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Publicado: Terça-feira, 23 de agosto de 2011

Socorro! Eu preciso de você!

 

Melissa todos os dias, a caminho da escola, passava por um bairro muito pobre, ruas sem calçamento e casas em péssimo estado de conservação evidenciando a pobreza, quase miséria, de seus moradores.

Conforme lhe recomendara a mãe, atravessava a longa rua esburacada, apressada, sem olhar para os lados, muito menos parando para conversar.

Foi num dia de temporal, quando ela já estava toda molhada que ele abordou-a:

--Entre, menina, a casa é pobre, mas não chove muito aqui dentro.

Já observara várias vezes aquele homem, sentado à porta da casa, olhar perdido ao longe, que a observava de uma maneira estranha quando ela passava.

Não sabia dizer por que ele passava-lhe uma impressão boa, sentia que podia confiar, que nenhum mal ele lhe faria. Tinha vontade de falar com ele, saber de sua vida, talvez ajudá-lo, ele devia precisar de tanta coisa!

Começou a cumprimentá-lo ligeiramente, mas ele respondia calorosamente:

-- Boa tarde! Como foi a aula hoje?

--Está quente hoje, não? Será que vai chover?

Prestava atenção nela:

--Cortou os cabelos? Ficou muito bom!

No começo ela esquivava-se. A mãe sempre a advertia para o perigo de se envolver com estranhos, mas aquele homem era diferente. Tinha certeza de que nada de mal ele lhe causaria.

Um dia ele cumprimentou-a:

--Boa tarde, Estela!

Será que ele estava o tempo todo a confundindo com outra pessoa?

Resolveu responder:

--Eu não sou Estela. Sou Melissa!

--É que eu conheci uma moça chamada Estela que era igualzinha a você.

--Hummm!

--Posso chamá-la de Estela?

--Por que isso?

--Porque é um nome muito bonito. Quer dizer Estrela!

Melissa deu de ombros e foi embora. Já tinha dado trela demais para aquele maluco.

Agora fora surpreendida pelo temporal e quando passou por ele já estava toda molhada e não conseguia mais andar na enxurrada

--Entre, Estela!

Hesitou por um momento, se a mãe soubesse não iria gostar nada do que estava fazendo, mas a chuva aumentava muito e ela resolveu adentrar a casa daquele homem que não conhecia e que, ao que parecia, morava só.

A casa, se é que se pode chamar de casa um único cômodo mal coberto, sem janelas, com uma tabua encostada na saída como se fosse uma porta para ser fechada a noite garantindo um mínimo de aconchego, foi aberta para acolher a garota encharcada.

--Infelizmente não tenho nada para oferecer, nem uma roupa seca, nem uma xícara de café quente.

--Não precisa a chuva já vai passar e eu vou embora.

Ele riu:

--Você está com medo de mim?

--Não...

--Então vamos conversar um pouco. Eu conheci uma moça muito parecida com você. Ela se chamava Estela e foi muito especial pra mim. Se tudo tivesse sido diferente hoje poderíamos ter uma filha de sua idade e ela por certo seria parecida com você.

Melissa ficou meio assustada com o rumo da conversa e respondeu apressada:

--Minha mãe se chama Odila e não é nada parecida comigo.

A chuva amainou, Melissa agradeceu, saiu correndo rumo à sua casa e ele ficou só com suas lembranças que nunca o deixavam.

Já fazia muito tempo que tudo acontecera. Era um casal como muitos outros. Casaram-se por amor, um amor apaixonado, exaltado, capaz de tudo, mas tudo mesmo, para viver com intensidade cada vez maior, buscando todas as fantasias que os levavam a um relacionamento muito mais fantasioso do que real.

Quando as primeiras dificuldades apareceram, ele se abateu, decepcionou-se com o casamento, descobriu que Estela não era tão pura quanto um anjo que houvesse caído do céu nos seus braços, nem tão radiosa quanto as estrelas que lhe inspiraram o nome. Era uma simples mulher, nem fada nem bruxa, apenas uma mulher, e ele, um homem com todas as limitações humanas, resolveu jogar tudo para o alto e ir viver a vida como ele achava que devia ser vivida; isto é, sem obrigações nem responsabilidades.

Mas a vida nos cobra sempre o resgate de nossos erros e depois de uma fase de excessos de toda espécie acabou perdendo tudo que tinha, comprometendo sua saúde, perdendo sua alegria e mais cedo do que imaginara estava pobre, doente e triste, morando em um cômodo sem nenhum conforto e tudo que lhe restava era esperar todas as tardes a passagem da menina que se parecia com a Estela e que poderia ser sua filha se tudo tivesse sido diferente.

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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