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Publicado: Domingo, 6 de março de 2011

Zero é nota?

Zero é nota?
Zero é o lobo disfarçado de cordeiro

Eu não sei quantos dos meus leitores já experimentaram a sensação de receber um zero em provas escolares.

Eu lembro, com a mesma dor e desconforto da época, de ter passado por isso duas vezes.  Sempre em provas de matemática, rubricadas por um professor arrogante e perverso. A sensação é tão ruim e maldosa que sinto neste momento, as mãos suadas em resposta a essa lembrança.  

Por isso, sinceramente, remexer a memória não será fácil.  Julgo a ação desse meu professor um crime social, ainda que inconsciente. Para minha saúde mental e desenvolvimento intelectual aprendi rapidamente a fugir das situações que chegassem perto da possibilidade de mais um zero tatuar a minha história. E cá entre nós, reação muito inteligente de uma grande maioria; afinal. Quantos de nós não crescemos acreditando que jamais conseguiríamos aprender matemática?

Ocorre, porém, que presencio a repetência e a insistência dessa história, depois de tantos anos passados, com adolescentes que me cercam. E como educadora, não posso me omitir. 

Um zero é nada. NADA. Compreendem?  Pois bem, o que mais me assusta é que muitos professores não compreendem. E continuam a espalhar tamanha crueldade.

Vamos pensar juntos. E para pensarmos bem, convido a Profª Thereza Penna Firme, a quem tive o grande prazer de conhecer pessoalmente, para nos ajudar. Em suas pesquisas, Thereza relacionou uma coleção de mitos sobre avaliação enraizada em nosso sistema educacional. A nota zero é um deles. Os professores acreditam de verdade que zero pode ser considerado resultado de aprendizagem. 

E eu pergunto: o que diz um zero como diagnóstico de aprendizado? Ele está mais para a falta de estudo do aluno ou para a forma como o conteúdo foi ensinado pelo professor? Ou ainda para a ineficiência e a ineficácia da escola?  

Recentemente uma adolescente me contou que ao receber um zero na prova de matemática se sentiu a pessoa mais burra do mundo e que apesar do sentimento, porém como defesa vital, deu uma boa gargalhada em sala de aula.  No entanto, em sua casa, passou o resto do dia chorando e se perguntado: o que será de mim? O que serei na vida com tanto fracasso? Eu sou mesmo uma burra...

É exatamente nesse ponto que a escola precisa atuar. Não é possível construir um espaço de aprendizado e de melhoramento das pessoas com a manutenção de um sistema seletivo e perverso. Um sistema que enfatiza símbolos e linguagens e despreza indivíduos.  A escola ainda não reconheceu que a prioridade da sua atuação são as pessoas. Seres humanos.  E que um zero pode destruir um  campo aberto de muitas possibilidades.   

A pior maldade do mundo é a reconhecida socialmente, envernizada, disfarçada...  Zero é o lobo disfarçado de cordeiro. Ele atesta o fracasso da escola, mas o transfere para o aluno. Há quanto tempo essa adolescente é aluna da escola? Quantas horas aulas de matemática essa aluna assistiu em 10 anos de ensino escolar?   

Por isso continuo rezando Saramago, suas palavras me ajudam a exorcizar o capeta: “A prioridade absoluta tem de ser o ser humano. Acima dessa não reconheço nenhuma outra.”  

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Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

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