Colunistas

Publicado: Segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Tempestade e bonança

Lipe e Yvi planejaram um romântico fim de semana a dois.
Como sabiam de antemão que os pais não aprovariam, resolveram mentir.
Ela disse que ia para a praia com a família de uma amiga e ele, que ia pescar com amigos.
Saíram no sábado de manhã prometendo voltar domingo a tarde, e foram juntos até um rancho de pesca de propriedade do pai dele.
Tudo foi muito bem até a tarde quando resolveram fazer um passeio de bote.
O dia estava ensolarado e eles, distraídos, foram descendo o rio e só perceberam que um temporal se aproximava quando o vento começou a soprar forte.
Quiseram retornar, mas Lipe não conseguiu remar rio acima com a ventania e, então, foram obrigados a encostar o bote e esperar a chuva passar.
Abrigaram-se precariamente em um quiosque usado por pescadores, mas a chuva só aumentava, a noite caiu e eles ficaram ali trêmulos de medo e de frio, esperando amanhecer.
Yvi chorava e Lipe tinha vontade de chorar também, mas insistia em dizer que estava tudo bem e que de manhã pegariam o bote e retornariam.
O dia amanheceu lindo! A bonança que se segue ás tempestades!
Entretanto, uma surpresa desagradável os esperava. O bote havia desaparecido. Naturalmente, mal amarrado, fora arrebatado pela correnteza e sumira.
E agora?
Exaustos, molhados, famintos, não tinham outra alternativa senão voltar a pé para o Rancho.
Não sabiam a que distância estariam, mas sabiam que estavam longe, muito longe!
Andavam um pouco, paravam para descansar, andavam mais um pouco . . .
A estas alturas, todo o romantismo do passeio desaparecera e eles estavam profundamente arrependidos, acreditando que estavam sendo castigados pela ousadia.
De repente, avistaram ao longe um ranchinho coberto de sapé.
Ali deve morar alguém. Quem sabe poderão nos ajudar?
Aproximando-se Lipe teve uma agradável surpresa. Os moradores eram um casal de mendigos, já velhinhos, o Zé Sujo e a Maria Bonita. que. sempre que sua família passava temporada no Rancho, apareciam por lá pedindo ajuda.
Já não estavam tão sós.
Os dois foram muito amáveis com eles e ofereceram generosamente o pouco que possuíam. Uma roupa enxuta para vestirem e alguma coisa para comerem: batatas doces cosidas (que delícia!).
Lipe reconheceu a camisa que havia ganho de um amigo secreto e que não gostara. (a Mãe dera para o mendigo).
Quando ele havia de pensar que, um dia, lhe seria tão útil, aquela horrorosa camisa listada!
Yvi também vestiu uma calça e uma camiseta que tinham sido do Lipe e que agora estavam rotas, encardidas, mas... secas!
Perguntaram a que distância estariam do Rancho e a resposta foi desanimadora: umas três léguas.
Eles não sabiam exatamente quanto isso representava, mas sabiam que era muito.
Que fazer?
Eu acho melhor vocês dormirem aqui e, amanhã, saírem bem cedo. Se forem agora não chegarão antes de anoitecer.
Não tiveram outra alternativa. Acomodaram-se como puderam e dormiram a noite toda.
De manhã, bem cedinho, se dispuseram a enfrentar a longa caminhada. Mas não conseguiram ir muito longe. Logo cansaram e, exaustos, meio desfalecidos, deitaram sob uma árvore sem pensar em mais nada, entregues ao desânimo.
Na cidade, os pais de Yvi começaram a preocupar-se quando, ao anoitecer de domingo, ela não regressou conforme prometera, mas pensaram que, talvez, a família da amiga tivesse resolvido voltar segunda de manhã.
À medida que as horas passavam aumentava a preocupação que chegou ao auge quando descobriram que ela havia mentido, que não estava com essa família e que o Lipe também desaparecera.
Era obvio que estavam juntos, mas, onde? Por que não voltaram?
A hipótese de uma fuga foi logo descartada. O namoro era bem aceito pelas famílias e eles tinham planos para longos anos ainda antes de pensar em casamento.
O pai de Lipe lembrou-se do Rancho, foram até lá, mas a angústia só aumentou quando acharam os pertences dos dois, roupas, mantimentos, celulares, dinheiro. Não tinham sido assaltados, certamente... Mas, onde estariam? Que teria sucedido?
O rio!
O rio era perigoso. Muita gente já havia morrido ali. Será que eles foram nadar e... nem queriam pensar no que podia ter acontecido... Deram pela falta do bote e então tiveram a certeza de que eles haviam saído com ele e, por razões desconhecidas, não haviam voltado...
Chamaram a polícia e a busca começou no leito do rio e nos arredores.
Zé Sujo ficou preocupado com os dois garotos. Sabia que eles não iam conseguir chegar a pé no Rancho e achava pouco provável que encontrassem alguém para ajudá-los. Resolveu sair, dar uma volta para ver se conseguia algum socorro para eles, e,, foi então, que avistou o carro da polícia junto ao rio, encaminhou-se para lá e contou o que acontecera.
Pouco depois os dois arteiros foram socorridos para alívio de todos.
Nem precisaram de reprimenda. Já tinham sido bem castigados.
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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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