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Publicado: Domingo, 1 de setembro de 2019

Tratar com o proprietário

Tratar com o proprietário
O encrenqueiro mora de graça, em uma das doze kitnets. Por contrato firmado com o proprietário, tem a obrigação de renovar o plantel de moradores trouxas no máximo a cada dois meses. 
Armas e estratagemas não faltam.
 
. Som alto 24h, com o devido cuidado na escolha "a dedo" de finíssimo repertório.
. Despejo "involuntário" de detritos de lixo nas áreas comuns, entornados no trajeto do apartamento do encrenqueiro até a lixeira coletiva.
. Gatos e cachorros soltos, distribuindo poças e montes de número 1 e número 2 nas portas de todas as unidades, indistintamente. 
. Nuvens de maconha.
. Simulação de ato sexual ao longo das madrugadas.
. Com tantos e tão insuportáveis incômodos, em questão de dias a situação não se sustenta mais. O contrato de locação, no entanto, é bem claro: seu rompimento resulta em multa no valor de 4 aluguéis, a ser paga pela parte infratora. Como existe certa "gordura" para negociação, o proprietário reduz a multa a dois aluguéis e meio, depois de muito rogo do locatário. O valor pode ainda cair para apenas dois aluguéis, caso o inquilino desocupe o imóvel mas já deixe a indicação de outro ocupante. Para conseguir um incauto que o substitua, o morador terá que apregoar o conjunto de apartamentos como o melhor lugar do mundo. Ou seja, a vítima da vez acaba por fazer a prospecção da vítima futura. 
. Contas de água e luz de todos os apartamentos estarão sempre em dia, já que é obrigação contratual do inquilino transferir a titularidade das contas para o seu nome. O proprietário mantém sua indústria de brigas sem a mínima despesa. E com os apartamentos invariavelmente em ordem, pois cada desocupação implica em nova pintura.
. Como o trabalho do encrenqueiro resume-se a tramar novos e sucessivos atritos entre moradores, ele se aproveita do horário comercial, em que todos habitualmente estão fora de suas casas, para espalhar discórdia. Um dos golpes, que costuma resultar em BO, tem o seguinte modus operandi:
1) Remoção do miolo da fechadura de um dos apartamentos. O miolo irá voltar para a fechadura supostamente arrombada, pois o inquilino golpista possui chave de todas as portas de entrada. A ideia é apenas simular uma violação.
2) Foto da porta semiaberta.
3) Roubo pelo golpista de eletrônicos ou outros bens de valor.
4) Ao chegar do trabalho, a vítima do apartamento 3 é comunicada pelo encrenqueiro que o morador do 5 invadiu seus domínios, fugiu carregando coisas mas não foi fotografado pois escapuliu enquanto o encrenqueiro buscava seu celular. Assim, só a porta aberta foi fotografada.
5) O grande diferencial deste estratagema é garantir duas mudanças de uma só vez, duas quebras de contrato e duas multas a serem cobradas.
6) Para facilitar as coisas, encrenqueiro e proprietário se unem para a segunda parte da mutreta: a indicação de um sujeito que trabalha com carreto, e que cobra a metade do preço de mercado para fazer a mudança.
7) No "trajeto", o caminhão é "assaltado". É claro que os móveis do inquilino são solidariamente repartidos entre os autores da trama. Lembrando que são dois carretos, que significam dois roubos.
8) Na prática, cada kitnet do conjunto é alugado em média por 2 mil reais/mês, se computados multa e venda dos móveis quando do "roubo" da mudança. 
Tudo muito simples, rápido e rentável. 
 
 
 
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Líricas Bulhufas

Marcelo Sguassábia

Marcelo Sguassábia

Humor, nonsense e sátira. Junte a isso algumas incursões no universo onírico. É esse mais ou menos meu estilo: o não-estilo definido. Sou redator publicitário e tenho coluna fixa em diversas publicações eletrônicas e um jornal impresso.

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