Colunistas

Publicado: Quinta-feira, 21 de março de 2019

Barbosa: a pena perpétua por um crime não cometido

Barbosa: a pena perpétua por um crime não cometido
Fonte: ESPN.

“Por muito tempo ele carregou nas costas uma cruz bem diferente da Cruz de Malta, que sempre carregou no peito” – Arthur Rocha em matéria escrita e publicada na Fox Sports.

O personagem do texto de hoje é um goleiro, bem conhecido no futebol, infelizmente não pela sua carreira que foi muito vitoriosa, mas por uma “falha”, explorada há 70 anos pela mídia e que assolou seus pensamentos até sua morte em 2000.

Barbosa, goleiro do Vasco e da Seleção Brasileira, nas décadas de 50 e 60, é lembrado por conta da final da Copa do Mundo de 1950, quando precisando apenas de um empate para ser campeão em casa, o Brasil acabou sendo derrotado no jogo que viria a ser conhecido como Maracanazzo.

E a “falha” de Barbosa criou um estigma, em um país que trágicomicamente, apesar de ser conhecido por toda sua miscigenação, até os dias de hoje tem presente uma característica abominável em sua sociedade: o racismo. O jornalista Mario Filho citou em seu livro “O negro no futebol brasileiro”: “quando o brasileiro acusou, além de Barbosa, os também negros ou mulatos Juvenal e Bigode (pela derrota em 1950), acusou a si mesmo.”

E até hoje, insiste-se em citar o fato sobre goleiros negros de que, desde Barbosa, não houve um na seleção que tenha sido campeão de uma Copa do Mundo.

Há quem diga que isso é apenas uma coincidência ou que, os que foram campeões, foram por sua competência. Mas, temos fatos e condutas que denotam o racismo no futebol até os dias atuais. E o mais preocupante dessa situação é que ela vem sido mantida estruturalmente e ouso dizer, de cima para baixo.

Em uma recente entrevista, o goleiro Jefferson, do Botafogo afirmou que não foi convocado na primeira oportunidade ao Mundial Sub-20 em 2003 por ser negro. Conforme as palavras do jogador:

“A convocação para a sub-20, estava praticamente decretada quem seriam os goleiros: eu, Fernando Henrique (Fluminense) e Fabiano (Internacional). Quando saiu a convocação para a sub-20, que na época ia ser em janeiro, eu estava certo que meu nome estava lá. Para minha surpresa, quando vi no jornal a convocação, meu nome não estava lá. Fiquei muito chateado, pensei ‘poxa, o que aconteceu? Um mês atrás estava tudo certo’”

O Mundial que seria disputado em janeiro de 2003 nos Emirados Árabes teve sua data alterada para dezembro, por conta da instabilidade política no país.

“Eu estava no banco do Max no Botafogo, na Série B, e faltando um mês para a convocação eu nem estava esperando, então recebi uma ligação: ‘E aí, está preparado para voltar à seleção? A gente ia te convocar lá atrás, só que a gente foi barrado, porque não poderia convocar goleiro negro. Tinha uma pessoa (dentro da CBF) que falou que não poderia convocar. Essa pessoa saiu e agora podemos fazer o que quisermos fazer”.

O problema do racismo no futebol e no esporte em geral conta com a mesma inanição de entidades que deveriam agir para que estes atos não aconteçam. Para falarmos de casos mais recentes temos o brasileiro Ari, convocado pela seleção Russa. Um infeliz, atacante russo Pavel Pogrebnyak, teve coragem de comentar e repercutir a nível mundial que “é vergonhoso ver um negro na seleção russa”.

E também, na mesma semana, o meio campo Serginho do Jorge Willstersman, da Bolívia, abandonou o campo durante um jogo após ter de ouvir durante 85 minutos xingamentos racistas vindos da torcida. E o juiz, o time adversário, enfim, todas as pessoas competentes para agir naquele momento já estavam informadas do ocorrido.

A única vez que tivemos uma atitude que foi minimamente proporcional a um caso de racismo foi em 2014, quando o Grêmio foi excluído da Copa do Brasil por condutas racistas praticadas por sua torcida contra o goleiro Aranha. São cenas vergonhosas e toda punição é pouca.

Sobre estes assuntos precisamos ser repetitivos: Os praticantes dos atos devem ser punidos diretamente. Os clubes devem ser punidos pelos atos praticados por terceiros em suas dependências. Nós como sociedade, não podemos deixar de condenar e não esquecer de quem já praticou. As pessoas não podem estar confortáveis nessas posições e não devem ter liberdade de expressar pensamentos excludentes sem que colham consequências cabíveis.

Estamos sempre de olho e não esqueceremos vocês: Antônio Carlos Zago, Desábato, Danilo Laranjeira, Patrícia Moreira, Emre Belozoglu, Dom Imus, Daniel Koellerer e tantos outros racistas velados que temos por aí.

O personagem que utilizei para começar esse texto, Barbosa, faleceu no dia 07/04/2000, data importante para a história do Vasco, pois foi no mesmo dia, em 1924, que foi escrita e assinada a “Carta Resposta” do então presidente cruzmaltino José Augusto Prestes, onde recusava-se a cumprir o pedido da AMEA (Associação Metropolitana de Esportes Athléticos) de excluir de seu time 12 atletas, todos negros e operários.

Barbosa jogou apenas mais um jogo pela Seleção após a final de 50: uma vitória por 2x0 diante do Equador, em 1953. Ou seja, o último gol sofrido por Barbosa com a amarelinha, foi o do uruguaio Ghiggia.

A pena imposta à Barbosa por toda vida, por um crime que ele sequer cometeu, será sempre cobrada com juros.

 

Deixo o link da história completa sobre a Carta Resposta:

http://www.vasco.com.br/site/conteudo/detalhe/36/1924-a-resposta-historica

E outros links utilizados para escrever este artigo:

https://www.foxsports.com.br/news/299262-barbosa-quis-se-enterrar-em--mas-morreu-muito-feliz-filha-diz-como-goleiro-reagiu-ate-a-morte

https://brasil.elpais.com/brasil/2014/06/11/deportes/1402498066_930352.html

https://www.lance.com.br/futebol-internacional/convocado-pela-russia-ari-vitima-xenofobia-rebate-criticas.html

https://globoesporte.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/presidente-do-blooming-critica-serginho-e-pede-suspensao-de-um-ano-ao-jogador-por-deixar-jogo.ghtml

http://globoesporte.globo.com/rs/futebol/times/gremio/noticia/2014/09/gremio-e-excluido-da-copa-do-brasil-apos-julgamento-por-injurias-raciais.html

Comentários

Deixa eu pensar

Marcelo Sandy

Marcelo Sandy

Marcelo Sandy é um jovem ituano, palmeirense, aspirante a cronista. Escreve textos reflexivos que levam os leitores a pensar sobre diversos temas. Seu foco principal são as crises existenciais do ser humano.

Arquivo