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Publicado: Sábado, 8 de maio de 2010

Sequestro relâmpago - epílogo

Sequestro relâmpago - epílogo

À medida que o policial foi se aproximando Nelson imaginou a cena que fatalmente se desenrolaria. O assaltante estava muito nervoso, o policial perceberia. Olharia nos olhos de Nelson e rapidamente entenderia tudo. Quando finalmente estiverem lado a lado, puxará Nelson pelo braço para longe do seqüestrador. O rapaz puxa sua arma e uma sucessão de estampidos é encerrada quando o corpo do rapaz vai ao chão. Nelson tem as mãos ensangüentadas. Olha para elas e procura pelo corpo de onde vem todo aquele sangue. Não consegue localizar o ferimento. O policial pede que ele se deite para aguardar a ambulância que está a caminho.

- Pode ficar tranqüilo. O elemento não vai incomodar mais. Um a menos.

Deitado, Nelson vira a cabeça e vê o corpo do rapaz morto. Sente-se culpado. Quinhentos paus não podem ser o preço de uma vida. Em um mês de trabalho ele recuperaria aquela grana, já a vida daquele rapaz não voltará nem com todos os anos de remorso que Nelson irá viver. Olha para o policial e também sente pena por sua brutalidade. Também deve ter filhos, comer pizzas, telefonar para amigos. Nelson só não sente pena de si mesmo. Que merda de mundo é esse em que vivemos? Eu não queria que esse policial tivesse aparecido. O rapaz só ia comprar umas roupas, dificilmente eu daria um destino melhor àqueles quinhentos mangos. Que mundo é esse onde para se proteger quinhentos paus de um almofadinha se permite que se mate uma pessoa? O rapaz era gente boa. Deu azar de nascer numa família pobre, talvez um pai alcoólatra, uma mãe de quinze anos. Poderia ter sido um colega seu na escola particular em que estudou. O rapaz era inteligente e os seus sonhos não eram muito diferentes dos sonhos dele e de todos seus amigos endinheirados. Uma paixão, umas roupas bacanas, um negócio próprio, talvez uma vida no interior. Agora estava lá morto. Nelson assistiu à essa cena em sua mente durante os poucos segundos durante os quais se deu a passagem entre ele, o seqüestrador e o policial. As mãos ainda suadas, a respiração alterada.   Passado o perigo, o rapaz reconheceu o seu esforço:

- Você é gente boa maluco!

Finalmente chegaram à loja que o rapaz procurava. Entraram. O rapaz compraria somente algumas calças e duas ou três camisetas. O essencial para atualizar o seu guarda-roupas.

Uma vez escolhida as roupas o rapaz cochichou :

- Ficou duzentos e dez, tudo bem maluco?

- Tudo bem? Claro que não está tudo bem. Você está me roubando, né cara?

- Porra maluco! Você já pensou que a essa hora você poderia ser um presuntão?

- E você já pensou que a essa hora eu poderia estar na minha casa comendo pipoca e vendo televisão?

- Isso é verdade.

- Me explica uma coisa: Se você tem nove milhões escondidos, por que você está me roubando? Por que a gente não sai daqui e vamos tomar outra cerveja? Eu volto para a minha casa sem prejuízo e você volta aqui semana que vem e compra a loja inteira de uma vez?

- Você não sabe o que é uma penitenciária maluco! Eu sei. Quem me garante que meu irmão vai sair vivo de lá? Eu só posso garantir o de hoje. Prá mim não tem amanhã. Amanhã é coisa prá bacana...

- Bom não tá, né? Mas você está me roubando, não adiantaria eu falar que duzentos e dez paus em roupa de um cara que nem conheço é muito. Você vai levar e pronto!

- Porra maluco! Você é cabeça dura! Eu já falei que vou devolver a tua grana, fica frio! Pega o pacote aí maluco.

Nelson pagou as despesas. O pessoal da loja supôs que se tratasse de um casal gay. Saindo da loja o rapaz desculpou-se:

- Você está levando a sacola por que eu preciso das mãos livres caso eu precise atirar. Não estou te alugando, não.

Nelson não se incomodava em levar as sacolas.

- Olha, tua carteira tá contigo, teus cartões tão aí dentro, teu celular tá com você. Tudo certo. Nem doeu nada.Vou te liberar!

Nelson reclamou:

- Vai me liberar aqui? Depois de tanto que andamos eu nem sei onde eu estou, não faço a menor idéia de como voltar.

- Fica frio, vou te levar a um ponto onde passa um bumba que vai lá prá onde eu te conheci hoje à tarde, falô?

- Estou sem grana pro ônibus.

O rapaz meteu a mão no bolso e deu uns trocados para Nelson. Caminharam uns quarenta minutos até chegarem ao ponto. A conversa rolou solta. Os dois torciam para o mesmo time, embora tivessem divergências sobre a escalação ideal da equipe.

- Imagina cara, fulano tem que jogar solto. Quem tem que marcar é cabeça de bagre!

- Imagina, hoje em dia todo mundo tem que marcar, não existe mais jogador que não precisa marcar!

- Pode ser, mas eu acho um desperdício botar um cara desses prá correr atrás dos outros, são os outros que tem que correr atrás dele!

- Domingo tem jogo...

Os dois pensaram em combinar um encontro para irem juntos ao estádio, lembraram que não podiam. Ficaram quietos.

- Aí maluco, o ponto é aí. Me dá o número da sua conta prá eu depositar a tua grana.

Nelson deu.

-Falô maluco.

- Espera aí, os teus cigarros!

- Pode ficar.

- Mas eu não fumo.

Nelson passou os cigarros para o rapaz.

- Valeu maluco.

- Valeu.

No domingo seguinte os dois foram ao estádio, mas não se viram. Gritaram gol ao mesmo tempo.

O rapaz estava com sua roupa nova e Nelson comeu pipoca.

Provavelmente nunca mais irão se ver, mas nunca se esquecerão um do outro.

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Nando Bolognesi

Nando Bolognesi

Palhaço profissional e na vida. Fez parte do elenco dos Doutores da Alegria de 2001 a 2005. Trabalhou de 2005 a 2008, sempre como palhaço, com usuários de atendimento psiquiátrico. Faz parte do elenco do espetáculo de palhaços Jogando no Quintal.

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