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Publicado: Terça-feira, 29 de julho de 2008

Sobre a Arte de Dirigir

Confesso que nunca gostei de dirigir. Na minha família ninguém possuía automóvel e talvez por isso nunca me interessei. Quando meus amigos e eu completamos 18 anos, não entendia o por que de tanta pressa para tirar a carta de habilitação. Passei muito tempo pedindo e recebendo as caronas dos amigos e amigas, no que depois passei brincando a chamar de Pastoral da Carona.
                                     
O fato de não dirigir em nada me diminuía. Tornei-me o melhor dos co-pilotos, acostumado com a leitura rápida de placas e sinais de trânsito, em perímetro urbano ou rural, nas rodovias estaduais ou federais. Creio que poucos podem contar tantas horas em tal função, pena que não haja um certificado para co-pilotos de automóvel.
 
Foi só depois de muito tempo que resolvi fazer os exames para conseguir o CNH. Não fui movido por nenhuma pressão, mas um pouco por curiosidade e outro tanto por uma necessidade que começava a surgir. A curiosidade era saber qual tipo de motorista eu conseguiria ser. A necessidade veio conforme comecei a trabalhar na cidade de Jundiaí e também da minha vontade de ser útil ao saudoso dom Amaury Castanho que, mesmo que teimosamente negasse, já passava a ser um “perigo” no trânsito ao dirigir o seu Peugeot aos 78 anos de idade.
 
Assisti ao cursinho e fiz as aulas práticas de direção, na auto-escola. Prestei o exame e passei, pegando depois o documento provisório que me permitiria iniciar a carreira de motorista. Comprei um carro usado, pois bem sabia o que iria ser dele naquele primeiro ano. Certamente iria subir em guias, ralar as rodas na calçada ao estacionar, arrancar retrovisores ao fazer balisas ou saindo do estacionamento. Isso sem dizer nos ligeiros choques na parede da garagem ou no postinho da rua, ao dar a marcha-ré.
 
Nem preciso dizer que consegui lesar os quatro pontos cardeais do meu carro, em manobras várias. Desajeitamente aconteceu e hoje nem sei como consegui realizar tais proezas. Mas não fiz a obra todo sozinho, alguns contribuíram. Como certa vez, terminando de passar por uma lombada, um infeliz não conseguiu brecar e acertou-me o carro na traseira. Ou quando um caminhão (isso mesmo) acabou com a lateral esquerda do meu veículo, em plena Rodovia Anhangüera.
 
Foi ótimo não ter comprado um carro zero quilômetro, pois certamente eu ficaria muito mais deprimido se tantas coisas acontecessem com um veículo novinho em folha. Depois do primeiro ano como motorista é que finalmente passei a confiar em mim mesmo e a desconfiar o suficiente dos outros. Pois o bom motorista sabe que, em questões de trânsito, não basta dirigir corretamente: é preciso precaver-se até pelos maus motoristas.
 
Certo de que não cometeria mais barbeiragens, mandei arrumar toda a lataria do meu carro. Ficou novo em folha e, com minhas habilidades mais desenvolvidas, suas condições gerais passaram a ficar muito melhores. É claro que acidentezinhos acontecem, mas nada se compara ao primeiro ano como motorista... A primeira vez em que temos de descer do carro para pegar o cartão de estacionamento do shopping, porque paramos muito longe da maquininha, é emocionante!
 
Em cerca de um ano e meio indo e voltando do trabalho em Jundiaí, adquiri gosto por dirigir na estrada. Concordo com os que dizem ser mais fácil do que a direção no trânsito das cidades. O uso do cinto é indispensável em qualquer das situações (viu, seu Mariano?). Nesse tempo fui parado umas quatro vezes pela Polícia Rodoviária. Em três dessas paradas, os guardas apenas conferiram a documentação. Porém, certa vez fiquei com a impressão de que o guarda queria achar algum motivo para multar-me.
 
O policial rodoviário pediu-me a documentação e viu que estava tudo em ordem. Sempre fiz questão de deixar tudo pago e em dia. Fez uma série de perguntas: no que eu trabalhava, vindo de onde, indo para onde, etc. Pediu para abrir o porta-malas, checou os itens obrigatórios: estepe, macaco, triângulo, etc. Solicitou que abrisse o capô do carro, olhou o motor. Chutou os pneus, verificando a calibragem. Viu também se não estavam carecas. Checou os faróis e pediu até para verificar a validade do extintor de incêndio. No fim, me liberou. Saí com a sensação de que havia ganho uma revisão grátis...
 
Que tipo de motorista me tornei? Considero-me um dos bons, pois creio que o mais importante seja a educação no trânsito. Como fui bem educado para a vida, graças aos meus pais e professores, sei agir assim também quando estou ao volante. Não sou impaciente e nem buzino à toa. Não xingo os outros motoristas e nem me imagino o Schumacher no autódromo de Ímola.
 
Conheço os princípios básicos da direção defensiva e também sou cortês. Nunca parei em cima da faixa e espero calmamente os pedestres atravessarem. Não passo no “sinal laranja” e nem dou buzinadinha para quem não viu que o sinal abriu. Em um congestionamento de 40 km na Rodovia dos Tamoios, parado por mais de duas horas sob o sol escaldante, civilizadamente fiquei curtindo as músicas que tocavam no meu rádio. Sem stress, pois raiva e pressa não combinam com volante.
 
Até agora estou assim: sem multas e sem causar acidentes. E que São Cristóvão abençoe a mim e a todos os motoristas!
 
Amém!
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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