de violência nesses períodos tentem denunciar, para tentarmos interromper o ciclo de praticas violentas. Segundo, aos profissionais da assistência ao nascimento: revejam suas práxis e se elas condizem com os ideais de humanização (Se você profissional já faz isso, converse com outros que estão desatualizados) e por fim, aos militantes da humanização do nascimento: é importante entendermos que a luta continua principalmente em períodos sombrios, temos que ocupar os espaços de discussões sobre saúde, expandir as informações baseadas em evidências cientificas, promover reflexões críticas através de diálogos incessantes com profissionais que ainda realizam uma assistência violenta e participar de maneira ativa na construção de políticas públicas que favoreçam nossa luta. Desta forma, caminharemos para transformar de maneira positiva um dos momentos de extremo significado para a vida humana, o nascimento!
 

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Maternidade & Paternidade

Diego Henrique Perez

Diego Henrique Perez

Formado em Psicologia pelo CEUNSP com pós-graduação em Psicologia Clínica em Saúde Reprodutiva da Mulher e Hospitalar pela UNICAMP. Educador Perinatal pelo GAMA e colaborador do grupo GAIA. Dedica-se a grupos de patern/matern, atendimentos em psicoterapia

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