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Publicado: Terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Relato de um Papai Noel

E pensar que já fui um grande executivo de uma grande empresa... Veio a crise imobiliária dos EUA, quebrou a empresa e levou meu emprego embora. A firma não teve sequer dinheiro para me pagar as indenizações e estou apelando ao Ministério do Trabalho para consegui-las.

Mergulhado na bancarrota pessoal, dessas iguais a milhares de pessoas e das quais os jornais não publicam sequer uma linha, fui obrigado a procurar ocupação no submundo dos sub-empregos. Com o fim de ano chegando, consegui uma vaga de Papai Noel em shopping center.

Foi a primeira vez que minha mulher achou positivo eu nunca ter entrado para uma academia de ginástica. Na hora da seleção dos papai-noéis, minha barriga avantajada deu-me certa vantagem. Sinal concreto de horas de trabalho atrás de uma mesa, onde atender o telefone era o único exercício físico exigido.

A barba e o cabelo brancos, típicos do bom velhinho, seriam postiças. Ainda bem, pois não gostaria de andar pelas ruas como um sósia do Hermeto Pascoal. O uniforme de trabalho ficaria devidamente guardado em um armário do shopping. Já pensou ter de pegar metrô e circular por aí uniformizado de Papai Noel?

Na teoria o trabalho seria muito simples. Fica-se sentado parte do dia, devidamente vestido de Papai Noel, conversando com crianças de várias idades. Como em tudo na vida, a prática revela os ossos do ofício. Não existe serviço perfeito.

A grande poltrona de veludo vermelho é realmente quente. Depois de muitos anos, fui obrigado a comprar remédio para assaduras. Nem mesmo o ar-condicionado do shopping center poderia ajudar-me neste caso.

A orientação era para ser sempre gentil com a criançada. À primeira vista parece tudo muito simples. A criança chega acompanhada pelos pais ou por um deles, um parente ou conhecido. 

Após ficar alguns minutos na fila, ela se aproxima e senta no colo do Papai Noel. O velho interroga sobre seu comportamento durante o ano que finda e pergunta o que pode dar de presente em troca. Quem sabe poderá levá-lo pessoalmente na noite de Natal?

Na prática a criança, geralmente mimada, já puxa briga com as outras na fila. Aproximando-se, o fedelho pisa no pé do Papai Noel, devidamente comprimido naquele coturno preto. Para sentar no colo do velhinho, crava suas unhas nas pernas do coitado e, depois de sentado, atinge-o constantemente nas canelas com o balançar de suas perninhas.

As histórias sobre seu comportamento fazem qualquer um ficar com os cabelos arrepiados. Mesmo assim, os pedidos de presente criam uma demanda para vídeo games, carrinhos movidos a controle remoto, computadores e celulares.

É óbvio que não levarei presentes à casa de ninguém. Não vejo a hora de chegar o dia 26 de dezembro, para poder livrar-me deste emprego temporário. Agora entendo porque o Papai Noel aparece para trabalhar apenas uma vez durante o ano..

P.S.: Desculpem o atraso para postar meu depoimento. Após o Natal tirei três dias de férias, pois trabalhar como Papai Noel é extremamente desgastante.

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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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