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Publicado: Terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Richarlyson: injustiçado pelo preconceito

Richarlyson: injustiçado pelo preconceito
Fonte: Fox Sports.

Torcedor, imagine que seu time contrata um jogador com este currículo:

  • Campeonato Paulista de Futebol: 2002
  • Mundial de Clubes da FIFA: 2005
  • Campeonato Brasileiro: 2006, 2007, 2008
  • Campeonato Mineiro: 2012 e 2013
  • Copa Libertadores da América: 2013
  • Copa São Paulo de futebol Junior: 2003
  • Bola de Prata: 2007
  • Seleção do Campeonato Brasileiro: 2007

Além disso tudo, esse jogador tem características que o permitem desempenhar, e bem, três funções em campo.

A reação natural seria ficar contente e empolgado, pois seria um ótimo reforço que poderia ajudar seu time na disputa dos competitivos campeonatos nacionais e internacionais, certo?

Não era o que acontecia com o lateral/meia/volante Rycharlison. Revelado pelo Ituano e com belíssimas passagens por São Paulo e Atlético Mineiro, o jogador teve sua carreira marcada por uma das culturas mais podres enraizadas no futebol: a homofobia.

Durante sua passagem pelo São Paulo, começaram rumores por conta de uma declaração do então dirigente administrativo do Palmeiras, José Cirilo Junior e de constatações tiradas não se sabe de onde, de que este era homossexual. Orientação sexual nunca confirmada pelo jogador, mas que ainda assim não impediu que ele fosse caçado por mídia, rivais e até mesmo por sua própria torcida por isso.

A torcida do São Paulo, por sinal, pulava seu nome ao cantar a escalação do time antes dos jogos. O que é bem controverso e surreal, vindo de uma torcida que sofre xingamentos e represálias, com esse mesmo rótulo ridículo.

Quando foi apresentado como reforço do Guarani, no dia de sua apresentação, foram estouradas bombas ao redor do estádio Brinco de Ouro. O Guarani, time que há muito tempo não alcança resultados expressivos no futebol, tem uma contratação de um nível desse e a torcida reage com bombas.

Sobre o assunto o jogador declarou ao SporTV:

“Eu fui questionado sobre o tumulto que aconteceu na minha chegada. Eu falei: "Você quer que eu fale o que sobre isso? Para pessoas que são ignorantes... São pessoas vazias, que não respeitam  as pessoas. Nem me conhecem. Vocês querem que eu fale o que para essas pessoas? Eu não tenho o que falar. Para mim, não muda. É uma pessoa vazia. Por isso não gosto de comentar. Para mim é vazio. É tão vazio, é tão pequeno, para aquilo que eu sou, de onde eu vim. O que eu precisei conquistar... Pra que eu vou debater?"

Rycharlison sempre encarou isso muito bem, nunca se deixou abalar por essas críticas e sempre foi um jogador que raramente falhava. Mantinha uma ótima média de desempenho e foi importantíssimo no tri campeonato brasileiro do São Paulo. Mas entristece pensar o quão longe o jogador poderia ter chegado no futebol, por sua capacidade inegável, se não fosse esse repugnante tratamento que ele recebia.

Essa cultura enraizada e mantida no futebol até os dias atuais, colocaram a carreira brilhante do jogador em segundo plano, pois falando sobre ele sempre se lembrava desses acontecimentos, que eram os que realmente deveriam ser secundários.

O ambiente do futebol é muito machista e homofóbico e praticamente não existem medidas adotadas para coibir tais fatos. Nos tiros de meta de todos os estádios, assim que toca a bola o goleiro ouvirá o triste grito de “Bicha!” dos torcedores rivais. Eu que frequento estádio, presencio com tristeza essa atitude, sempre seguida de diversas gargalhadas e encorajada a ser repetida até mesmo pelos pais de torcedores ainda crianças.

Num caso mais recente, o jogador do Vasco, Felipe Bastos comemorou o título da Taça Guanabara (final que já teve como pano de fundo toda violência ao redor do Maracanã) proferindo as seguintes palavras cantadas a uma câmera, para se referir ao time do Fluminense: "Time de viado, time de viado..."

O Vasco repudiou o vídeo e o Fluminense posicionou-se também repudiando a atitude. Posicionamentos isolados, fracos, que não farão eco na luta pelo fim desse comportamento inadequado no futebol e na sociedade.

Infelizmente, já passou da hora dos órgãos responsáveis punirem os times por atitudes como essas vindas de torcedores e jogadores.

Infelizmente, já passou da hora dos clubes assumirem posicionamentos que confrontem suas torcidas e que cumpram seu papel social, usando o futebol como ferramenta para criarmos uma sociedade com menos intolerância.

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Marcelo Sandy

Marcelo Sandy

Marcelo Sandy é um jovem ituano, palmeirense, aspirante a cronista. Escreve textos reflexivos que levam os leitores a pensar sobre diversos temas. Seu foco principal são as crises existenciais do ser humano.

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