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Publicado: Segunda-feira, 22 de julho de 2019

Centenária história de amor

Crédito: Domínio Público Centenária história de amor

 

Antonio de Oliveira Rocha e Isolina Martins Ribeiro fugiram da fazenda Ingá-Mirim, na Estrada Apotriba, Bairro Pedregulho. Perambularam durante três dias, antes de serem encontrados em Ytu pela polícia, num frio de sete graus e meio.

Sob o título de “Ratoeira”, a pequena nota na primeira página do periódico “Município de Ytu”, de 12 de março de 1916, pouco revela.

A polícia que “não gosta de ver pessoas estranhas a palmilhar pelas ruas, sem uma ocupação certa (e) diante da queixa feita pelo pai de um dos jovens, tratou de legalizar a vida dos fugitivos, depois de remover o impedimento que trata o parágrafo 6º do art. 7º do Decreto 181, de 24 de janeiro de 1860” (sic). O Decreto, na verdade, é de 1890.

O “impedimento” citado refere-se á proibição do casamento do “raptor com a raptada, emquanto esta não estiver em logar seguro e fóra do poder delle” (sic).

Numa época de disputas político-religiosas, controle moral e casamentos arranjados, fugas e raptos eram o jeito de escapar às regras.

O Decreto nº 181, de autoria de Ruy Barbosa, reconhecia como legal somente o casamento civil e foi regulamentado pelo governo provisório da República.  Uma de suas finalidades era a de retirar os poderes da Igreja Católica sobre a nupcialidade, com a separação entre Estado e Igreja.

Outros temas como a liberdade de culto, o casamento civil e sua extensão aos não-católicos (casamentos mistos) e a secularização dos cemitérios faziam parte do pacote de medidas.

O clero considerou a nova ordem como uma afronta aos direitos dos católicos e um atentado à liberdade da sociedade. A união civil era vista como uma ofensa aos bons costumes da família cristã. O matrimônio sem as bênçãos da Igreja significava que o casal viveria em pecado e sem reconhecimento social.

Procurados no século 21, aparentemente Antonio e Isolina não deixaram seus rastros ou o de possíveis descendentes, nas fazendas ituanas desmembradas da velha Ingá-Mirim.

Foram capturados? Se casaram? Além das normas da época, tomara que o amor tenha vencido!

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História & Cotidiano

Katia Auvray

Katia Auvray

Historiadora e escritora. Autora dos livros "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da coleção infanto-juvenil "Magia da História", sobre a história da cidade de Salto/SP. Também é Mestre Reiki.

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