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Publicado: Domingo, 28 de fevereiro de 2010

Tarefa de casa: prazer ou dor?

Tarefa de casa: prazer ou dor?
Para quem é a tarefa de casa, afinal?

Começar o ano letivo é sempre prazeroso para pais, crianças e professores. O primeiro mês, ou melhor, a primeira semana é sempre uma festa de reencontro, alegria e novos planos a seguir. Mas, infelizmente esses dias terminam logo.  Assim que a rotina escolar se estabelece, começa o grande conflito de sempre: as famosas atividades escolares denominadas tarefas de casa. 

Por que a escola precisa vivenciar essa prática? Para quem é a tarefa de casa, afinal? Os pais são responsáveis por essa produção? Essas e outras devem ser as perguntas feitas diariamente por pais, que depois de um dia repleto de trabalho ainda precisam fiscalizar, e muitas vezes acompanhar as atividades que seus filhos devem realizar.  Isso sem contar o conflito que a situação proporciona: brigas, castigos e gritos têm frequentado muitas casas no final do dia.      

O assunto é bastante polêmico, por isso escrevo com cuidado. Embora tenha construído minha trajetória profissional dentro de escolas e isso me permita posições claras e seguras sobre o tema, não posso ignorar o lado maternal, que me possibilita enxergar o dilema que o envolve. E que, portanto, me desafia a compreendê-lo em toda sua dimensão. 

Pouca gente sabe, mas a tarefa de casa surgiu nos Estados Unidos, nos anos 30, como parte de um modelo de ensino destinado a atender estudantes da zona rural, já que eles não podiam frequentar a escola todos os dias. No Brasil, essa atividade ganhou espaço como forma de manter as crianças ocupadas e quietas com exaustivos exercícios de repetição, quando a aprendizagem era bastante confundida com silêncio e memorização. 

Então, se a ciência já comprovou que a aprendizagem não é memorização e sim, um processo de construção individual de conceitos e ideias e, se a escola de hoje é um espaço inserido num contexto diferenciado, que permite a frequência diária dos alunos, porque a tarefa de casa continua? E o pior, da mesma forma que foi criada? 

É exatamente nesse ponto que a polêmica se instala. De um lado, especialistas da educação divergindo posições; e de outro, pais julgando o desempenho da escola pela quantidade de tarefas adotadas, apesar do sofrimento dentro de casa. Por incrível que pareça, esse quesito tem sido elemento decisivo na escolha das escolas particulares. 

Conheço um aluno, muito inteligente, aliás, que percebendo o sistema adotado pela sua escola, transformou a tarefa de casa em uma divertida brincadeira. Vou explicar: a escola desse aluno implantou um sistema em que 2 pontos na média final eram atribuídos a quem entregasse a tarefa diariamente. Na entrada, um fiscal, contratado exclusivamente para esse fim, registrava o cumprimento do dever. Como o fiscal não verificava o conteúdo, nem tão pouco a qualidade dele, esse garoto percebeu, aos poucos, que para receber o visto positivo bastava entregar algum conteúdo qualquer no impresso padrão. Percepção comprovada, a brincadeira começou: apaixonado por futebol, suas lições se transformaram em variadas narrações dos jogos que assistia pela televisão. Com imenso prazer passava horas escrevendo as narrativas nas mais diferentes estratégias. E nesse ponto, faço uma breve reflexão sobre o quanto esse aluno aprendeu nas suas escritas, durante a brincadeira instalada. Mas essa é outra história... 

É obvio que depois de um bom tempo a brincadeira foi descoberta e o aluno punido. Mas, a razão dessa abordagem é um pouco mais profunda: existe aprendizado nas tarefas escolares? O aluno é capaz de identificar a ampliação do seu conhecimento, após concluir o dever de casa? As tarefas refletem a escola que queremos para os nossos filhos? Vale à pena comprometer a relação e o afeto familiar para garantir o cumprimento de uma tarefa mecanizada, indesejada? Conheço inúmeras histórias de frustrações de alunos, que passaram horas trabalhando em casa na construção criativa da tarefa solicitada, para receber  uma devolutiva negativa do seu professor. 

Já é hora de ampliarmos esse debate. Sobretudo, para que o conceito de boa escola se relacione com aprendizado, com envolvimento e prazer, com entusiasmo e desejo e jamais com quantidade de tarefas adotadas e conteúdos despejados.

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Conversas Entrelinhas

Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

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