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Publicado: Domingo, 26 de abril de 2015

Um Espelho Invertido(Na Admissão às Ordens Sacras)

Crédito: Internet Um Espelho Invertido(Na Admissão às Ordens Sacras)
Não sou digno, mas a Fé na Graça me faz seguir adiante.

Na caminhada rumo ao sacerdócio, o rito de Admissão às Ordens Sacras mexe comigo interiormente. Um mar de reflexões e outro de sentimentos se misturam. Mente e coração interagem sem cessar, causando impressões na alma.

Emociona ouvir do bispo, diante de toda a comunidade de fiéis, que a Igreja enxergou em mim as qualidades necessárias para ser um padre. Mais que isso: dá frio na espinha, dor de barriga e falta de sono.

No Seminário devo aprender a pensar igual a Jesus, viver igual a Jesus, rezar igual a Jesus, falar igual a Jesus, etc. E haja leituras e estudos, missas e orações, tarefas e situações.

Já não sou um iniciante nesta caminhada. Já não sou o mesmo da vida de antes. E ainda não sou o padre que desejo ser. Há muito pela frente: muito a aprender, muito em que me converter, muito que viver.

Quem olha de fora vê a aparência e julga. Não tem a mínima condição de saber a respeito do meu estado interior. Conforme avanço nesta caminhada vocacional, mais tomo consciência das responsabilidades desse caminho.

Quanto mais rezo, mais encontro pecados pra corrigir em mim. Quanto mais estudo, mais dúvidas me invadem. Quanto mais me coloco a serviço do povo de Deus, mais entendo que há muito pra fazer.

Tudo parece com um espelho invertido. De fora, talvez possam me considerar cada vez mais capaz. Porém, por dentro, conheço cada vez mais minhas imperfeições, misérias e limitações. É grande a batalha interior em busca da conversão. É enorme o combate entre o homem velho e o homem novo.

Não, não me acho digno de ser padre. Não me acho digno de colocar-me no lugar de Jesus Cristo na hora de celebrar a missa ou de ouvir uma confissão. Tenho medo. Choro de pavor com a idéia de vir a ser um padre medíocre e acomodado, que não pense nas necessidades do povo e na salvação das almas.

Então, o que me faz continuar? É o que chamam de Fé. São os pequenos ou grandes acontecimentos do cotidiano nos quais percebo o próprio Nazareno a me dizer: "Não tenhas medo! Coragem! Fica comigo, que eu fico contigo! Basta-te a minha graça! Conto contigo!".

Não há como ouvir esta voz e permanecer enterrado no medo. Não há como ouvir esse chamado e ficar parado. Sei que o mundo inventará mil maneiras de me incomodar, de me injuriar, de me trazer dor, de me machucar. Não importa.

A minha Fé, do tamanho de um grão de mostarda, me faz perseverar na graça divina. Sei que também devo aprender a ser crucificado com o meu Mestre e Senhor. Sei que morrerei com Cristo, com todas as dores incluídas. Mas sei que também ressuscitarei para a verdadeira vida com Ele. Isso importa!

Deus, tenha misericórdia de mim! Que os meus pecados não me impeçam de entregar a minha vida ao sacerdócio!

Conto com as preces de todos.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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