Colunistas

Publicado: Sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Reforma na avenida central

Aquela pequena cidade do interior até parecia uma metrópole. Os carros entupiram a avenida central e centenas de motoristas gastaram horas para atravessar um trecho com pouco mais de dois quilômetros. Os mais pacientes se conformaram. Os impacientes apelaram para o ‘buzinaço’.

A situação era complicada, mas não havia o que fazer. Uma grande obra estava se realizando no local: a duplicação da citada avenida central. Com o aumento do número de veículos circulando a cada semestre, a medida era de quase urgência.

Depois de muitas conversas de gabinete, fizeram o processo de licitação. Conhecida a empreiteira vencedora e acertado o devido ‘caixa-dois’ para o cofrinho do partido, as obras finalmente começaram. Basicamente é assim que funciona. Dinheiro em cuecas, meias e panetones, são casos à parte.

A princípio os munícipes ficaram felizes. Era o progresso que chegava. Já estava mais do que na hora de duplicar a avenida central, onde é que já se viu? As pessoas estavam positivamente espantadas com o vai e vem dos peões da obra, sem dizer aquele maquinário todo de tratores, rolos compressores, britadeiras, etc.

Depois de cinco meses aquelas novidades todas começaram a incomodar. Os mesmos munícipes que haviam se alegrado, passaram a se incomodar. Não aguentavam mais aquela barulheira e os peões da obra muitas vezes ficam sentados vendo a hora passar. Sequer compreendiam a razão daquela empreitada demorar tanto. Afinal, a avenida central tinha cerca de dois quilômetros.

O tempo para a conclusão da obra estava quase findando e foi necessário fazer um acréscimo ao orçamento inicial. Feitos os trâmites legais entre a contratante (governo) e a contratada (empreiteira), aumentaram a verba em mais 45% do custo original. E lá se foi mais um pouco para o cofrinho do partido, pois ano que vem tem eleição e a despesa é maior.

Até que a demora toda compensou: a obra foi inaugurada nos festejos de aniversário da cidade. Os munícipes ficaram irradiantes! Não sabiam se ficavam mais felizes com o fim daquele transtorno todo ou com o belo canteiro central da avenida renovada.

Deixando de lado tudo o que aconteceu nos bastidores, o que mais me impressionou nesse episódio foi uma placa. Sim, uma placa colocada na avenida central durante as obras de duplicação. Era muito original, nada daqueles avisos óbvios de “em obras”.

Na tal placa, certamente confeccionada por algum dos peões mais filósofos do grupo, havia a frase: “O transtorno passa. A obra fica”. Era um consolo para os que enfrentavam o trânsito congestionado e o caos daquela região durante as obras, com seus barulhos e inconvenientes de praxe.

Mais do que um consolo, era uma promessa de futuro melhor. Podemos dizer até que foi uma gota de otimismo em meio à sinfonia de britadeiras e buzinas. Infelizmente, depois da inauguração da avenida central poucos se recordaram de que um dia existiu uma placa com uma frase daquelas.

Fiz uma placa dessas para mim e coloquei-a em lugar de destaque no meu escritório. Não, não pretendo duplicá-lo. Mas ao ler diariamente que “O transtorno passa. A obra fica”, certamente encontrarei forças para acreditar nessa verdade.

Quantas coisas nos atrapalham a vida! Quantas mesquinharias nos deixam sem humor e preocupados! Quantos transtornos nos incomodam a ponto de sentirmos que “perdemos o dia”! Ocorrências que nos tiram a paz e o sossego, a tranquilidade e capacidade de olhar adiante.

A mensagem da tal placa é também para a nossa vida. No fim de tudo, é a obra que fica. Tome-se qualquer figura notoriamente conhecida da nossa História. Não sabemos de todos os seus infortúnios, quem sabe alguns apenas. Porém, sabemos de todas as suas obras. Sejam boas ou más, elas é que ficam para a posteridade.

Portanto fica a sugestão de nos incomodarmos menos com os transtornos, seguindo o que sentenciou Nelson Ned (o maior menor cantor brasileiro de todos os tempos) em uma conhecida música: “Mas tudo passa... Tudo passará”.

Preocupemo-nos mais com as nossas obras. Elas é que ficarão. Elas é que nos representarão no futuro. Elas serão um reflexo permanente das nossas capacidades e ideais. Se o apóstolo São Thiago afirma que “a fé sem obras é uma fé morta”, podemos deduzir que uma vida sem obras também não serviu para muita coisa...

Amém.
Comentários

Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

Arquivo