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Publicado: Segunda-feira, 11 de julho de 2011

Uma amante para meu marido

O sonho de Emanuelle era desfilar em uma passarela vestida com um exótico traje assinado por algum costureiro de renome.

Nunca assistira um desfile ao vivo, contentava-se em ver na televisão e sonhar com o dia que pudesse, não apenas assistir, mas participar.

Enquanto seu sonho não se realizava, trabalhava como atendente em um hospital e foi ali que conheceu o Melitão, um homem quase cinquenta anos mais velho, mas que se apaixonou perdidamente por ela. Ele não era tudo o que ela sonhara, mas era muito rico e ela achou que valia a pena abrir mão de todo romantismo para desfrutar as facilidades que seu dinheiro podia proporcionar.

E começou para Emanuelle uma vida muito diferente da que tivera até então. Joias, roupas de marca, noitadas, viagens. O marido encantado com a quase menina que o levava às nuvens estava tão feliz que lhe satisfazia todos os desejos.

Por insistência dela fixaram residência em Milão, ela começou a frequentar uma escola para modelos e antes do que podia imaginar estava fazendo sucesso na passarela atraindo as atenções e recebendo galanteios de homens bem mais interessantes do que o seu marido.

Não demorou para que ela tomasse consciência de que estava perdendo os melhores anos de sua vida ao lado de um homem decrépito que dormia de pijama de flanela, roncava e não satisfazia seus anseios, e começou a arquitetar um plano para livrar-se dele.

 Não desejava sua morte, que, aliás, seria a melhor solução, pois como eram casados com comunhão total de bens todo seu patrimônio seria dela, mas ela não chegava a tanto. Tudo que queria era o divórcio, ficaria com a metade que já não era pouco e ele ficaria livre para “comprar” outra mulher.

Mas como levar a cabo o seu intento? Ele não parecia notar as belas mulheres que desfilavam com ela na passarela nem suas amigas cheias de charme e por mais que ela tentasse aproximações não conseguia vê-lo interessado em aventuras amorosas.

Começou a confidenciar com as amigas que seu casamento não ia bem, que estavam pensando em uma separação, deixando ardilosamente transparecer como ele era rico generoso e fogoso. Pensou que na certa alguma delas ia se interessar e dar em cima dele, mas nada aconteceu.

O próprio Militão acabou tomando a decisão tão desejada:

— Não quero mais que você desfile. Pode rescindir o contrato com seu costureiro.

— Mas, como assim? Você sabe que este é o meu trabalho e que a passarela é a minha vida.

— Mas eu sou seu marido e tenho meus direitos.

— Direitos muito questionáveis.

— Pois você vai escolher agora. Ou a passarela ou eu.

— A passarela!

— Então vamos providenciar o divorcio. Pode ser amigável?

— Sem dúvida!

Emanuelle não soube explicar a mudança de atitude do Militão. Era evidente que ele usou a passarela como desculpa. Por que será que ele quis a separação? Mesmo satisfeita com a decisão dele, ficou meio implicada:

— Será que ele deixou de gostar de mim de repente?

Ele, indiferente ao espanto da mulher, tomou o telefone em silêncio e faz a ligação:

— Cotinha, está tudo resolvido meu amor. Vamos a sair à noite para comemorar.

— ...

— Claro que pode levar a netinha. 

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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