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Publicado: Quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Um Crime na Rua dos Andradas

Um Crime na Rua dos Andradas

Um dos meus pequenos vícios que não consigo me livrar de jeito nenhum, embora certamente eu devesse, é almoçar no restaurante da esquina em frente à minha loja, enquanto deixo meu estabelecimento aberto e tecnicamente ainda funcionando. O restaurante, é claro, tem uma comida fenomenal, mas o fato de comer ali com as portas da minha loja escancaradas, bem no centro da cidade, é que constitui um hábito não-saudável: é justamente nessas horas que sempre aparece algum cliente que conseguiu uma folga da firma na hora do almoço e que gostaria de comprar um produto, encontrando, evidentemente, a loja vazia e ninguém do outro lado do balcão para atendê-lo. 20 segundos depois, chega eu, esbaforido, limpando a boca, pedindo desculpas pela pequena falha de não estar lá para recepcioná-lo. O cliente sempre entende, mas ainda assim, é provável que seja constrangedor pra ele ver o vendedor que deveria atendê-lo entrando pela porta da loja só DEPOIS que o cliente já está lá dentro. É um costume que um dia irei me livrar e hoje provavelmente tenho um bom motivo pra isso. Explicarei melhor.

Estou sentado na mesma mesa do mesmo restaurante onde almoço todos os dias, de onde posso ver a fachada toda do prédio onde funciona meu estabelecimento. Opa! Aí vem mais um freguês! O rapaz entra na loja. Me levanto, ao mesmo tempo que saco um guardanapo do suporte na mesa, livrando minhas mãos e boca dos vestígios de comida. Cruzo a rua mal tocando os pés no asfalto. Quando chego na porta da loja, o cliente já está saindo, com uma expressão confusa.

Peço desculpas pelo atraso e pergunto se posso ajudar. O sujeito arregala os olhos. Sua face agora demonstrava não mais confusão, mas um completo horror. Ele gagueja. Não consegue articular as palavras. No segundo seguinte, ele sai em disparada pela rua.
Por um instante muito breve não tive certeza de como proceder. Meu cérebro tinha apenas um milésimo de segundo pra processar toda a informação e tentar compreender porque o atendimento não tinha seguido o padrão considerado normal.
No segundo seguinte finalmente compreendi a atitude do meu cliente: era um ladrão em fuga. Eu precisava reagir, mas não sabia exatamente como. Ele era mais magro que eu pelo menos vinte quilos e havia tomado a dianteira por pelo menos dez metros. Não tinha dúvidas. Era eu, ou ele. Fiz o que qualquer um teria feito...

***

Sempre que estou em público, seja na rua ou no trânsito, carrego comigo um revólver Taurus calibre 38. Tenho dois, na verdade. Um que gosto de deixar em casa ou no trabalho e outro que jamais tiro de dentro do meu carro. Me sinto mais protegido assim. São armas perfeitamente seguras e, afinal, atirei com elas um milhão de vezes em toda minha vida. Prefiro não fazer muito alarde disso, no entanto, pois não gostaria de ser mal visto pelas pessoas nem atrair a atenção desnecessária para mim, para a minha família, ou para a minha empresa.

Naquele momento, contudo, vendo o bandido ganhar distância e me sentindo passado pra trás e humilhado por um marginalzinho mequetrefe, permanecer com minha arma oculta sequer passou pela minha cabeça. Pelo contrário: com um rápido movimento, levantei a camiseta e saquei o revólver que trazia convenientemente preso na cintura. Firmei posição de tiro. Meu alvo ainda não estava muito longe. Tinha ele exatamente na minha mira e praticamente zero chances de errar. Calculei possíveis vítimas e não havia nenhuma. Realmente, era uma vantagem quase inacreditável. Acionei o cão e puxei o gatilho uma única vez. Um segundo depois, o homem caía no chão.

Aproximei-me com a arma em punho, berrando palavras e impropérios que mal consigo me lembrar agora. Pisei na mão do sujeito tentando fazer com que soltasse um objeto que, eu imaginava, era um canivete. Não era. Era meu celular, que deixei carregando no balcão da loja e que ele havia roubado. Sorri, triunfante. Me senti, naquele momento, como se houvesse atingido o ápice do meu sucesso. Um marginal a menos, meu celular de volta, sou o herói do dia.

A polícia chegou minutos depois e me mandou soltar a arma, o que fiz sem objetar. Me encostaram na parede. Fui revistado de maneira relapsa e "convidado" a ir à delegacia. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido. Logo escutei barulho de ambulância mas já não vi mais nada: dentro do carro da polícia, baixei a cabeça, buscando evitar os olhares inquisidores dos demais cidadãos e só voltei a levantar quando chegamos em nosso destino.

Uma vez na delegacia, respondi todas as perguntas do delegado sem fazer cerimônia nem esconder nenhum fato. Ao final de um interrogatório de uma hora, veio a notícia: fui indiciado por tentativa de homicídio (afinal, atirei nas costas de um sujeito desarmado) e mais uma série de crimes envolvendo o disparo de arma de fogo em via pública. No entanto, apesar das circunstâncias adversas, saí da delegacia caminhando pela porta da frente.

Passei meses indo em foruns e tribunais e me defendendo em diversos processos. Perdi todos, mas sempre recorri em liberdade, dados os meus bons antecedentes. Ao final de muita batalha e muitos gastos com advogados, fui sentenciado, enfim, à alguns meses de prisão. O juiz foi especialmente duro quando, ao ler a sentença, me lembrou o quão irresponsável fui, principalmente por expor ao risco à vida dos demais cidadãos e quando não considerei outras alternativas pra tentar capturar o bandido que, agora sabíamos, estava desarmado no momento e não oferecia riscos.

Não vi mais o rapaz. Ele não apareceu no dia do julgamento, mas alguém me disse que ele tem ido regularmente à fisioterapia e talvez, um dia, possa recuperar o movimento das pernas. Menos mal, pensei.

A mãe dele estava lá e chorou ao ouvir a sentença. Me xingou de alguma coisa que não me lembro, acrescentando: "Era só um celular, pôxa..." Baixei a cabeça, envergonhado. Ela tinha razão. Era apenas um celular...

***

De volta à realidade, estou fitando as costas do bandido que saiu em disparada no momento em que abordei ele, na porta da minha loja. Eu precisava reagir, mas não sabia exatamente como. Ele era mais magro que eu pelo menos vinte quilos e havia tomado a dianteira por pelo menos dez metros.

"Filho da puta", pensei, "se eu tivesse uma arma, esse cara tava fudido agora.". A adrenalina disparou e eu saí correndo atrás do sujeito, capturando ele cerca de duzentos metros mais adiante e, finalmente, recuperando o celular que ele havia roubado segundos atrás.


Depois do susto, já de volta na minha loja e tendo encerrado o dia de trabalho, fiquei um tempo pensando nesse assunto. Considerei o quão rápido meu cérebro pensou na possibilidade de eu ter uma arma, sacá-la e disparar nas costas de um homem que podia ou não estar armado. Pensei que, se de fato tivesse atirado nele, meus prejuízos a longo prazo seriam maiores e, pior do que ser preso, seria sofrer uma retaliação dos amigos do sujeito na mesma proporção com a qual eu poderia tê-lo atacado unicamente por causa de um reles celular velho.


Eu, homem de família, empresário, instruído, centrado, que me considero acima de qualquer suspeita e um sujeito acima da média, me achava perfeitamente digno de ser dono de uma arma, até então. Sempre me considerei um cara preparado psicologicamente para ter uma e achava, até então, que era um crime maior o estado me proibir de possuir uma arma do que tê-la, em si.


Ontem descobri que a realidade é outra. Como o bandido, eu era apenas um homem assustado, preparado pra realizar o que meu instinto animal mais básico havia me programado pra fazer: reagir à uma agressão não medindo racionalmente as consequências. Ontem descobri que, pelo menos eu, não sou qualificado para ter uma arma ao alcance das mãos.


Ainda acho que a política das armas podia ser mais flexível? Acho. Acho que a população merece, ao menos, usufruir do benefício da dúvida com relação ao marginal. "Será que naquela casa tem uma arma? Será que não tem? Como posso assaltar uma casa que não sei que tipo de defesas ela tem?" Evidente que acho. Mas também acho que o cidadão médio não está tão preparado para ter uma arma como acredita que está. O controle, é óbvio, precisa ser rígido e as exigências para possuí-las e operá-las devem ser muito bem avaliadas e seguidas à risca, considerando, principalmente, o preparo psicológico do indivíduo.


Porque, veja só, no final das contas, uma arma em suas mãos pode, no fundo, não ser nada além disso: uma arma. Um objeto extremamente perigoso que provavelmente fará mais mal do que bem.

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Papo Cabeça

Rafael Cavacchini

Rafael Cavacchini

Empresário, romancista, redator, crítico político e antropólogo. Escreve utilizando linguagem ácida e direta, sem abandonar a ética nem apelar pra demagogia desnecessária.

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