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Publicado: Segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uma família como poucas (ou será "como muitas"?)

Na sua noite de núpcias, Albertina pediu ao marido que fizesse com ela uma prece de agradecimento.

Ludovico, naquela hora, faria qualquer coisa que ela pedisse e mesmo sem ser muito religioso, tomou-lhe a mão e rezaram juntos:

“Senhor, nós te agradecemos por este dia de Paz, de Alegria e de Felicidade”

E a vida a dois começou.

A situação financeira do casal era instável. Ludovico, algumas vezes ganhava bem, outras não ganhava quase nada.

Com a vinda dos filhos, ficou mais difícil equilibrar as despesas e então, quando as dificuldades eram muitas,Albertina fazia salgadinhos para ganhar um pouco mais, atividade que abandonava quando a situação melhorava.

E assim, entre gravidez, amamentação, fraldas, fartura, escassez, coxinhas empadas e pastéis o tempo foi passando.

Quando Ludovico aposentou-se a vida estabilizou-se, mas, com os filhos já crescidos, as dificuldades não acabaram.

Celso, o filho mais velho, separou-se da mulher e veio para a casa dos pais com a filhinha de cinco anos, Emanoelle, para a avó cuidar.

Emanoelle sentia a falta da mãe, chorava muito e Celso, irritado com a situação, não tinha muita paciência com ela.

Era Albertina quem cuidava, agradava, suportava as manhas.

Edgar, o segundo, teve um envolvimento com tráfico de drogas...

Albertina tinha medo de saber o que realmente tinha acontecido, mas a verdade é que ele estava preso e pediu a ela que cuidasse de Ludmila, a esposa, e Kátia, a filha adolescente.

Ludmila estava depressiva. Passava os dias deitada, chorando, só falava em morrer e todos tinham medo que ela acabasse cometendo suicídio.

Kátia era uma menina difícil, descontente, insegura e muito malcriada...

Albertina tinha pena da nora, procurava animá-la e agradar a neta, mas sem grande resultado.

Dulce, a filha mais velha, não queria trabalhar nem estudar. Sua meta era encontrar um marido rico e, para tanto, queria freqüentar lugares badalados o que sempre representava muita despesa.

Estela, a outra filha, era o inverso da irmã. Estudiosa, freqüentava boas (e caras) escolas e almejava ter uma profissão que lhe assegurasse um bom salário para não depender de marido, quando casasse.

E tinha ainda o Carlinhos, temporão, mimado, irresponsável e brincalhão.

Além dos filhos, o casal criava uma afilhada, a Pámela, que perdeu a mãe com poucos meses de vida e o Ectore, um garoto que foi abandonado por uma empregada da casa, que fugiu ninguém sabia pra onde.

Albertina ficou com o menino esperando que ela voltasse, mas ela nunca mais voltou, então o casal batizou-o e, como seu afilhado, acabou de criá-lo.

Naquela tarde o Ectore veio da rua com a novidade:

- Madrinha, o Chico do boteco quer falar com você.

- Ele deve estar querendo que eu faça salgados pra ele e eu vou fazer.

Dulce protestou:

- Ah. Não! Imagine o que meus amigos vão pensar se souberem que minha mãe faz bolinhos para o boteco do Chico!

- E por que você acha que eles vão se importar com o que sua mãe faz? De mais a mais é uma atividade honesta, nada de vergonhoso.

Saiu apressada. Que bom! Este mês estava tão apertada com o orçamento querendo estourar.

Voltou cabisbaixa e o marido foi logo perguntando:

- O que aconteceu? O Chico não quis encomendar os salgados?

- Não. O que ele queria era dizer que o Edgar deixou uma conta sem pagar.

- E o que você disse?

- Não disse nada. Paguei.

Mas não tinha tempo para lamentações. Foi preparar o jantar e depois lavou a louça auxiliada pela Pámela.

Notou que a garota estava meio estranha como se quisesse falar alguma coisa e não tivesse coragem.

O que é que a está perturbando? Pode falar.

Já chorando:

- Eu estou grávida.

- Meu Deus! Nem sabia que você tinha um namorado.

- Ele não é meu namorado. A gente estava só ficando.

- E quem é ele?

- Ele estava estudando aqui, mas foi embora.

- Meu Deus! E que vamos fazer?

- Eu pensei que a gente podia dizer que é do Rui.

- E quem é esse Rui?

- O meu atual ficante.

- Meu Deus! Quanta coisa acontece na minha família sem eu saber! Será que falhei na educação dessas crianças?

- Por hoje chega! Vou dormir que já está na hora. Boa noite!

Deitou-se ao lado do Ludovico e, como vinham fazendo há trinta anos rezaram juntos:

“Senhor, nós te agradecemos por este dia de Paz, de Alegria e de Felicidade”

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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