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Publicado: Quarta-feira, 29 de julho de 2015

Um Leão Em Pele de Cordeiro

Um Leão Em Pele de Cordeiro

O predador assume sua posição, preparando-se para mais uma caçada. Seu coração pulsa forte, fazendo as veias da sua têmpora saltarem. Seus olhos nem piscam. Sua respiração está ofegante.

Surge a vítima. Mais de 100 de quilos de carne e músculos se movendo majestosamente na savana africana. A mata seca cede sob a pressão do seu peso e força, deixando rastros profundos na relva. Seu caminhar lento e distraído denuncia que a criatura sequer imagina que está sendo vigiada de perto.

De muito perto.

A fera está na espreita. É ágil e dificilmente erra. Está esperando o momento certo.

50 metros... 40... 30...

O golpe é certeiro. O sangue começa a jorrar do corpo perfurado da vítima que, espantosamente, não tomba. Ao contrário: escapa pra dentro da selva deixando não um, mas três predadores pra trás, atônitos.

A cena ocorreu em algum lugar do Zimbabwe. Cecil, um leão de 13 anos de idade, foi alvejado por uma flechada - quase - certeira do pacato dentista americano Walter James Palmer, um caçador "esportivo" famoso por ter abatido, entre outros animais, rinocerontes, ursos e leopardos.

Sim, você adivinhou bem: todos ameaçados de extinção.

Palmer contratou caçadores locais pra ajudá-lo a fazer seu trabalho sujo. O preço? U$55.000,00. Os dois homens ludibriaram o leão para uma emboscada, onde o dentista pôde exercer todas as suas habilidades de caçador nato, com direito a um arco de última geração, uma armadilha muito bem montada e a visibilidade perfeita do alvo.

Cecil fugiu pra selva logo depois de ser atingido. Foram 40 horas de perseguição, com os três homens seguindo seus rastros e pegadas até finalmente encontrá-lo, agonizando. Após quase dois dias de dor e sofrimento desnecessários, os dois caçadores contratados por Palmer finalmente puseram um fim ao sofrimento do animal, usando armas convencionais mesmo.

Teria sido um crime perfeito, sem nenhuma testemunha pra contar a história. Mas os homens deram azar: Cecil era rastreado por uma equipe que cuida da preservação da fauna local. Seu corpo foi descoberto horas depois, já sem cabeça.

A covardia de Palmer - surprender um leão sob aquelas condições, com direito a tecnologia de ponta, armadilhas e emboscadas e sem dar a menor chance de defesa pra vítima - foi exposta ao mundo todo. O dentista entrou em pânico e, claro, viril e corajoso como é, tratou de desaparecer do mapa. Seu consultório está fechado e ninguém sabe onde ele está.

Quando eu era menino, tinha imensa vontade de caçar. Eu via aqueles filmes com aqueles sujeitos durões, andando com armas pesadas nos ombros e fazendo caras de mau, e pensava: "Puxa, quero ser como eles." Parecia realmente uma coisa máscula, viril e até mesmo óbvia de ser feita. Humanos precisam de carne. Caçar é um meio de obtê-la. Certo?

Então eu cresci e transei. E percebi que existem coisas mais másculas, viris e prazerosas - pra todos os envolvidos - que o ato mesquinho e egoísta de caçar.

Até entendo que há uma certa adrenalina no ato, principalmente se for contra um animal grande e ameaçador. Mas Palmer não se deu ao trabalho nem disso. Contratou caçadores experientes pra fazer toda a parte difícil e sequer teve a coragem de enfrentar Cecil cara a cara. Tudo foi feito com mais conforto e segurança do que eu tenho assistindo Animal Planet no sofá da minha casa.

O que Palmer fez - e seus apoiadores e seguidores ajudam a perpetuar - não tem explicação. Não tem desculpa. Não tem lógica. É imoral. É desprezível. É cruel. Matar pelo simples prazer de matar - e pendurar a cabeça do animal na sua sala pra compartilhar com seus amigos de pênis pequeno e egos inflados - é um ato covarde, inescrupuloso e desprovido de humanidade. Mal posso pôr em palavras o nojo, o asco e a dor que a notícia me causou.

Palmer está sendo procurado. Se vai ser preso? Gostaria de pensar que sim. Mas, se não, é esperado que, ao menos, seu consultório perca uma grande soma em dinheiro. E, oxalá, que perca o suficiente pra nunca mais ter um centavo pra gastar num esporte tão ridículo e bárbaro como este.

Que a morte de Cecil sirva ao menos para nos conscientizar que é preciso um mundo com menos crueldade e mais respeito à vida e a natureza.

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Papo Cabeça

Rafael Cavacchini

Rafael Cavacchini

Empresário, romancista, redator, crítico político e antropólogo. Escreve utilizando linguagem ácida e direta, sem abandonar a ética nem apelar pra demagogia desnecessária.

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