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Publicado: Terça-feira, 4 de maio de 2010

Sequestro relâmpago - parte II

Sequestro relâmpago - parte II

Nelson lembrou-se da mega-transação bancária que poderia ser a salvação de sua vida:

- Eu acho que sei o que está acontecendo...

- Você tá me deixando nervoso, vou te queimar!

- Espera aí, você acha que eu vou trocar a minha vida por quinhentos paus? Deixa eu te explicar. O banco do qual sou cliente foi vendido para um outro banco. A transferência de clientela tá dando algumas confusões

- Então como é que a gente faz agora?

- Essa aqui é uma agência do Unibanco que sempre foi Unibanco, talvez o meu cartão só funcione numa agência Unibanco que era antiga Nacional.

- E como é que a gente sabe isso?

- Simples. As agências que viraram Unibanco tem o número 415, as que sempre foram têm o número 409.

O ladrão esticou o pescoço e lá estava: 409. Guardou o cartão no bolso.

 - Se estiver me enrolando, vou te queimar. Porra! Só comigo mesmo... Já estamos uma hora nessa enrolação. Você falou que tem quinhentos mangos. É verdade?

- Por aí.

- Porra! Que fria. O que você faz da vida?

- Eu sou médico, quero dizer, sou residente.

- Porra, mas médico não ganha uma puta grana?

- Eu ainda sou residente, não atendo em consultório. Dou plantão e passo a madrugada no hospital atendendo quem aparece.

- Ô maluco, já que você é médico me faz uma consulta. Tenho muito sono, durmo diretão. Passo o dia com sono. Isso é doença?

- Dormir demais não é doença. Quanto tempo você dorme por noite?

- 12 horas.

- Ah! Realmente é bastante. Não me leve a mal não, mas tenho que te fazer uma pergunta: Você faz alguma coisa? Tem alguma atividade ou você acorda e não faz nada?

- Eu acordo e não faço nada.

- Então é isso. Você tem que ter alguma atividade, senão o corpo não acorda mesmo.

- E não tem remédio para isso não?

- O remédio é procurar alguma coisa para se fazer, ter alguma atividade.

O ladrão chegou a conclusão que não havia solução para o seu problema. Mudou de assunto:

- Vamos entrar nesse boteco. Estou sem cigarro.

- Fumar é um veneno...

- Tô ligado maluco. Com a vida que levo, vou morrer logo. E não vai ser por causa de cigarro.

Saíram do bar e continuaram a caminhada, um ao lado do outro.

- Quer dizer então que banco tem dono. Como um dono de banco ganha grana?

- Quando as pessoas precisam de dinheiro vão aos bancos. O banco, que não tem dinheiro nenhum, empresta para esse camarada o dinheiro que outro sujeito depositou. O pulo do gato está no seguinte: os juros que o banco cobra do cara que pega emprestado é maior do que os juros pagos para quem deposita. Essa diferença é o lucro do banco.

- Porra! Os caras ganham dinheiro no mole!

O rapaz era bastante inteligente.

Finalmente chegaram à agência bancária. O expediente bancário já havia se encerrado, porém havia um serviço eletrônico de atendimento 24 horas. Entraram:

- Código maluco...

 “Este cartão não está autorizado para esta operação”.

Nelson gelou. O rapaz ficou enfurecido. Atirou o cartão ao chão e esbravejou:

- Porra! Por que essa merda não funciona?

- Olha, você está nervoso, está fazendo escândalo, está dando bandeira de novo. Vamos tomar uma cerveja no boteco aí em frente, assim você se acalma e depois a gente tenta de novo.

Por essa o rapaz não esperava. Ficou aturdido por alguns segundos e declarou-se:

- Você é um cara legal maluco! Não merece morrer, não.

Sentaram-se junto e pediram a cerveja como dois bons amigos.

- O que tem nessa pasta aí maluco?

O rapaz foi pegando a pasta que Nelson colocou sobre o balcão e alguns documentos foram ao chão.

- Pede que eu mostro. Você derrubou tudo no chão. Isso é documento de IPTU, não tem nada que interesse a você.

O ladrão só faltou pedir desculpas. Ajudou-o a recolher os papéis e, como um moleque que toma bronca, foi logo mudando de assunto;

- Você tem namorada?

- Não, mas tem uma menina que eu gosto muito.

A identificação foi imediata:

- Eu também. Sou amarradão numa menina. A tua mina tem namorado?

- Tem, mas eu sei que não é nada sério. Não é esse o problema.

- Pô maluco, você é um cara bacana, boa praça, tem grana. Se você não conseguir descolar uma mina, quem consegue? Tem que chegar junto, mulher não gosta de cara vacilão!

- É...

- Comigo é diferente. Chego prá mina e ofereço o quê? Não tenho casa, não tenho grana, não tenho emprego. Sou um fudido. Qual mina que vai entrar nessa barca furada? Eu sou fria, maluco!

- Você já trabalhou na vida?

- Roubada! Fui boy um tempo aí, mas não dá futuro. Ia ser boy a vida toda. Trampar para os bacanas e continuar na merda!

Tinha melancolia na voz do rapaz.

- Aí maluco, vamos embora. Não tenho o dia todo.

- Tem um restinho ainda na garrafa. Afinal sou eu quem estou pagando, deixa eu terminar.

O rapaz já estava em pé, lembrou-se que era um assaltante e que aquele assalto ainda não tinha rendido nada.

Nelson tomou o resto da cerveja e seguiram caminho.

- Você falou sobre um cartão de crédito, como é isso?

Nelson explicou-lhe como funcionam os cartões de crédito.

- Então, vamos desencanar da grana. Vou só comprar uns bagulhos e já te libero. Meu negócio não são esses roubinhos merrecas. Sou ladrão de banco. Eu e meu irmão temos nove milhões escondidos. Assim que ele sair da penitenciária a gente pega a grana. Devolvo o que gastar com o teu cartão. Fala o número da sua conta e deposito.

- Mas como é que eu posso confiar em você? Você é um ladrão.

O rapaz ofendeu-se:

- Qual é maluco? Sou ladrão, mas sou homem! Se estou falando que vou depositar é por que vou depositar!

- Você tem nove milhões? Eu tenho quinhentos paus no banco. Eu é que deveria te assaltar!

Gargalharam. O rapaz sentiu-se bem.

- Nove milhões é mais do que cem mil?

- Meu Deus! É muito mais. São noventa vezes cem mil! Você está rico! Com essa grana você sai de São Paulo, aqui você já está marcado. Vai para o interior, compra uma bela casa, um carro, abre um negócio e ainda sobra grana!

Os olhos do rapaz br

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Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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