Colunistas

Publicado: Quinta-feira, 8 de julho de 2010

Swing na festa junina

Swing na festa junina

Ricardo e Mariana foram a uma festa Junina. Narciso e Paola também. Os dois casais não se conheciam. A festa estava animada, com todos os ingredientes de uma típica festa que se diz junina. Quentão, pinhão, cachorro quente, barraca da pescaria, prisão, quadrilha, fogueira e correio elegante.

Ricardo sempre foi um romântico desses que mandam flores, abrem as portas e puxam cadeira para as suas companheiras. Completavam dez anos de casados e estavam muito bem. Já Narciso e Paola andavam em crise, é que o rapaz tinha dado umas escapadelas. A moça não pode espernear muito quando soube da aventura do marido, pois ela também tinha tido seus casos extraconjugais. A tentativa de reconciliação esbarrava no gênio difícil do rapaz e na delicadeza excessiva de Paola.

Ricardo não resistiu quando uma moça de seus quinze anos ofereceu o serviço de correio elegante. Mariana tinha ido ao banheiro e o marido ainda apaixonado sacou a caneta de seu bolso e mandou ver: “meu amor, você não é uma, são tantas, e todas apaixonantes. Em casa, no trabalho, na cama, você ainda é a mulher com quem sempre sonhei.” Dobrou o bilhetinho e encomendou cuidadosamente a entrega:

- Olha, ela está vestida com uma saia xadrez, tem um lenço vermelho no pescoço e maria-chiquinha no cabelo. Ela é ruiva, não será difícil encontra-la.

Lá foi a garota em disparada atrás da tal moça ruiva. Foi mais rápido do que previra, bem que Ricardo havia dito que não seria difícil encontra-la. Lá estava a moça ruiva, maria-chiquinha no cabelo, saia xadrez e um lenço no pescoço – ôpa, o lenço era amarelo e não vermelho como havia dito o rapaz. A moça não hesitou, sabia que homens não costumam ser bons observadores. Paola surpreendeu-se quando recebeu o bilhete, afinal Narciso nunca foi de escrever. Agradeceu a moça e sentou-se num banco próximo. Não podia acreditar no que lia. Uma declaração de amor àquela altura do campeonato era tudo o que ela não esperava do marido. Estavam à beira da separação e a moça chorou com o bilhete. Guardou-o em seu sutiã e ficou observando o trabalho de alguns meninos que teimavam em fazer um balão subir. Tinha o olhar perdido. Estava surpresa com a reviravolta na atitude do marido. Mesmo assim, sabia que tudo estava acabado entre eles. Estava apaixonada por outro homem e mesmo que ainda gostasse um pouco de Narciso - afinal eram dez anos de casados e seis de namoro – sentia que o casamento não tinha mais alternativa que não fosse a separação.

Chamou a moça do correio elegante e tentou ser o mais delicada possível: “querido, temos uma história muito linda, mas acabou. Não acrescentemos mais sofrimento. Não sei como aconteceu, mas estou apaixonada por outra pessoa. Desculpe. Eu não quis assim, aconteceu”.

- Preste atenção: ele é alto, loiro, está com um chapéu de palha, uma barba preta pintada e usa um par de botas marrom cano alto. Não será difícil encontra-lo.

Ricardo e Narciso não se conheciam, mas eram muito parecidos e quis o destino que tivessem usando, os dois, botas marrom com cano alto.

Narciso encomendou a prisão de Paola, sabia que ela detestava essa brincadeira. Efetuada a prisão ele escondeu-se num canto da festa, sabia que quando a mulher saísse da cadeia iria zangar-se com ele.

Ricardo quase teve um treco quando abriu o bilhete. Como assim? Mariana estava apaixonada por outra pessoa? Mas como assim? Como nunca havia percebido nada de estranho? Nenhum deslize, nenhuma pista, nada. Sentou-se e chorou. Decidiu que beberia. Tomaria um porre homérico e depois veria o que fazer.

Quando Paola foi capturada até achou graça.

– Puxa, o Narciso está sendo uma graça, fazia tempo que ele não era assim tão dedicado. Aquele bilhete e essa brincadeira de encomendar a sua prisão era uma prova inequívoca de que ele estava empenhado em reconquistá-la. Será que daria uma nova chance ao rapaz? Paola sentiu-se dividida.

Narciso que não havia escrito bilhete nenhum já dava o seu casamento por encerrado, não vislumbrava possibilidade de recomeço. Estava triste. Resolveu beber.

Logo Ricardo e Narciso estavam sentados lado a lado, os dois quase bêbados.

Mariana e Paola liberada da prisão procuravam pelos maridos. A festa estava muito cheia, o sítio era enorme. Encontrar alguém ali não era tarefa fácil. Ainda mais por que os dois beberrões haviam se enfiado num canto bem distante de tudo.

Não demorou nada até que começasse aquele manjado papo de bêbado.

– Pô, a mulherada é fogo. São elas que comandam tudo e a gente fica a ver navios. Eu gosto tanto dela.

– E eu então? Sou totalmente apaixonado por aquele traste.

A quadrilha foi anunciada. Que cada um arrumasse seu par. Mariana e Paola sobraram desemparelhadas. Sorriram, deram de ombros e entrelaçaram os braços. Brincaram a quadrilha juntas, e parecia que tinham combinado. As duas ruivas, de maria-chiquinha, saia xadrez e lenço no pescoço.

Encerrada a quadrilha as duas já cansadas, sentaram-se lado a lado. Mariana não fazia idéia do que pudesse ter acontecido a Ricardo que sumira há quase duas horas. Paola não parava de pensar no bilhete que tinha recebido por engano. Lia e relia a mensagem que acreditava ter sido escrita pelo marido.

Ricardo não se conformava com a noticia da traição. Lia e relia o bilhete. Bêbado as letras já começavam a se embaralhar. Narciso ao seu lado, espichava os olhos no primeiro rabo de saia que se aproximava, afinal sentia que seu casamento já estava no bico do corvo.

Paola aproveitou a proximidade com Mariana e confidenciou-lhe seu dilema.

– Tento dar mais uma chance pra gente? Ele está sendo tão bonitinho em tentar me reconquistar. Eu estou surpresa. O que você faria em meu lugar?

Essa também era a pergunta que Ricardo fazia a Narciso.

– Se tua mulher resolvesse te dar um inesperado pé na bunda através de um bilhete de correio elegante, o que você faria?

- Olha eu daria uma chance a ele, Se você acha que gosta dele, se já estão juntos há tanto tempo, eu investiria nessa relação. Começar uma nova história é tão incerto e às vezes é só fogo de palha. Convenhamos que paixão é passageira, amor é outra coisa.

Mariana fez a cabeça de Paola. Tentaria um recomeço com Narciso, o rapaz merecia uma nova chance.

Narciso foi taxativo:

-Dar um pé na bunda via correio elegante?! Isso só pode ser atitude de uma idiota. Ela não te merece, tá cheio de mulher no mundo. Não gaste vela com mau-defunto.

Mariana e Paola já estavam ficando preocupadas quando finalmente avistaram os maridos naquele estado lastimável em que estavam. As moças tentaram car

Comentários

O olhar de um nariz

Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

Arquivo

27 de abril de 2012

Êxodo Rural

29 de março de 2012

Até tu, SESC?

5 de abril de 2011

A arte do desencontro V

28 de fevereiro de 2011

A arte do desencontro IV