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Publicado: Sexta-feira, 20 de abril de 2018

Venezuela: Fartura e penúria sob o mesmo sol

Yo nací en esa ribera del Arauca vibrador
soy hermano de la espuma
de las garzas, de las rosas
y del soooool.
(Simon Díaz)

            Ao som de Alma Llanera, autêntico hino nacional da Venezuela, recordei os tempos felizes da Venezuela de 1980.

            Estacionei o Chevrolet Malibu na frente do supermercado CADA e percorri as prateleiras repletas de produtos nacionais e importados, desde a “harina pan” ingrediente das “arepas” típicas, até o Johnnie Walker Black, passando pelos licores, champagnes e vinhos franceses e italianos. Uma fartura que eu não encontraria no Brasil e que era sustentada pelos imensos recursos do petróleo. As crises do petróleo de 1973 e 1979 elevaram substancialmente os preços do ouro negro e a Venezuela encontrou seu apogeu econômico na abundancia dos petrodólares.

            As lojas do elegante Paseo Las Mercedes exibiam toda classe de artigos importados, desde as porcelanas Capo Di Monte e Lladró, até vestidos da alta moda. Um fim de semana na Isla Margarita bastava para apetrechar a sala com equipamentos de som e imagem a preços inimagináveis. Carros enormes, abastecidos com gasolina de alta octanagem a preço de banana, rodavam pelo transito congestionado de Caracas, com direito ao uso ilimitado da buzina. As festas eram contínuas e o venezuelano alegre e festeiro comemorava tudo todos os dias.

            Minha condição de expatriado de multinacional permitia que meus filhos estudassem no Colégio Emil Friedman, uma escola bilíngue de excelente padrão. Os alunos pobres das escolas públicas eram levados de avião a Disney, pela primeira-dama Blanca Rodríguez de Pérez. Restaurantes franceses, portugueses e italianos serviam o melhor da culinária aos abastados venezuelanos. O bolívar, por longos anos, foi cotado a $ 4,30 por dólar, permitindo um alto poder aquisitivo aos cidadãos.

            O dinheiro do petróleo trouxe a abundancia, mas não foi capaz de mudar a cultura do povo pelo desprezo ao trabalho. Naturalmente indolentes, os venezuelanos pouco produziam, preferindo aceitar a entrada de colombianos que trabalhavam duro para sobreviver e poupar. Os locais, por sua vez, jamais acreditaram que um dia o ouro negro perderia seu poder e assim, não criaram reservas para os dias difíceis. Que chegariam pelas mãos de um déspota iluminado por um socialismo obscuro.

            2018. A população foge em direção à Colômbia, Chile, Brasil ou qualquer país que a livre da ditadura bolivariana criada por Hugo El Loco Chávez e seu pupilo, o motorista de ônibus Nicolás Maduro. Morrendo de fome e de bala, os venezuelanos gastam suas últimas economias para fugir do país. “Este país sangra pelas fronteiras”, afirma Paula Ramón, jornalista que conseguiu escapar para o Brasil.

            Viver na Venezuela se tornou impossível. Em 2017 houve 89 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, o triplo do Brasil, um dos países mais violentos do mundo. Os carros sumiram, mais da metade da frota automotiva atingiu o fim da vida útil e não há peças de reposição. Uma ida ao supermercado, agora propriedade do Estado, consome um dia inteiro e, com sorte, a pessoa consegue um quilo de farinha, um pacote de manteiga e uma pasta de dentes. E tem que levar um montão de cédulas. Remédios, então, nem pensar, tem que trazer do exterior, pois os laboratórios fecharam ou foram estatizados.

            Muitas escolas suspenderam as aulas por falta de professores, que fugiram para o exterior. Empresários, cientistas, artistas e engenheiros debandaram. A ex-miss Venezuela Monica Spear Mootz foi morta junto com o marido em uma estrada, diante da filha de cinco anos.

            Para comprar 1 dólar é preciso 200.000 bolívares. E a cotação muda toda hora, pois a inflação para 2018 é estimada em 14.000%. O PIB vai cair 15% marcando uma recessão que já dura cinco anos. Com a desvalorização diária da moeda, o governo não consegue imprimir suficientes cédulas e, então, falta papel moeda e quem precisa tem que comprar dinheiro com ágio no mercado negro de bolívares. A Venezuela deve ao Brasil mais de 3 bilhões de reais, graças à generosidade do presidente Lula com os amigos socialistas. A dívida jamais será paga e cairá sobre os ombros do contribuinte brasileiro.

            Nem todos conseguirão fugir. Colômbia e Brasil recebem milhares de refugiados todos os dias. Mas, idosos, crianças e pobres em geral, não tem recursos para fazer a viagem ao exterior e seguem emagrecendo por falta de alimentos.

            A agonia do povo venezuelano terminará um dia, queira Deus. Porém, derrotar um ditador cercado de militares comprados e fanáticos fiéis, é tarefa dificílima. Contudo, como tantos outros regimes totalitários, o bolivarianismo também cairá um dia. Resta saber quantos sobreviverão a este genocídio político.

           Tenho o coração partido com a desventura da Venezuela. Lá deixei amigos que povoam os meus pesadelos ao pensar em seu sofrimento. Não sei se conseguiram escapar do tormento. Rezo por eles e nutro a esperança que os países da América Latina encontrem formas de desbancar o regime e seus ditadores. 1980 jamais voltará, mas aquele povo merece ao menos um futuro decente.

Y es que yo quiero tanto a mi Caracas 
Que solo pido a Dios cuando yo muera 
En vez de una oración sobre mi tumba 
El ultimo compás de alma llanera

 

 

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O Lado Humano

Orlando Mazzuli

Orlando Mazzuli

Consultor empresarial em Gestão de Pessoas. Ex-Executivo internacional de Finanças e RH. Coach Executivo. Conselheiro da ABRH - Associação Brasileira de RH e membro do G3RH. Articulista sobre Economia, Gestão de Pessoas, Comportamento e outros temas.

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