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Publicado: Quinta-feira, 27 de junho de 2019

Tudo, Menos Católico...

Tudo, Menos Católico...
A verdade é que a maioria das pessoas quer uma religião que não incomode, que não mexa com a consciência e que seja permissiva quanto aos seus próprios hábitos, inclusive quanto aos maus hábitos.

Ao contrário do que vocifera chorosamente uma minoria ativista e vitimista, o Brasil é sim um lugar de muitas tolerâncias. Algumas, até demais. Se não levarmos em conta a violência presente no cotidiano das grandes cidades, verificamos facilmente que brasileiros e brasileiras, dos mais diferentes naipes, convivem diuturnamente de modo pacífico e respeitoso.

O caldeirão étinico-cultural brasileiro teria tudo para dar o mais errado possível. Porém, o bom convívio entre tantas pessoas de origens e pensamentos diferentes acaba revelando-se como um dos nossos pontos positivos. Não pretendo, aqui, dar uma de poliana. Sei dos problemas da nossa sociedade e de alguns conflitos a serem sempre enfrentados. Mas, considerando que somos mais de 200 milhões, neste país do tamanho de um continente, tudo poderia ser bem pior.

Temos no Brasil colônias de praticamente todos os cantos do mundo, com seus descendentes convivendo pacificamente. Em algumas quadras da cidade de São Paulo, por exemplo, vemos convivendo lado a lado descendentes de japoneses e africanos, de árabes e judeus, de indígenas e europeus. No interior brasileiro, colônias alemãs e holandesas, indianas, coreanas e chinesas, bolivianas, venezuelanas e haitianas integram-se à vida nacional. Fora um ou outro boboca falando em separatismo e incentivando qualquer tipo de preconceito, vivemos em paz.

A tolerância dos brasileiros também é grande em relação às expressões religiosas. Diferente do que acontece em várias partes do mundo, aqui a religião não é motivo de violência generalizada ou guerra civil. Briguinhas familiares ou debate entre amigos, sempre os há. Nada que gere desgraça ou dure para sempre. Discussões com argumentos entre as várias partes também existem nas redes sociais, mas nada que cause perturbação pública.

No Brasil, cada um pode usar da própria liberdade para seguir a religião que quiser. E até mesmo para não seguir nenhuma, fingir que segue alguma ou todas elas! Há esse caldeirão de denominações religiosas entre nós, sem problema algum para a sociedade. Entre nós estão adventistas, luteranos, calvinistas, presbiterianos, anglicanos e wesleyanos. Temos espíritas e adeptos da umbanda e do candomblé. Temos muçulmanos, budistas e ateus, em número reduzido. E ainda uma grande massa que se diz católica apostólica romana, mas...

Sobre os que se declaram católicos, há sempre essa questão de quem apenas o é de boca, mas não de prática. Quem afirma que é, da boca para fora, mas não frequenta qualquer comunidade católica ou  tampouco se preocupa em seguir a doutrina contida nos preceitos e mandamentos, não é católico de verdade, pois fala mas não pratica. É a mesma coisa que se dizer astronauta, mas jamais ter ido ao espaço. É igual a colocar a camisa do time, mas não entrar em campo. Uma questão de coerência, portanto.

A verdade é que a maioria das pessoas quer uma religião que não incomode, que não mexa com a consciência e que seja permissiva quanto aos seus próprios hábitos, inclusive quanto aos maus hábitos. A Igreja Católica é exigente. Quem é, de verdade, sabe disso. Ser católico é para quem aceita realmente renunciar a si mesmo e carregar a própria cruz todos os dias, num caminho de conversão constante que obriga ao amor a Deus e ao próximo mais do que a nós mesmos. E isso tudo, ao que parece, não é para qualquer um.

Vejo pessoas que se dizem católicas porque foram batizadas num templo católico. Mas que, na vida prática, não demonstram esse catolicismo: não frequentam as missas e nem o confessionário, não contribuem com o dízimo e sequer participam de uma comunidade, não praticam a caridade e tampouco são voluntários em obras católicas de ajuda aos que sofrem. E por aí vai...

Vejo pessoas que abandonam a Igreja Católica, reclamando sobre ela e os que estão nela. Mas na verdade usam tudo como uma grande desculpa para o fato de que não querem se esforçar no catolicismo. Então, há os que fazem uma verdadeira dança das cadeiras religiosa, pulando de galho em galho, de religião em religião, num ciclo muitas vezes sem fim.

Há quem pratique a umbanda e depois migre para o espiritismo ou vice-versa. Há quem se “converte” e passar a frequentar alguma denominação evangélica, depois de anos no esoterismo. Há os que aderem ao budismo ou outra religião mais “zen”, isso quando não cai no puro e simples ateísmo.

Em resumo, para muitos a religião é um elemento importante na própria vida... só que não! E vale tentar qualquer expressão religiosa, vale a tentativa de se acomodar em tudo, menos em ser católico de verdade. Religião também precisa de uma parcela de esforço pessoal. Mas há quem só deseje ser fiel a si mesmo e o resto que se exploda. Ser fiel a Cristo e à Igreja fundada por ele exige amor, fé, paciência, perseverança, resiliência e muito mais.

Como dizia Chesterton, a Igreja Católica sempre tem o que falta ao mundo. Mas o problema é o pessoal dar o braço a torcer quanto a essa verdade... Se você estiver infeliz com a sua opção religiosa, ou mesmo por falta de uma, na próxima vez tente ser católico de verdade. No Brasil, por enquanto, ser católico ainda não é crime inafiançável, embora às vezes pareça que sim e até haja um tanto de gente trabalhando nesse objetivo.

Amém.

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Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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