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Publicado: Segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Você é Mal Educado

Crédito: Internet Você é Mal Educado
Você não é educado, é adestrado pelo sistema.

Ninguém fique assustado com o título acima, tampouco suba nas tamancas. Sim, o brasileiro é mal educado e basta um olhar mais profundo para chegarmos a tal conclusão. Primeiro é necessária uma sutil diferenciação: educação é uma coisa; ensino é outra. Quem não puder diferenciar não conseguirá compreender o que devemos buscar e do que somos reféns. O senso comum conseguiu destruir o correto significado dos termos e isso prejudica toda e qualquer reflexão séria.

A verdadeira educação não é dada, é conquistada. Cada pessoa deveria ter a liberdade de aprender, educar-se, de acordo com suas próprias aptidões e gostos. A liberdade é o melhor caminho para uma educação  verdadeira, fazendo com que cada um possa escolher o que deseja estudar, de acordo com a área de atuação preferida. Para quê insistir em cálculos e equações com quem deseja ser antropólogo? Para quê insistir em Sócrates e Platão com quem deseja ser torneiro mecânico?

Não venham com chorumelas: é claro que um operário pode estudar filosofia, como é claro que um filósofo pode aprender marcenaria. Mas isso desde que sejam livres para tal e não porque estejam obrigados. Se cada pessoa, dentro da sua área de interesse, tivesse a liberdade de estudar apenas o que é realmente importante para se tornar um bom profissional em determinado segmento, teríamos uma economia enorme de tempo e de insatisfações.

Essa tal liberdade nos estudos não elimina a necessidade de um professor para guiar a caminhada educacional. Trata-se de um dado antropológico: em todas as culturas, em todos os lugares, em todos os tempos, a figura do mestre é mais que necessária. Como adquirir sabedoria? Com os sábios. Como adquirir experiência? Com os experientes. Como tornar-se um bom profissional? Trabalhando com bons profissionais. O “dize-me com quem andas e te direis quem és” resume essa questão.

O tal do “desconstrutivismo”, encarnado de modo tupiniquim por Paulo Freire e seus incautos asseclas, prega a liberdade dos alunos mas coloca o professor como mero espectador. O protagonismo dado aos discípulos é insípido, incolor e inodoro. Sem a figura do mestre, são como cegos guiando outros cegos. Um bando desordenado fazendo o que quer, mas sem saber realmente a razão disso.

Se essa porcariada pregada por Paulo Freire funcionasse mesmo, o Brasil não estaria nessa dramática condição educacional, que é a pior do mundo. De acordo com as aferições internacionais o brasileiro é o povo mais burro do planeta. Nossos universitários não sabem interpretar um simples texto, seja em prosa ou poesia. Não sabem realizar operações matemáticas mais complexas, de segundo grau. Não conseguem escrever um texto de uma lauda que seja coeso e objetivo.

A razão disso é que, há décadas, o povo brasileiro não vem sendo educado (do ato de educar alguém) mas ensinado (do ato de adestrar alguém). Nossas crianças e jovens não são educadas para a vida. Não são educadas a pensar por si mesmas e assim encontrar os valores morais, as regras do contrato social ou as riquezas da nossa cultura. Nossos alunos encontram cada vez menos, infelizmente, verdadeiros mestres que lhes sirvam de exemplo e parâmetro, que façam surgir em seus pensamentos algo como “no futuro quero ser como essa pessoa”.

Você é mal educado porque esse nunca foi o objetivo dos que nos governam. A proposta de “educação” (sic!) dos governos brasileiros sempre foi a de “Ensino”, ou seja, adestramento. Na escola e na universidade somos ensinados a pensar, a falar e a nos comportar de acordo com a cartilha politicamente correta. E ai de quem pensar diferente; ai de quem não se enquadrar ao sistema educacional; ai de quem desejar que a roda vire ao contrário.

O resultado disso é que temos no Brasil muita gente diplomada, mas que joga lixo no chão e não dá seta pra fazer uma curva. Temos muita gente com MBA, mas capazes de cometer crimes bárbaros como estupro ou pedofilia. Temos muita gente com mestrado, supostamente “inteligente”, mas incapaz de lidar com as complexas relações familiares. Temos muita gente com doutorado, mas que são racistas e individualistas. Temos alguns PhD’s super frustrados porque não se sentem realizados como simples seres humanos. Todos adestrados, mas nada educados para uma existência sadia e feliz.

O povo brasileiro tem que parar com essa mania de achar que “Educação” é aprender coisas por obrigação e para fazer currículo. Está na hora de deixarmos de ser adestrados. Devemos, cada um por si mas nos ajudando mutuamente, buscar a educação que merecemos e queremos, mesmo que essa seja uma jornada árdua e solitária nadando contra a corrente. É preferível morrer nadando nessa tentativa do que conformar-se a sofrer nessa lama seca em que estamos atolados.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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