Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Um pequeno engano

Depois de uma longa e tenebrosa espera numa sala lotada de portadores das mais variadas doenças reais ou imaginárias, ouvindo queixas de dores e desconfortos, de mau atendimento, de frio, calor, vento, poeira, barulho, e tudo mais que possa incomodar um ser humano, fragilizado, à procura de uma desculpa para sua própria insatisfação, Darcy, ouve, por fim, o seu nome:
 
- DARCY...!!!
 
Dirige-se apressada até a sala de exames, a tosse intermitente, a dor de garganta, o ouvido assobiando, a cabeça pesada, o mundo todo parecendo perder o equilíbrio e balançar a sua frente...
 
Ouve, então, a voz da enfermeira, como se viesse de muito longe, invadindo, a força, seus ouvidos doloridos, dizendo, com o dedo apontando-lhe uma porta:
- Você vai fazer uma endoscopia.
- Endo... o que? ...Eu não vou fazer isso, não!
- Como não? Está aqui na sua ficha
- Mas o médico disse que eram um raios-X do tórax.
- Nada disso! Vamos logo que tem muita gente esperando.
- Eu não quero fazer essa coisa. Não foi isso que o médico falou.
- Você está com medo? É um exame muito simples, não dói nada, vamos logo!
- Já disse que não vou. Eu quero fazer os raios-X que o médico pediu. - Que vergonha! Um homem desse tamanho com medo de um examinho à toa!
- Homem?! Eu não sou homem!
- Não?! Aqui está a ficha. Darcy de Moura Vieira. Sexo masculino. Não é esse o seu nome?
- Claro que não! Sou Darcy de Souza Oliveira.
- Então, houve um engano, mas também com essa cara, esse cabelo, essa voz, essa roupa e esse nome dúbio, qualquer um pensaria que você é um homem.
 - Volte para a sala de espera que eu vou chamar o Darcy de Moura Vieira que “deve” ser um homem de verdade.
Aquilo era demais! Darcy começou a chorar, e, foi soluçando que voltou para a sala de espera.
A atendente refez sua cara impessoal e bradou:
- DARCY DE MOURA VIEIRA!
Antes, porém, que o senhor obeso pudesse levantar-se da cadeira, alguém correu até a porta e apontando o dedo ameaçador à aturdida mulher, gritou:
 - EU QUERO SABER O QUE VOCE FEZ COM A MINHA FILHA PARA QUE ELA VOLTASSE DAÍ CHORANDO, SEM FAZER O SEU EXAME!
 - Houve um pequeno engano... pensei que ela fosse um homem... ou melhor... confundi os nomes... também... essas meninas vestem-se como homens, parecem um rapaz. A senhora, como mãe, devia estimulá-la a ser mais feminina.
 - Mas eu não sou a Mãe, sou o PAI!
Comentários

Os contos da Maith

Maith

Maith

Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

Arquivo

30 de abril de 2012

Um rosto barbado

23 de abril de 2012

O ovo da Páscoa

16 de abril de 2012

Pode me chamar de Judas

9 de abril de 2012

Do diário de uma adolescente

2 de abril de 2012

Flores da minha vida