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Publicado: Segunda-feira, 17 de março de 2008

Testemunhas oculares

Um grito estridente corta os ares, numa ensolarada manhã de primavera:
- Filinha! Minha Filinha! Atropelaram minha Filinha!
 
Corre gente de todo lado, curiosa, ver o que tinha acontecido.
 
O trânsito intenso, àquela hora da manhã, vai se tornando mais lento até que pára de todo, alguns, curiosos, para ver, outros porque não podiam passar com a rua congestionada.
 
E a Zefa chorando:
- Filinha! Mataram a minha filinha!
 
Todos falam ao mesmo tempo:
- Foi uma mulher.
- Não, foi um homem de cabelos compridos numa Brasília amarela.
- Não era Brasília, era um Gol branco...
- Eu acho que foi um Pálio prateado.
 
E a Zefa inconsolável::
- Filinha! Eu vou descobrir quem te matou!
 
Alguém chama a polícia.
O guarda chega e pergunta:
- Onde está a vítima?
- O Pai levou para casa.
- Mas ele não podia fazer isso. Tinha que esperar fazer a ocorrência.
- Mas fez. Embrulhou em uma toalha e levou embora.
- Alguém viu o acidente?
- Eu vi. Foi um Corsa amarelo
- Não, foi uma Brasília.
- Foi um Gol.
- Alguém anotou a chapa?
- Nãããããooo!!!!
 
E a Zefa se lamentando:
- Ai! Como é que vou ficar agora sem a minha filinha!
 
A comadre Genu chega correndo.
A notícia já tinha chegado à sua rua e ela veio dar uma força para a comadre e amiga, coitada!
 
Abraça a comadre chorando;
- Que tristeza! Mas, quem foi? A Julinha ou a Cristina?
 
Repentinamente a Zefa para de chorar, arregala os olhos e protesta:
- Nãããooo! Deus me livre! Não foi nenhuma delas, foi a Filinha, minha cachorrinha, coitadinha! E recomeçou a chorar.
 
O policial ouve a conversa e intervém raivoso:
- Então, não foi uma criança? Foi uma cachorra?
 
Volta-se para o povo e ordena:
-Chega de palhaçada! Todo mundo rodando!... Circulando!... Se não levo todo mundo para a Delegacia, e entra, ele mesmo, na viatura e sai a toda velocidade, tocando a sirene.
 
Em poucos minutos a rua está vazia e o trânsito se normaliza.
Zefa continua chorando, agora, sem platéia.
- Filinha! Mataram a minha Filinha!
 
De repente ela vê, do outro lado da rua, alguém acenando para ela:
- Psssiu!
 
Era a moça da banca de revistas, aquela que tudo via e tudo sabia.
 
Zefa atravessa a rua apressadamente, no meio dos carros, correndo o risco de ser ela, também, atropelada e chega até lá.
- Eu vi quem atropelou sua cachorrinha. Foi a dona da Escolinha.
- Dona da Escolinha? Qual Escolinha?
- Aquela Escolinha nova que abriu lá na rua de baixo.
- Ah! Já sei qual é. Pois essa professorinha de uma figa vai me ouvir!
 
E lá se foi ela, pisando duro, espumando de raiva, dirigindo-se à Escolinha para dizer “muitas e más” para a coitada da professora.
 
Doutora Glauciliana chega a casa, exausta, depois de um dia difícil no seu escritório de advocacia e comenta com o marido:
 
Que dia péssimo eu tive! Imagine você que, logo de manhã atropelei uma cachorrinha. Acho que matei a pobrezinha!
 
Fiquei com tanta pena!
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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