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Publicado: Sexta-feira, 27 de junho de 2008

Tal Dumas Pai, Tal Dumas Filho

É sempre complicado fazer uma resenha literária, pois tudo depende da opinião daquele que leu a obra. As impressões e pensamentos inspirados pela leitura juntam-se a gostos muito pessoais e experiências particulares, formando um caldo de subjetividade. Duas pessoas podem ler a mesma obra e fazer resenhas completamente opostas, elogiando ou criticando seus aspectos.
 
Não me furto, porém, ao trabalho de sempre fazer uma resenha sobre alguns livros que considero importantes. Senão por conta da própria história, ao menos por causa de seus autores. E como articulista, também não deixo passar a oportunidade de compartilhar com os leitores algumas das minhas impressões.
 
Sempre ouvi falar de “A Dama das Camélias” como uma bela história. Porém, não havia me animado a ler esta que talvez seja a mais conhecida obra de Alexandre Dumas Filho. Não o confundamos com o Alexandre Dumas, seu pai, autor de outros clássicos como “Os Três Mosqueteiros” e “O Conde de Monte Cristo”.
 
Atualmente, de modo mais intenso no meio musical, filhos de grandes cantores e músicos buscam uma carreira aproveitando-se de uma certa carga genética que o sucesso possa ter. É assim com os filhos de Elis Regina, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, etc. Pois vemos que na literatura francesa do século XIX, a família Dumas já preconizava tal tendência.
 
Não que Dumas Filho necessite ser comparado ao pai. “A Dama” realmente é uma bela obra. Sua escrita é fluente e fácil. O autor consegue ser detalhista, mas sem ser chato. Descreve os ambientes de forma sutil, dando ao leitor uma certa liberdade para também compor os cenários nos quais a trama decorre. Isso incentiva a leitura, pois quem lê pode fazer uma co-autoria das cenas utilizando-se da própria imaginação.
 
Em “A Dama”, os sentimentos também são muito bem descritos. E todos sabemos que não há algo mais difícil do que colocar no papel as sensações que guardamos em nosso interior. E isso principalmente quando se fala de sensações fortes, causadas pela paixão, pelo ódio, pela vingança, pela tristeza. Pois Alexandre Dumas Filho descreve também as sensações com uma facilidade enorme.
 
Na minha opinião trata-se de um prodígio, considerando que o autor tinha apenas 23 anos de idade quando lançou a obra. Muitos estudiosos de sua biografia, dedicam alguns dos principais fatos de “A Dama” a um romance verdadeiro que Dumas Filho manteve com uma cortesã. Significa que, além de tudo, o autor também preconizou o famoso intertítulo “baseado em fatos reais”, mesmo sem o saber.
 
Não posso descer aos detalhes do livro, pois tenho a esperança de quem alguém se sinta animado a esta leitura. Por isso mesmo é que não contarei a razão do título de “A Dama das Camélias”. De forma geral, o enredo conta o romance entre Armand Duval (reparem ser as mesmas iniciais do autor) e Marguerite Gautier, a mais rica e cobiçada cortesã da sociedade parisiense.
 
Armand é um bom moço, sem vícios e com muitas amizades. Vive em Paris com as rendas de uma herança materna. É um bon vivant, enfim. Passa os dias indo às corridas de cavalo, nas conversas com os amigos, nas apresentações de ópera. Sua vida muda quando, num desses salões de festa que abundava na Paris daquele tempo, depara-se com Marguerite.
 
A paixão toma conta de sua cabeça e, para alegria do personagem, a cortesã lhe corresponde os sentimentos. Porém, uma série de conflitos marca a relação entre os dois. E é isso o que torna o livro interessante. Imaginar essa situação real é um exercício mental. Entram em pauta questões como fé e moral, desconfiança e preconceito, vícios e interesses. Assim descrito, não deve ser difícil imaginar que o desfecho do romance é trágico.
 
Dumas Filho nos apresenta tão bem os protagonistas principais, que depois de alguns capítulos parece que nos tornamos íntimos deles. Passamos até a torcer por aquele amor: que a cortesã deixe para trás a vida mundana e o rapaz possa ser feliz com ela. Conforme os acontecimentos vão se desenrolando, podemos até nos entristecer junto com os dois, diante da crueldade que a vida real impõe, mesmo numa obra de ficção literária.
 
Senti lágrimas nos olhos, ao ler o final de Marguerite. Fico pensando até hoje, o que aconteceu a Armand depois de perder o seu amor. E aí reside o sucesso de qualquer obra literária: causar-nos emoções. Ler algum livro que não nos toque por um momento sequer, é fazer uma leitura inútil. O ato de ler também pode ser apaixonante, como o sabem os fãs da literatura.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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