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Publicado: Sexta-feira, 14 de maio de 2010

Trotes

Trotes

Hoje acordei às cinco da manhã, me senti um monge tibetano. Saí e o céu ainda estava escuro. Frio e estrelas.

Fui para Sampa fazer uma apresentação num evento. Encontrei meus amigos do coração, me diverti, faturei uns dindins e voltei prá casa. Sentado na varanda da casa, vendo o movimento dos pássaros daqui pralí, senti a satisfação do dever cumprido. Depois achei esse sentimento uma coisa muito reacionária, pois junta numa idéia só, a noção de dever e a culpa absolvida pelo fato do dever ter sido cumprido. Acho que um índio não sentiria isso. Ele sentiria o prazer de estar ali com os pássaros depois de ter estado lá com seus amigos. Droga. A culpa é uma sombra em dia de sol. Tá sempre lá. Já pensou um mundo no qual as pessoas não conhecessem o sentimento da culpa? Como seriam nossas vidas sem a urgência da culpa a ser espiada? Não consigo nem sentir como isso seria. Do que será que a gente se ocuparia? Será que agiríamos muito diferente do que agimos? Será que seríamos mais felizes ou só inventaríamos outra sombra a nos atazanar?

Quando penso em culpa, lembro do lobo mau. Prá mim a culpa é o lobo mau.

E pensar que tudo isso começou com aquela sensação gostosa do dever cumprido. A mente é mesmo um trote. Faz a gente perder um baita tempo com chistes sem graça. O pior é quando não consigo distinguir com clareza, quando é trote e quando é insight. E se todo insight for um trote? E vice versa?

Vou aproveitar que estou sozinho em casa e ouvir As vitrines do Chico. Engraçado, falando assim, parece que o Chico é um artista plástico que faz vitrines e está tendo uma exposição das vitrines dele. Estar sozinho é um grande desafio. A voz interior não dá tréguas, ela fica solando. Longos solilóquios intermináveis. É tipo um trote interurbano.

Ando pensando num esquema SE-ENTÂO. Se não sei o que dizer, então escuto ao invés de falar. Parece fácil? Então tente conversar com alguém sem ficar balançando a cabeça em sinal de aprovação a cada nova frase que seu interlocutor diz. A gente fica falando com o gesto da cabeça, não consegue só ouvir. 

Aflição

Quando e como voltaremos se,

ao voltarmos não restar ninguém

a confirmar a nossa volta?

O que pode ser sem testemunho algum?

Como saberei que não estou louco?

O que esperar? Estar ou não estar louco? Claro que não estou louco. Esse trote eu flagrei! E bati o telefone na cara dele. Não  se deixar cair num trote faz a gente se sentir muito esperto. Desconfio que isso seja outro trote. Vê como ficar sozinho é perigoso. Como a gente é louco. Acho que todo mundo é meio louco assim. De tanto receber trote o cara fica louco. É como a história da menina que gritava olha o lobo a todo instante e quando tem um lobo de verdade, ninguém acredita e o lobo: NHACT na menina.

Vou passar um trote:

Inescapável

Ignore este aviso.

Experimente. É impossível. Este é como se o engraçadinho, depois de passar um trote, ainda deixasse o telefone fora do gancho.

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Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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