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Publicado: Quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Tietê: O Rio das Fábricas

                                                                                                                                                             Tietê: o rio das Fábricas

 

                                                                                                                                                                                                                                       DraAnicleide Zequini - ani.zequini@usp.br

 

Este artigo foi publicado primeiramente em Património Industrial: Boletim Informativo da Associação Portuguesa para o Património Industrial. II série. n.3. jan-jun 1999 p. 13.

Para ler o trabalho completo sobre a industrialização da Cidade de Salto. acesse O Quintal da Fábrica. Disponível em:  http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=000036967

 

            A história da ocupação territorial do interior de São Paulo, está intimamente ligada ao movimento de colonização do Brasil. Num primeiro momento as bandeiras responsáveis pela fundação de inúmeras localidades, entre elas a cidade de Itu, fundada por Domingos Fernandes e Cristovão Dinis, ambos  integrantes da bandeira de Nicolau Barreto (1602), teve a sua origem ligada à construção de uma capela em devoção à Nossa Senhora da Candelária do Utu-Guassu. Sua fundação data de 1610.

            A denominação Utu-Guassu ou Ytu-Guassu,  deve-se à presença de uma cachoeira do rio Tietê junto ao local onde atualmente está localizada a cidade de Salto, que até o ano de 1889 era um pequeno povoado fundado em 1698 por Antonio Vieira Tavares, considerado uma extensão de Itu.

            Com o descobrimento do ouro em Cuiabá, no século 18, a região de Itu passou a fazer parte da imensa rede de vias e lugares  para o povoamento do sertão. Neste contexto, Itu, passou a ser o local de abastecimento das expedições que partiam do Porto de Araritaguaba, abaixo da cachoeira do Salto de Itu, onde o rio Tietê era mais facilmente navegável. Fato  que contribuiu para amenizar o isolamento geográfico e também para a formação daquela sociedade.

            Natureza, Técnica e Arte. Assim os jornais do século 19 noticiavam a ocupação junto a cachoeira do Salto de Itu de empreendimentos fabris: duas fábricas de tecidos e uma para fabricação de papel, utilizando  a queda d’água existente naquele local como fonte de energia necessária à movimentação das máquinas. Processo que retoma uma opção bastante difundida nos primeiros centros fabris ingleses, como Oldham e Manchester mas não para São Paulo, onde estes empreendimentos fabris foram os pioneiros em utilizar a força das águas para dar movimento à teares e fiandeiras.

            A fábrica a vapor de tecidos São Luiz inaugurada em 1869,  por exemplo,  antes de ser construída em Itu foi projetada para Salto em função da existência da cachoeira. No entanto, os proprietários desistiram deste projeto  dada a inconstância dos altos e baixos do rio, que convenceu-os da impossibilidade de sustentar uma altura indispensável para movimentar as máquinas. Em conseqüência resolveram fundar o estabelecimento na cidade de Itu, empregando o vapor.

            Entretanto estas dificuldades técnicas foram superadas por José Galvão em sua fábrica de tecidos inaugurada em 1875. O edifício construído em granito, junto ao Salto de Itu,  possuía maquinaria inglesa e realizava todas as etapas da fabricação de panos grossos e finos, desencaroçava, fiava e tecia o algodão. Empregava no trabalho, homens e majoritariamente  mulheres e crianças. O motor dessa fábrica, as àguas do rio Tietê, foi utilizada depois da realização de inúmeras obras no rio como barragens e canais de derivação.

            Durante este processo, iniciado com a fábrica de José Galvão,  principalmente os pescadores e visitantes foram sendo sucessivamente deslocados para outros lugares. O rio, que era dos moradores, passou a ser disputado pelas fábricas, transformando-se aos poucos em rio privativo delas.

              Galvão instalou um dos  mais recentes aperfeiçoamentos técnicos então existente, a turbina hidráulica que oferecia movimento uniforme às máquinas, ocupava um espaço reduzido para instalação e menor custo de produção. A utilização deste tipo de motor  constitui uma exceção entre as fábricas pioneiras paulistas.

                        Um segundo edifício para fábrica de tecidos foi inaugurado em 1880. Para isso, o proprietário Francisco Fernando de Barros Júnior adquiriu  uma chácara  equipada com um pequeno canal que captava as águas do rio Tietê para a movimentação de pilões. A escolha deste local, logo abaixo da fábrica Galvão foi determinado pelo sucesso já comprovado por esta fábrica e também pela presença da canalização existente.

            Outros projetos foram idealizados e não executados no local.  O primeiro deles, datado de 1873,  do Barão de Piracicaba  que pretendia construir em terras de sua propriedade uma ramificação de canais, para  arrendá-los à outros industriais. Chegou a abrir um canal de derivação em rochas vivas e iniciar o projeto de uma fábrica de tecidos e extração de óleos. Em 1875, esta propriedade e todas as benfeitorias  foram vendidas a uma sociedade inglesa de Manchester, pertencente a Willian Fox que, em 1889,  repassou-as à Melchert & Cia  para a instalação de uma fábrica de papel, a primeira de São Paulo e do Brasil.

Melchert,  finalizou a construção do canal para captação das águas do Tietê e construiu todo o edifício para a fábrica de papel. Situado na margem esquerda da cachoeira do Salto, disputou a posse das àguas do rio com Barros Júnior e José Galvão cujas fábricas estavam localizadas na margem oposta deste rio. Todos eles executaram  inúmeras obras no rio como a construção de açudes, tapagens, canais e explosão de ilhas inteiras ,canalizando as àguas em direção as suas respectivas fábricas, cujas  intervenções  alteraram definitivamente do curso original do rio. Fato que gerou inúmeras ações judiciais, durante a segunda metade do século 19,  como ações de protesto, manutenção de posse e embargo.

            Os açudes, por exemplo, construídos nas épocas de estiagem do rio com pedras soltas  para quebrar apenas a força da cachoeira eram  refeitos após as cheias e canais abertos em “rocha viva”, cavado no granito, estão presentes nos mapas encontrados junto aqueles processos. Prova concreta da apropriação privada do rio.

            As inúmeras obras no rio foram executadas durante toda a segunda metade do século XIX e nas primeiras  décadas do século XX. Com o avanço da tecnologia e descobertas de outras formas de energia, como a elétrica, as àguas do rio foram utilizadas para a produção de eletricidade. No início do século, para a própria fábrica  que executou obras mais sofisticadas junto a cachoeira do Salto de Itu. Em 1924, a partir da construção uma hidroelétrica, passou a fornecer eletricidade para a localidade de Salto e também das cidades visinhas.

            Vale ressaltar que aquele primeiro núcleo fabril, constituído pelas fábricas Galvão, Barros Júnior e Melchert, deram origem a uma única empresa denominada Brasital S/A.  Esta, construíu a hidroelétrica, vilas operárias, armazéns, creches, enfim, tranformou a localidade de Salto uma extensão de suas instalações. Fato  que determinou que a localidade de Salto se constituísse numa cidade tipicamente operária,  um Quintal da Fábrica.

           

             

           

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Documentação Histórica

Anicleide Zequini

Anicleide Zequini

Doutora pela Universidade de São Paulo, fez sua graduação e mestrado pela UNICAMP. Desenvolve projetos e pesquisas na área de História. Atua como pesquisadora no Museu Republicano de Itu - Universidade de São Paulo.

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