Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 10 de março de 2008

Uma idéia de jirico

A família Sherton estava há pouco tempo no Brasil.
 
Mr. Sherton conseguira um cargo importante na empresa americana onde trabalhava. Seria o seu representante, no Brasil, e isto significava status, bom salário e residência fixa no país, mais precisamente, em São Paulo.
 
Para ele tudo bem, estava satisfeito, realizado profissionalmente, mas a esposa e a filha não se acostumavam na nova cidade, tão distante, tão estranha e tão fria.
 
Lady Sherton estava muito assustada com a violência da cidade, amplamente noticiada nos jornais, principalmente, depois que um carro da família foi roubado e ela mesma teve sua bolsa arrebatada, na rua, por um trombadinha.
 
Mr. Sherton não deu maior importância e estes incidentes. O seguro pagou o carro e a bolsa roubada não valia muita coisa.
 
Miss Sherton, a Beth, era a que mais sofria. Sentia muita saudade da sua cidade, sua escola, seus amigos e, mais do que tudo, do seu namoradinho, o Bill.
 
A única coisa que queria era voltar para Nova York. Todos os dias choramingava para o Pai, mas ele dizia que era preciso ter paciência, que sua carreira na Empresa dependia de sua permanência aqui
 
Na escola, os colegas não davam atenção a ela, não procuravam uma aproximação e ela também não fazia o menor empenho em ser-lhes simpática.
 
Seu único amigo, era o Bruno, um menino muito pobre que ganhara uma bolsa e estava estudando nessa escola onde a maioria dos alunos pertencia à elite ou à classe média alta.
 
Ele também era discriminado pelos colegas, mas, acostumado com as agruras da vida, não dava muita importância a isso.
 
Quando a bela americanazinha chegou, ele sentiu que, de certa forma, suas situações eram semelhantes.
 
Embora por motivos diferentes, ambos eram ignorados pelos colegas. Também ela, não tinha amigos, não era convidada para as festinhas e, muitas vezes, era vítima de caçoadas, porque tinha hábitos diferentes e expressava-se com dificuldade.
 
Ele era dos melhores alunos, mas vestia-se mal, morava em uma favela e sua família não aparecia nas colunas sociais.
 
A amizade entre Beth e Bruno a cada dia intensificava-se mais. Ele a ajudava nas lições, principalmente no português, sua maior dificuldade, e ela treinava com ele a pronúncia do inglês.
 
Os professores ficaram um tanto preocupados com a proximidade da aluna nova com o favelado, mas não podiam tomar nenhuma atitude. Afinal, ele se comportava muito bem na escola e não podiam discriminá-lo só porque se vestia mal e morava na favela.
 
Logo ela começou a fazer-lhe confidências. Falou da saudade da sua Terra, da falta que sentia do namorado, da vontade de voltar para Nova York.
 
Um dia falou da mãe e de seu medo da violência da cidade, e, foi então que o Bruno teve a “brilhante idéia”:
 
- Vamos dar um susto bem grande nela e ela convence seu Pai a voltar.
- Como assim?
- Vamos simular um seqüestro. Eu conheço um vizinho que faria isso pra nós. Ele já fez vários seqüestros de verdade. Se eu pedir,ele fará, de mentirinha.
- Como seria isso?
- Quando sua mãe vier buscá-la, ele mostra-lhe um revolver, obriga-a a descer do carro e foge com você. Eu estarei esperando e a levarei para minha casa onde você ficará em segurança até que seu pai pague o resgate. Dai você volta de táxi para casa e a gente abandona o carro em um lugar fácil de encontrar.
- Você está louco! Eu não teria coragem de fazer uma coisa dessas. Minha mãe é capaz de morrer de susto!
- Morre, nada! Vai ser só algumas horas. Assim que ele a pegar, eu telefono para seu pai marcando o lugar para ele deixar o dinheiro e logo que ele o levar eu pego a grana e vou buscá-la.
- E se meu pai não tiver todo o dinheiro que ele pedir?
- A gente pede pouco. Mil reais! Só para dar autenticidade à farsa.
- Não, Bruno, nem pensar!
- Pense bem, se quiser...
 
Beth não conseguia esquecer a conversa do Bruno. Se fizesse o que ele sugeriu, com certeza, o Pai não ia querer continuar em São Paulo, esta cidade violenta onde as menininhas não têm segurança. Mas, ao mesmo tempo em que se sentia tentada a fazer o que ele sugeria, sentia um medo enorme que alguma coisa desse errado.
 
À noite, conversando com o Bill no ICQ, contou a ele a sugestão de seu colega e, para sua surpresa, ele achou genial a idéia
 
- Se ele é seu amigo e você confia nele, acho que nada de mal pode acontecer.
 
E ainda brincou com ela:
- O único perigo que estou vendo é você acabar se apaixonando por esse Bruno e me esquecer.
- Como se isso fosse possível, seu bobinho!
 
Alguns dias depois, Bruno teve outra idéia. Não ia por o bandido no meio. Ele mesmo simulava o assalto. Usava uma arma de brinquedo que seu pai tinha muito bem guardada (ele não imaginava por què). Na hora cobria o rosto com um lenço só para impressionar, pois a mãe não o conhecia e, medrosa do jeito que era, não ia perceber que tudo era uma encenação.
 
- Mas, isso é crime! Você pode ser preso.
- A polícia não pega nem 10% dos crimes de verdade, não vai perder tempo com uma bobagem dessas e além
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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