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Publicado: Sexta-feira, 26 de junho de 2009

Trapalhada ortográfica - parte 4

No que diz respeito à teoria geral desta nova reforma ortográfica, até concordo em alguns pontos com sua utilidade. A coisa mais linda do mundo seria ter a Língua Portuguesa com todas as suas questões bem resolvidas, falada e escrita em todos os países lusófonos da mesma maneira, seguindo as mesmas regras. Pena que não é assim. Há questões culturais, políticas, econômicas e sociais envolvidas.
 
A princípio desejei mesmo seguir as novas regras da atual reforma ortográfica. Mas ao tomar conhecimento de algumas novidades, fiquei dividido. Realmente não entendi certas mudanças, achando-as sem sentido.
 
Em outros casos, pareceu-me que um grupo de estudiosos decidiu deliberadamente fazer uma mudançazinha aqui e mais outra acolá, por simples falta do que fazer. Há novas regras que sequer mereceram uma explicação, apenas foram jogadas no ar como a nova forma dominante.
 
Foneticamente não faz diferença, mas não gostei da abolição do trema. Éramos um dos últimos países a utilizar este sinal gráfico. Lingüiças, pingüins e qüiproquós ficarão órfãos. Escrevê-los sem os dois pontinhos em cima do “u” será muito sem graça.
 
Não entendi a razão de se tirar o acento agudo de palavras como “idéia” e “jibóia”. Para mim é um ato de discriminação contra os ditongos abertos “ei” e “oi” nas palavras paroxítonas. Quem livrará um incauto de ler “jibôia” ou “idêia”? E a minha amiga Andréia? Vão tirar o acento dela? Ainda bem que não neste último caso, pois em relação a nomes nada mudará. Andréias, Müellers e Bündchens podem ficar tranqüilos, ops, tranquilos.
 
Concordo em tirar o acento agudo de “pára-quedas”. Mas não aceito eliminar seu hífen para torná-lo um “paraquedas”. Também não sei se conseguirei viver em um mundo que tirou o acento agudo de “pára”, conjugação do verbo “parar”. Pois este ficará “para”, confundindo-me quanto à ser ou não preposição. Sem dizer que esta nossa palavrinha perde totalmente o seu uso em manchetes de jornais, por causa deste mesmo sentido de ambigüidade. Ops, ambiguidade.
 
O uso ou não do hífen é um caso à parte. Seria midículo, se não fosse ridículo. Seria trágico, se não fosse cômico. Não sinto o menor embasamento para certas mudanças determinadas pela reforma. Por que microondas tem que ser “micro-ondas”? Por que “pan-americano” não pode ser panamericano? Por que anti-social agora tem de ser “antissocial”?
 
Como escritor, jornalista e futuro professor de Língua Portuguesa, sinto-me mais perdido que cachorro em dia de mudança. Há muitas regrinhas ainda não definidas, ou definidas e mal explicadas, ou definidas sem explicação alguma. Realmente, assim fica muito complicado entender.
 
A lei vigente diz que ainda se pode usar a Língua Portuguesa em sua forma antiga. As novas regras valem pra valer a partir de 2013. Até lá creio que ficaremos bailando de um lado ao outro do salão ortográfico. Ora usaremos e ora desconsideraremos as mudanças, às vezes por lapso, às vezes por conveniência, outras vezes por ignorância.
 
Não assimilei ainda as novas regras da reforma ortográfica. São anos pensando, lendo e escrevendo de um jeito. Não passarei a fazer tudo certinho de uma hora para outra, pois o cérebro leva tempo para se adaptar. Mas como vivo da escrita, da imprensa e de certa forma da Língua Portuguesa, prosseguirei tentando.
 
Não serei tão severo comigo mesmo. Tenho quatro anos para treinar a nova ortografia. Espero que o Presidente Lula também pratique. Ninguém mandou justo ele, o presidente sem Ensino Superior, sancionar e regulamentar a lei da reforma ortográfica.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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