Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 20 de abril de 2009

Tudo por Cinquenta Reais

A professora Santina fala, zangada, à Margareth:
- Estou sabendo que você tirou uma nota de cinquenta reais da minha bolsa. Devolva-me!
- Eu não tirei, não senhora!
- Só pode ter sido você. Viram você entrar na sala onde estava a minha bolsa. O que foi fazer lá?
- Eu só entrei para falar com a Dona Neuza.
- E o que você queria com a Dona Neuza?
- A vizinha de minha casa mandou perguntar pra ela se sabia de quem está precisando de empregada. Quando vi que ela não estava lá, sai logo. Nem vi a sua bolsa.
- Que desculpa esfarrapada! É claro que você roubou. Não podia ter sido outra pessoa.
- Não roubei nada!
 Santina resolve contemporizar:
- Vamos fazer o seguinte: Você me devolve o dinheiro e eu não conto para ninguém o que aconteceu.
- Mas eu não peguei o dinheiro.
- Ah, é assim? Pois então vamos falar com a diretora.
 
Margareth era a única aluna pobre daquela escola de alto nível social. Sua mãe era empregada da Lurdes, a diretora, e esta conhecia a Margareth desde pequenina e gostava muito dela. Conseguiu-lhe uma bolsa e ajudava- a a manter-se para que ela pudesse estudar em uma boa escola.
 
Quando a Santina invadiu a diretoria com a Margareth e contou o que se passava, a Lurdes ficou visivelmente aborrecida:
- Você não pode acusá-la desse jeito sem ter provas contra ela.
- Ela foi a única pessoa que entrou na sala. Só podia ter sido ela.
- A Vitória também entrou na sala, defendeu-se a Margareth.
- Mas a Vitória não ia fazer uma coisa dessas.
- Espere ai, intervém a Lurdes. Se vamos interrogar a Margareth, vamos interrogar a Vitória também.
 
A mãe da Vitória era uma advogada muito conceituada na cidade e, segundo diziam, meio truculenta e o pai era um vereador muito influente. Ninguém tinha coragem de mexer com ela.
 
Vitória entra e a diretora pergunta:
- O que você foi fazer na sala dos professores?
- Fui pegar um copinho descartável.
- Pegar um copinho? Por quê? Não tinha copinhos no bebedouro das crianças?
- Tinha, mas eu queria um maior.
- Está bem, pode ir.
 
Santina não se conformava com a atitude da diretora.
- Que moleza!
 
Insiste:
- Vamos revistar a Margareth! Ela deve ter escondido o dinheiro.
 
A contragosto, a diretora concorda. Margareth, profundamente constrangida, vê a professora despejar sua mochila sobre a mesa, abrir todas as caixinhas, sacudir os livros e cadernos. Depois revistar-lhe os sapatos, as meias, toda a roupa. A diretora dispensa a menina e a Santina reclama:
- Como é que ficamos? Não vai obrigar a larapiazinha a me devolver o dinheiro?
 
Já impaciente a Lurdes exclama:
- Eu não admito que se refira a uma aluna da escola nesses termos.
- Eu sempre achei que misturar as classes sociais em uma escola não dá certo. Essa menina não tem educação. Você não devia mantê-la aqui.
- Não acho que ela seja mais mal educada do que os outros alunos daqui.
- Mas é uma ladra!
- Você não tem prova concreta contra ela. A sala é aberta e qualquer um pode entrar sem ser visto, alunos, professores, funcionários, serventes...
- A servente! Vá ver que foi ela. Ganha pouco, vive se queixando de falta de dinheiro!
- Espere ai! Se formos interrogar a servente, teremos que interrogar todos que se encontram aqui. É melhor você esquecer isso e começar a cuidar melhor da sua bolsa.
 
Santina sai furiosa da diretoria e mal a Lurdes pode respirar aliviada chega um garoto excitadíssimo:
- Dona Lurdes! Ta tendo uma briga lá no pátio.
- Briga? Quem é que está brigando? A inspetora não está lá?
- É a Vitória com a Margareth. A Vitória chamou a Margareth de ladrona e ela deu uma tapa no rosto dela. Saiu sangue do nariz dela. A inspetora segurou a Margareth, mas a Vitória está xingando ela e os meninos disseram que vão pegar a Margareth na rua e dar uma sova nela.
 
Lurdes vai até o pátio, meio temerosa. De longe ouve o alarido que a criançada está fazendo. Lembra-se da teoria da força e da autoridade. Ela representava a autoridade contra a força de centenas de crianças. Será que ia funcionar?
 
Vitória gritava:
- Seu pai é um favelado vagabundo! Meu pai pode pôr ele pra fora da cidade.
 
Margareth rebatia:
- Seu pai é um vereador sem vergonha. Todo vereador é ladrão e sem vergonha.
 
Lurdes tinha dificuldade para fazer-se ouvir acima do barulho. Estava atordoada, sem saber o que fazer. Mas, providencialmente a sineta tocou. Os professores apareceram, levaram os alunos para as salas de aula e tudo serenou.
 
No dia seguinte pela manhã Durvalina, a mãe de Margareth chegou ao emprego soltando fumaça. Queria saber que história era essa de dizerem que a Margareth tinha roubado o dinheiro da professora.
 
Lurdes tenta por panos quentes, explicar que foi engano que já estava provado que não foi ela e que estava tudo bem. Mas a Durvalina estava ofendida demais.
- Além de tudo ainda o Percival brigou comigo porque ele disse desde o começo que não ia dar certo pôr a Margareth em escola de bacana. Acho que ele tem razão. Na escolinha da favela ninguém ia fazer pouco caso dela.
- Mas ela ia crescer sem aprender nada. Ia ficar a vida toda trabalhando como doméstica e morando na favela. &Eacu
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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