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Publicado: Sexta-feira, 6 de abril de 2018

O vale tudo por uma boquinha no serviço público

     -Você está desempregado? Quer um emprego seguro, com boa remuneração, ótimos benefícios, aposentadoria integral e além de tudo tranquilo?
- Quero sim, onde tem?
     -Seus problemas se acabaram! Há uma vaga no serviço público esperando por você. Junte-se aos mais de 11 milhões de funcionários públicos trabalhando nos governos federal, estadual e municipal. Você pode escolher entre os mais de 14 mil cargos públicos que proliferaram na administração pública desde a chegada dos portugueses ao Brasil.
     - E o salário é bom mesmo?
     - Esqueça os baixos salários da livre iniciativa. O governo paga muitas vezes mais.
      - Que ótimo! Como faço para conseguir um emprego desses?
      No país de 13 milhões de desempregados o desejo de abocanhar um emprego no setor público é um sonho de toda uma vida. Quem consegue entrar neste paraíso nunca mais sai, só para quando aposenta, muitas vezes com o mesmo salário da ativa. E por mais que falte ao trabalho, tenha desempenho medíocre ou relaxe no cumprimento dos deveres, nada acontece, pois não há avaliação de desempenho nem penalidades para o mau funcionário.
      Agora, para ingressar num cargo público efetivo é preciso mais que sonhar. Os concursos públicos são concorridíssimos e exigem muito estudo. Os cargos mais elevados e melhor remunerados cobram um alto preço de entrada. São anos de estudo, gastos com cursinhos, paciência e determinação. Facilidades só mesmo no período dos governos do PT, no qual explodiu o numero de concursos e as regras foram aliviadas para abrigar os “cumpanhero”. Muitos concursos foram manipulados e direcionados para os petistas, o que gerou processos na justiça que suspendeu vários concursos. Chegaram ao cúmulo de retirar a exigência do conhecimento de inglês para os candidatos a cargos da carreira diplomática no Itamaraty, só por que os apadrinhados não sabiam o idioma padrão das relações internacionais.
      Mas nem só pela porta da frente pode-se ingressar no serviço público. Existem mais de 500 mil cargos de livre provimento, os comissionados, que não passam por concurso público, não requerem formação nem experiência, pois são indicados pelos políticos. Estes cargos não tem estabilidade, porém gozam da maior parte dos benefícios dos efetivos.
      E se não tiver vaga de efetivo ou comissionado, ainda tem a porta dos “consultores”, que são indicados pelos políticos ou contratados pelos órgãos do governo. Tem mais de 100 mil cargos de consultores disponíveis, bastando a pessoa ter um conhecimento específico de grande valia, ou conhecer um figurão amigo para obter uma contratação.
      Por último, se nada funcionar, ainda dá para apelar aos fraudadores de concursos. Esta opção só é válida para pessoas desonestas. No dia 28 de março, por exemplo, a Polícia Federal prendeu doze professores em Brasília, sob acusação de fraude no concurso da Secretaria de Educação. De acordo com as investigações, a organização criminosa utilizava quatro formas de fraudes: uso de pontos eletrônicos por onde os candidatos recebiam as respostas; uso de aparelhos celulares deixados em locais da prova, como nos banheiros; utilização de identidades falsas, para que uma pessoa se passasse pelo candidato e participação de integrantes das bancas examinadoras na organização criminosa.
      Em um caso assombroso de fraude na Caixa, a esposa inteligente e bem preparada para o concurso acompanhou seu marido burro e preguiçoso numa prova. Enquanto ele rabiscava o papel da prova e colocava o nome dela no cabeçalho, ela respondia corretamente as questões e botava o nome do marido no espaço do candidato. Na saída da sala trocaram as provas e ele foi contratado. Hoje ele finge que trabalha na Caixa, nunca vai ser promovido, mas recebe um belo salário que jamais conseguiria em nenhum emprego público ou privado. E representa um pesado fardo para a sociedade.
      Os concursos públicos, por sua vez, são um modelo de contratação superado e ineficaz, pois só mede o quanto o candidato estudou para as provas. Passou na prova e ficou bem classificado, está dentro. Não são examinadas as habilidades da pessoa, suas motivações e nem mesmo o caráter. Assim, pessoas desonestas, sem interesse no trabalho, inadaptadas à carreira e com o objetivo único de ganhar um bom salário trabalhando pouco ou nada, inundam o serviço público. Servem de péssimo exemplo para funcionários exemplares e dedicados. Concurso público não barra maluco nem bandido.
      O crescimento desenfreado dos cargos públicos e o aumento brutal da folha de pagamento do Estado conduziram a um dilema insolúvel: não há dinheiro suficiente na sociedade de cidadãos contribuintes para sustentar o monstro balofo da administração pública. E os serviços que o Estado deveria prestar aos contribuintes simplesmente faliram. .
      Uma reforma do serviço público está à espera de líderes visionários, bem intencionados e corajosos que assumam a bandeira da moralização e da profissionalização do Estado. Um novo modelo está fartamente disponível na gestão das empresas privadas de alto padrão. Porém, não há lideres inteligentes, nem corajosos dispostos a conduzir esta empreitada.

 

 

 

 

 


 

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O Lado Humano

Orlando Mazzuli

Orlando Mazzuli

Consultor empresarial em Gestão de Pessoas. Ex-Executivo internacional de Finanças e RH. Coach Executivo. Conselheiro da ABRH - Associação Brasileira de RH e membro do G3RH. Articulista sobre Economia, Gestão de Pessoas, Comportamento e outros temas.

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