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Publicado: Quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Solidariedade, uma Utopia que Pode Acontecer

Afinal, o que é ser solidário? Será a solidariedade realmente necessária em nossas vidas e para a melhoria do mundo? Como pensar em melhorar o planeta diante de incessantes notícias negativistas, que acusam sem parar a degradação do ambiente e das relações humanas?
 
Falar de solidariedade, de caridade, de bondade e outros termos bonitinhos é muito comum conforme chega o fim de mais um ano. Parece que ficamos bonzinhos de repente, como para não deixar passando em branco o ano que termina. Mas por qual motivo temos tal sensação? Talvez seja porque, bem lá no fundo, saibamos que não estamos fazendo a nossa parte.
 
Ninguém gosta de comer um pratão de macarronada vendo cenas da falta de comida entre as crianças refugiadas em Uganda. Ninguém toma um sorvete com verdadeiro prazer, sabendo que milhões passam fome porque foram mutilados em guerras e conflitos, não tenho mais condições de trabalho. A cervejinha fica mais amarga ainda quando lembramos da força crescente da criminalidade e da violência, que explora a miséria humana nas favelas e periferias.
 
Diante de tantos desafios, o que podemos realmente fazer? A resposta é: praticar a solidariedade. Primeiramente, ser solidário é importar-se. É revoltar-se. É não aceitar as coisas como elas estão. Assim colocado, ser solidário é ser revolucionário. É querer mudanças para melhor. Independente de ideologias, religiões ou preferências futebolísticas, todos podem ser solidários se quiserem realmente.
 
Diante de um desastre natural, como um terremoto ou furacão, chega a ser gratificante ver a ação de vários organismos humanitários que atuam no socorro das pessoas atingidas. Diante da grande leva de fantasmas-marginalizados em nossa sociedade, é bom saber que existem grupos lutando para levar melhorias às suas vidas, reconduzindo-as a uma vida digna. Diante de tantos doentes terminais e velhinhos, abandonados pela família por não serem mais “úteis”, é comovente saber que há quem se preocupe e faça algo por eles.
 
Para ser solidário não é preciso ingressar em algum organismo internacional. Não é preciso ajudar no combate à fome na África. Na maioria das vezes, a oportunidade está mais perto do que pensamos. Será que, naquele bairro perto do seu condomínio, todas as crianças têm material escolar? Será que, naquela favela que você enxerga no caminho para o trabalho, as mães têm condições de alimentar seus bebês dignamente? Será que aquele jovem que pede pra lavar o pára-brisa terá a oportunidade sagrada do primeiro emprego?
 
O segredo é cada um fazer a sua parte. As formigas são usadas e abusadas como exemplo de coletividade. E isso porque atuam em conjunto, colocando o grupo acima do indivíduo. O que nós humanos fazemos é justamente o contrário. Somos competitivos demais e colocamos o indivíduo acima da coletividade. Ideal é quando tudo está bom para mim, os outros que se virem. Com tal pensamento durante milênios, não me parece muito difícil explicar por quê somos obrigados a conviver com tantas injustiças e mazelas.
 
Ser solidário é coisa de gente talentosa. Sim, pois os medíocres não pensam em melhorar o mundo. Pensam em acumular, usufruir, explorar, gozar. Eis uma linha muito distinta, para a qual cada um pode olhar a fim de posicionar-se de um lado ou de outro dela. Aos que não se importam apenas com o próprio umbigo, vale dizer que ser solidário acaba fazendo mais bem para quem pratica do que para quem recebe o gesto de solidariedade. Mais do que conforto de consciência e paz de espírito, praticar a solidariedade traz crescimento humano e experiências jamais verificadas na correria do cotidiano.
 
Não lançarei nenhuma campanha. Não formarei um grupo. Não criarei um slogan, nem um logotipo. Sem depender disso tudo, cada um pode ser solidário a partir de hoje. Basta querer. Basta realizar. Basta ser diferente, planejando ações solidárias e colocando-as em prática.
 
Se houver a oportunidade de convidar mais um amigo, dois, dez, duzentos, a fim de serem todos solidários em conjunto, melhor ainda. Vamos nos permitir um momento utópico e acreditar em um efeito solidário multiplicador, lembrando que da utopia (sonho) humana é que surgiram muitos feitos até então considerados impossíveis.
 
Seja solidário, para o seu próprio bem. E além disso, o mundo agradece. Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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