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Publicado: Domingo, 30 de setembro de 2018

Vida que segue vazia

Vida que segue vazia

Uma triste realidade assola as civilizações humanas na contemporaneidade: as relações descartáveis.

 

As pessoas se conectam no mundo virtual, trocam meia dúzia de palavras, e acreditam de fato que é suficiente para estabelecer toda a gama de conhecimentos sobre a vida e existência de um outro alguém.

 

A construção do vínculo, da importância, é algo que demanda tempo e coragem. Não são todas as pessoas que estão dispostas a lançar um olhar sobre nós e arriscar nos desejar e conhecer.

 

Infelizmente, não são todas as pessoas que nos tratam com a devida significância que merecemos, pelo simples fato de sermos alguém, também com nossos fardos e medos, alegrias e possibilidades.

 

Quem hoje em dia se importa o suficiente para nos escutar e estabelecer diálogos profundos? Quem está disposto a sair de seus castelos da individualidade e compartilhar um pouco de dor e também um pouco de amor? Quem hoje em dia se prontifica a entender que a vida não é feita somente de felicidade, bem como a dor é parte indispensável de qualquer existência saudável?

 

Os encontros que a vida nos proporciona deveriam ser espaços nos quais as pessoas partilham todas as nuances do viver: amor, dor, alegrias, sofrimentos, angústias, paixões. Enfim, os encontros alegres demandam trocas e reciprocidade e não apenas um lado se doando e se permitindo e o outro vivendo em fuga ou negação.

 

É muito fácil apenas enxergar os defeitos do outro que nos circunda e não encarar nossas próprias sombras. Não reconhecer que as projeções que fazemos são justamente a fuga de nós mesmos. Não há como ser feliz assim. Não existem instantes de felicidade que sobrevivam a uma hipocrisia mascarada de paixão e verdade.

 

Mais uma vez ressalto o respeito que deveríamos dispensar quando somos aceitos na vida e no universo de outras pessoas. Um voto de confiança não é falácia, bem como nossa palavra não deveria ser uma caricatura de nossa presença nesse universo. Quando entramos e saímos da vida das pessoas causamos inevitavelmente uma mudança nessa estrutura, que nem sempre é para melhor. Nem toda experiência é positiva. Tem vivências que são dispensáveis, que retiram de nós um pouco do brilho da vida e laceram a esperança necessária para que continuemos na árdua caminhada da existência.

 

Ame. Sinta. Sofra. Permita-se. Acredite. Arrisque. Permaneça o tempo suficiente para celebrar e dignificar a importância do outro, que nos acomete e enaltece a todo momento. Ninguém conhece ninguém em uma semana ou através do whatsapp. O conhecer demanda desejo e perseverança e, principalmente, a coragem necessária para encarar de frente nossas próprias limitações.

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A vida nossa de cada dia

Ana Paula Cavalheiro

Ana Paula Cavalheiro

Formada em Ciências Sociais pela USP-SP, Psicologia pela Unimep e especialista em Psicopedagogia. Faz atendimentos psicológicos clínicos particulares, presta assistência na Delegacia da Mulher e produz artigos que retratam temáticas existenciais.

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