Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Uma noite com a Joyce

Desde criança Ary teve um pavor irracional de altura.
  
Nas suas traquinagens de garoto não estavam incluídas as subidas em árvores, postes ou telhados.
  
Roda gigante? Não! Bondinho do Pão de Açúcar? Nunca! Viajar de avião, então, nem pensar!
 
Os colegas caçoavam dele. Diziam que ele era medroso, mas não era bem assim, ele era acrofóbico.
  
Ary era inteligente e esforçado e, quando terminou a Faculdade, a empresa onde ele estagiava ofereceu-lhe um ótimo emprego, só que ele tinha que fazer um estágio no exterior.
  
Quando o chefe comunicou-lhe isso, ele imediatamente pensou na viagem de avião. Um calafrio percorreu-lhe o corpo, sentiu-se empalidecer, perdeu a voz.
  
O chefe percebeu e pensou que fosse emoção. Sorriu e disse:
 
- Depois combinamos os detalhes.
  
Não cogitou da hipótese de ele recusar a oferta. Todos os funcionários sonhavam com uma oportunidade dessas, não faltou quem lhe invejasse a sorte.
  
Ary ficou dividido, por um lado, era uma grande oportunidade para ele, recém-formado, começar uma brilhante carreira, por outro, o insensato medo de voar.
  
Resolveu enfrentar. Ele precisava acabar com essa bobagem, o avião é um meio de transporte muito seguro, as estatísticas...
  
Mas o seu coração não entendia de estatísticas, só entendia de medo.
  
Ary preparou-se para a viagem fingindo uma tranqüilidade que estava muito longe de sentir.
 
Aos que lhe notavam o nervosismo justificava-se dizendo que deixar a sua cidade, a família, a namorada, passar um ano em uma terra estranha, o deixava nervoso, mas não era nada disso. O que o deixava mais do que nervoso, apavorado, era pensar na longa noite dentro de um avião a quilômetros de altura.
  
Tinha insônia e, quando conseguia dormir, sonhava com aviões caindo. Não pensava em outra coisa e antecipava o terror que sentiria.
  
Mas estava decidido! Não ia jogar fora essa oportunidade, mesmo porque, precisava superar essa fobia. Sem viajar de avião a sua vida ficaria muito limitada.
  
Ele tinha que acabar com isso, dizia-lhe a razão, mas o coração insistia em apertar-se só de imaginar a altura.
  
Que medo!
  
Mas chegou à hora temida e ele adentrou o monstro de aço pensando:
 
- Amanhã estarei lá. É um novo caminho que se abre para mim. Oportunidade de aprender mais uma língua, de conquistar uma posição de destaque na empresa.
  
Recostou-se na poltrona e tentou, mas não conseguiu ignorar os perigos que estava correndo e pensar no futuro.
 
Ao seu lado sentou-se uma linda moça, mas ele nem reparou nela até o momento em que precisou levantar-se e pedir licença para passar por ela.
 
Quando voltou, desculpou-se:
 
- Estou incomodando de novo, desculpe!
 
- Que nada! Eu estava vendo que íamos passar a noite aqui sem trocarmos uma palavra. Eu adoro bater papo.
 
- Eu também (quem sabe se conversando um pouco ele conseguiria acalmar-se)
 Ela continuou falando:
 
- Gosto tanto de voar que não durmo a noite toda para não perder nem um momento de prazer.
  
- Eu também não consigo dormir. (por motivo muito diferente, pensou).
  
- Eu acho que era para eu ser um passarinho e esqueceram de me colocar as asas.
  
Riu.
 
- Quando era criança tinha tanta vontade de andar de avião que não sosseguei enquanto meu pai não pediu a um amigo que tinha um teco-teco para me levar dar uma volta. Era o dia de meu aniversário, 10 anos, acho que foi o dia mais feliz de minha vida.
  
Enquanto a moça tagarelava, Ary, aos poucos, foi se acalmando e, pouco depois, começou a falar de si, de seu trabalho, de sua cidade.
  
Gostava de conversar, a moça era simpática e o papo rolou solto pela madrugada a dentro.
  
Conversaram a noite toda e de repente ela disse:
 
- Olha, está amanhecendo! Estamos chegando! Que beleza a cidade lá embaixo! Vamos tirar umas fotos?
  
E os dois, se distraíram procurando os melhores ângulos para o clic.
  
Impulsivamente ele pediu a ela:
 
- Posso tirar uma foto sua para guardar de lembrança desta noite?
  
Ela abriu um sorriso maroto e pediu para tirar também uma foto dele.
 
- Meu nome é Ary. Foi muito bom conversar com você! (ela não podia imaginar quanto!)
 
- Eu sou a Joyce.
 
Já no aeroporto trocaram um aperto de mão e separaram-se. Provavelmente nunca mais se veriam, mas Ary sabia que nunca mais se esqueceria dela.
  
É engraçado! Há pessoas que vivem toda a vida perto de nós e não significam nada na nossa vida, outras, passam rapidamente e deixam a sua marca!
Comentários

Os contos da Maith

Maith

Maith

Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

Arquivo

30 de abril de 2012

Um rosto barbado

23 de abril de 2012

O ovo da Páscoa

16 de abril de 2012

Pode me chamar de Judas

9 de abril de 2012

Do diário de uma adolescente

2 de abril de 2012

Flores da minha vida