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Publicado: Terça-feira, 12 de junho de 2018

Rosana: Uma Flor Colhida no Céu

Crédito: Juca Ferreira Rosana: Uma Flor Colhida no Céu
Rosana partiu para um lugar no qual encontrará a mesma alegria que plantou e viveu nesta terra.

 A ordem das coisas neste mundo, definida por Deus através das leis naturais, obriga-nos a contemplar diariamente a nossa própria fragilidade. Somos vasos de barro que se podem quebrar a qualquer instante. Tudo que é vivo nasce, cresce e morre. Há um tempo para cada coisa. Tempo para nascer, tempo para viver e tempo para morrer.

Nós plantamos flores porque temos o desejo de contemplar sua beleza. Uma bela flor faz bem à vista e alegra a alma. Quanta beleza surge de uma simples semente. Inicialmente escondida na terra, ela vai brotando e se desenvolvendo. Cresce, forma um botão e desabrocha. Depois enfeita a paisagem e murcha. As pétalas caem e ela morre, deixando na memória da gente uma bela imagem, a lembrança do perfume e a esperança de que novas flores nascerão.

Faleceu Rosana Bragagnolo, de forma trágica. Vítima de uma violência crescente não apenas na cidade de Itu, mas em todo o Brasil. Era a Rosa + Ana, uma flor de pessoa. Não digo isso por mim: não éramos da mesma geração, não freqüentamos os mesmos ambientes, mas tínhamos muitos amigos e conhecidos em comum. Afinal de contas, a sua é uma das mais tradicionais e conhecidas famílias ituanas.

Em Itu, principalmente para quem vive ou viveu no Centro da cidade, todos se conhecem “de vista”. E era assim que eu conhecia Rosana. O testemunho de tantos familiares e amigos, diante de sua partida trágica, corroboram as impressões que sempre tive: uma pessoa alegre e vivaz, de bom coração e índole, preocupada mais com os outros do que consigo, guerreira no sentido de realizar seus sonhos através da fé, do estudo e do trabalho honesto. Uma pessoa sorridente e feliz, mesmo lidando com um problema ou outro. Enfim, alguém muito parecido com tantos e tantos brasileiros.

A Sagrada Escritura afirma que “o rosto mostra aquilo de que o coração está cheio”. A flor Rosana era cheia de alegria, para dar e vender. Ou melhor: apenas para doar. Como diz o Papa Francisco, não é preciso muito esforço para enfeitar o mundo cinza de hoje. Às vezes, basta um sorriso. Pelo que me lembro agora, em meio a estas reflexões, percebo que o sorriso era constante em Rosana. A mais bonita curva de uma mulher é a do sorriso em seus lábios.

Na condição de ituense e amigo de tantos familiares e amigos em comum de Rosana, quero externar minha profunda solidariedade. Meu coração sente também, junto com tantos, um quê de indignação e revolta. Por que as coisas precisam ser assim? Por que tanta violência? Por que o Mal parece atingir justamente aqueles que não merecem?

São perguntas que não encontram respostas neste mundo. Para os que temos Fé, tudo está nas mãos de Deus. O Criador sabe muito mais do que nós. E certamente Deus sabe qual é o momento, dentro de seus planos divinos, de colher para Si as flores que Ele mesmo plantou neste mundo. Estou unido a todos na oração, implorando ao Senhor o consolo a cada um.

Rosana não era negra, desempregada e nem pobre. Não era vereadora de capital. Não era uma entre as tais “vítimas sociais” que certas ideologiazinhas socialistas tentam promover. Sua morte será sentida como deve ser sentida qualquer morte: perdemos o convívio feliz com um ser humano maravilhoso porque único. Sobrarão apenas as lembranças e a saudade. Para nosso consolo, ninguém morre de verdade enquanto permanece vivo em nossa mente e coração. A saudade é o amor que fica. Para os que têm Fé, há ainda a promessa do Salvador: “Aquele que crê em mim, ainda que morra viverá!”.

De acordo com o Dicionário de Nomes Próprios (disponível na internet), o nome Rosana tem vários significados: “aurora”; “brilhante”; “estrela luminosa”; “rosa graciosa”. Nossa conhecida foi apenas uma das mais de 60 mil vítimas de assassinato no Brasil, o país mais ignorante e violento do planeta (segundo estatísticas de inúmeros organismos de pesquisa).

Noves fora a degradação dos valores humanos em todo o mundo e da decadência moral da humanidade em geral, o povo brasileiro está refém da criminalidade que explora a todos, inclusive e principalmente crianças e jovens.

Meses atrás publiquei artigo com o título “A Violência é Democrática”, porque atinge a todos: brancos e negros, ricos e pobres, homens e mulheres, heterossexuais e homossexuais, moradores da capital ou do interior, patrões e empregados, civis e militares, eleitos e eleitores, altos e baixos, magros e obesos, palmeirenses e corinthianos.

Enquanto o bandido anda livremente de arma na mão, o cidadão de bem está proibido por lei de cuidar da própria segurança. Quem é rico, se assim quiser, contrata escolta profissional. Enquanto isso, o pobre faz o papel de vítima indefesa. Não tem opção, a não ser esperar a sua vez quando ela chegar.

O Estado jura de pés juntos que pode garantir a nossa segurança. Mas sejamos sinceros: isto não é verdade. As forças de segurança pública sofrem com a corrupção interna. O pior inimigo da Polícia são os maus policiais, depois os bandidos. E também sofrem com o sucateamento, a falta de investimento e o aparato legal que, atualmente, garante mais direitos e proteções aos bandidos do que aos policiais. Hoje em dia, qualquer traficante de bairro tem armas mais poderosas do que qualquer guarda municipal e, talvez, até mesmo estadual...

Religioso que sou, aprendi que “a nossa segurança está em Deus, que fez o céu e a terra”. Mas também aprendi que, mesmo almejando o céu, ainda estamos obrigados a fincar os pés neste mundo. Devemos exigir das autoridades competentes que nos dêem a devida e necessária segurança. Porém, como “o seguro morreu de velho”, faremos melhor ainda se não perdermos a Fé e buscarmos em Deus a nossa segurança e o nosso consolo.

Diante de tal fatalidade não há explicações. Palavras não consolam, embora tentem. E o silêncio nos faz pensar. Para quem tem Fé, fica uma certeza misteriosa e inexplicável de que, apesar do acontecido, Rosana partiu para um lugar no qual encontrará a mesma alegria que plantou e viveu nesta terra.

Se Rosana foi ceifada fora de hora pela violência, certamente será colhida e acolhida por Deus na eternidade. A lembrança da flor, sua imagem e perfume, permanecerão entre nós. A saudade sempre a tornará viva novamente e nos alegraremos pela oportunidade dos tempos de convívio.

Terminando este artigo, recordo o refrão da musiquinha que o tempo todo me acompanhou enquanto pensava, rezava e escrevia estas linhas. Uma canção que sempre entoávamos com alegria no encerramento dos Encontros de Adolescentes com Cristo (EAC), da comunidade Jovens Adolescentes em Cristo no Amor (JACA), da Paróquia Nossa Senhora da Candelária: “O importante é a rosa, o importante é a rosa, o importante é a rosa: creia em mim!”.

Rosa Ana vai brilhar no céu.

A partir de agora, será mais uma flor no belo jardim do Paraíso.

E que descanse em Paz.

Amém.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é seminarista na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Simplício: Um Contador de Histórias - Vida e Obra de Francisco Flaviano de Almeida".

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