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Publicado: Sexta-feira, 27 de julho de 2007

Sobre o Clero - Parte Um

No mês de agosto comemoramos datas em homenagem aos padres e diáconos. Nada mais justo do que falar deles então. Se há uma coisa que gosto na minha profissão é da convivência com o clero da nossa Diocese. São quase duzentas pessoas, presentes nas 11 cidades que formam o território diocesano. Desse total, posso afirmar com certeza que tenho o coleguismo de praticamente metade deles. São pessoas que cumprimento com o maior carinho e por quem rezo a fim de que seus ministérios tenham êxito nas comunidades em que atuam.
 
O primeiro padre que conheci foi Monsenhor Camilo Ferrarini. Lembro dele celebrando a missa das crianças na Matriz da Candelária. Era extremamente carinhoso com os pequeninos, assim como penso que Jesus era. Eu saía do meu distante bairro e vinha a pé até a igreja a fim de participar. Depois de adolescente, atuando como violeiro nos encontros de jovens do JACA, lembro-me que ele disse ao meu grupo durante um desses eventos: “Vocês são responsáveis por passar a alegria de Jesus a esses jovens que não o conhecem. Nunca esqueçam dessa missão”. Guardo suas palavras até hoje, com imenso respeito.
 
Anos depois conheci Frei Clemente da Costa Neves, grande carmelita. Sem dúvida muito menos carinhoso que Monsenhor Camilo. A diferença era contrastante. Porém, aprendi a admirá-lo quando percebi o enorme zelo que tinha em relação a tudo o que dizia respeito à comunidade.
 
Em sua passagem pela Paróquia da Candelária reabriu a capela do Santíssimo, por muitos anos desativada. Meio sisudo, com cara de bravo, era difícil ver Frei Clemente rindo. Mas nem por isso era menos querido, nem por isso gostava menos das pessoas que o cercavam. Sacerdote competente, certa vez deu-me um vislumbre de sua amabilidade. Encarregado de entregar-lhe uma encomenda, deu-me uma gorjeta dizendo: “Esse aqui é para você tomar um sorvete”. E na minha alegria adolescente, fui tomar o tal sorvete um tanto quanto espantado.
 
Em seguida, conheci Monsenhor Antôni Spoladori. Vindo da cidade de Louveira para a Matriz da Candelária, no começo ninguém sabia se o chamava de Padre Toninho ou de Monsenhor Toninho. Ele dizia: “Dá no mesmo, é tudo Toninho”. Certa vez fiz-lhe um favor. Logo que chegou à cidade, me pediu para ir até o supermercado. Deu-me o equivalente hoje a 50 reais e quis que comprasse tudo em miojo e ovos. Isso mesmo. Fiquei estupefato. Pensei: “Como um homem desse tamanho vive comendo miojo com ovo?”.
 
Monsenhor Toninho era um mestre em oratória. Ninguém nega a alta qualidade de seus sermões. Ninguém discute a sua criatividade nas festas que realizava, principalmente as da Padroeira, da Páscoa e do Natal. As encenações organizadas por ele atraíam milhares de pessoas. Durante os ensaios ele era mais mau-humorado do que carteiro trabalhando aos domingos. Mas no fim tudo saía direitinho. Na Quaresma ele também fazia a via-sacra de rua, às 5 horas da manhã, culminando com a celebração da missa na Matriz. Infelizmente nos deixou, numa seqüência triste de acontecimentos. Que Deus o tenha.
 
O Padre Durval de Almeida eu já conhecia. Era pároco de São Camilo e celebrava missas na Igreja do Patrocínio. Quando chegou na Matriz da Candelária, achei que a escolha de Dom Amaury Castanho, o bispo diocesano na época, fora perfeita. Padre Durval é sem dúvida responsável e zeloso. As críticas que alguns lhe fazem são facilmente superadas pela incrível capacidade de unir a comunidade em torno de um objetivo. E digo isso “ex cathedra”, pois vi tudo acontecendo de uns anos para cá.
 
No final de seu episcopado, Dom Amaury fez-lhe homenagem conseguindo do Vaticano o título de Monsenhor para o então Padre Durval. Nada mais justo. Em belíssima cerimônia na Matriz da Candelária ele, de batina preta, recebeu o anel do monsenhorato. Lembro que ficou emocionadíssimo.
 
Depois, os paroquianos não sabiam se o chamavam de “padre” ou de “monsenhor”. A força do título acabou pesando a favor, mas até hoje eu brinco com ele por não usar o tal anel do monsenhorato. Humilde em seu jeito de ser, Monsenhor Durval dispensa essas honrarias. Sabe ser um padre competente e responsável, sem deixar de dedicar atenção às crianças, aos jovens e a todos os que trabalham pelo bem da comunidade.
 
Os escritos sobre o nosso clero continuam na próxima semana.
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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