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Publicado: Terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma nova terra

Depois da guerra a Itália ficou arrasada. Campos queimados, cidades destruídas, miséria, dificuldades de toda a espécie.

E foi então que muitos italianos resolveram imigrar para a América, ou mais precisamente para o Brasil, cujas facilidades e fartura eram tudo de que precisavam nesse período difícil.

Martinho estava entusiasmado, disposto a tentar a sorte no longínquo e desconhecido país.

Quem não estava gostando nada dos planos era Henriqueta, a esposa de Martinho.

- Eu acho uma loucura ir para um país distante, sem saber nem mesmo falar sua língua, e se não der certo? Como é que a gente vai fazer para voltar?

- A língua é muito fácil, a gente aprende logo e daqui a alguns anos nós voltamos ricos, de primeira classe, para a nossa Pátria que já estará reconstruída e vamos ser muito felizes. Você vai ver.

- Não sei, não. Você está delirando. Isso vai ser um calvário; a começar pela longa viagem de navio, fico apavorada só de pensar em dias e dias no meio do mar sem ver terra firme.

- Bobagem! Você vai gostar. Nunca pudemos fazer uma viagem. Esta é a nossa oportunidade de conhecer as emoções de uma viagem longa, conhecer outras terras, outras gentes, outras culturas!

Mas Henriqueta não se convencia. Estava cada vez mais apavorada com a mudança, mas, por outro lado reconhecia que não era possível continuar naquela terra devassada que fora a sua linda e tão querida Itália e agora estava quase em ruínas.

Julinho, o filho, então, não cabia em si de alegria e entusiasmo.

Na escola, os meninos não falavam em outra coisa. Contavam e exageravam a riqueza da América.

- Dizem que lá tem ouro misturado com a areia, a gente vê brilhando com o sol!

- Os meninos de lá jogam gude com bolinhas de esmeralda.

- Que é esmeralda?

- Uma pedra preciosa que vale um dinheirão.

E por aí a fora.

Em casa, o pai falava de seus planos miraculosos, de como tudo aqui era bom e bonito, de quanto iam trabalhar para ganhar muito dinheiro e o que fariam quando fossem ricos.

- Os meninos lá na escola dizem que as índias andam peladas. É verdade?

- É verdade, mas ninguém se importa com isso. É costume entre os índios.

Henriqueta retruca zangada:

- Vá ver que é isso o seu assanhamento de ir para o Brasil. Quer ver as índias.

- Deixe de ser boba, mulher, imagine se eu preciso atravessar o Oceano para ver uma mulher pelada!

- Mas a gente vai morar perto dos índios? Dizem que eles comem gente.

- Não, eles moram em áreas reservadas. A gente vai morar longe deles. Provavelmente não vamos nem conhecê-los. E os índios do Brasil não comem gente, não.

Luizinha a filha menor fica dividida. Empolga-se com a novidade, mas fica meio insegura vendo a atitude da mãe.

- Mamãe, lá no Brasil você deixa dormir no seu quarto?

- Por que isso, menina?

- Porque eu vou ficar com medo do índio!

E foi assim que a família Piccini veio tentar a sorte no Brasil.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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