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Publicado: Sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Reflexão Eleitoral

Dei cimento, dei tijolo, dei areia e vergalhão / Subi morro em favela, carreguei neném chorão / Dei cachaça, tira-gosto e dinheiro de montão / Pasmem! Mesmo assim perdi a eleição! / Traidor, traidor! Sem tem coisa que não presta é o tal do eleitor! 
 
Prometi ao meu amor que ia ser primeira dama / Porém quando eu perdi, ela vendeu até a cama / Eu achei o meu retrato no banheiro do terminal / Vou dar uns tapas no meu cabo-eleitoral / Traidor, traidor! Sem tem coisa que não presta é o tal do eleitor! 
 
Hoje eu tenho os meus motivos para estar injuriado / Porque eu só tive um voto e mesmo assim foi anulado / Como tem gente canalha, como tem gente ruim / Nem a minha mãe votou em mim / Traidor, traidor! Sem tem coisa que não presta é o tal do eleitor!
 
A música “O Político”, transcrita acima, é de autoria de Carlos Roberto de Oliveira, mais conhecido com Dicró. Trata-se de um dos sambistas mais conhecidos do país, nascido em 14 de fevereiro de 1946. Gravou 11 discos e faz sucesso até hoje nas rodas-de-samba cariocas, com suas músicas cheias de irreverência e críticas sociais. É um dos compositores mais proeminentes do “samba malandragem”, na mesma linha de Moreira da Silva e Bezerra da Silva.
 
Na véspera de mais uma eleição, nada mais justo do que refletir sobre este ato de cidadania pelo qual tantas pessoas lutaram. Podemos nos orgulhar de que o Brasil é o país mais democrático do mundo, com o maior número de eleitores. Diante da urna não há ricos e pobres, solteiros ou casados, católicos ou ateus, flamenguistas ou corinthianos, diplomados ou analfabetos: por alguns segundos somos realmente todos iguais.
 
Há 19 anos, os brasileiros reencontravam-se com as urnas após duas décadas de regime ditatorial imposto pelos militares. Do desastre Fernando Collor, passando por Itamar Franco, pelos bons anos FHC e até mesmo pela boa surpresa de um governo Lula até então impensável, a democracia brasileira evoluiu muito.
 
A população já sabe distinguir entre o bom e o mau político, as promessas realizáveis e as que são apenas balela. Boa parte já aprendeu a não ser coadjuvante na corrupção eleitoral e até mesmo denuncia os que tentam se beneficiar dela. A tecnologia implantada na urna eletrônica substituiu as obsoletas cédulas. Temos hoje um sistema anti-fraudes e agilíssimo, que possibilita o conhecimento dos resultados da eleição em poucas horas.
 
Somos um exemplo democrático para o mundo inteiro. O sistema eleitoral norte-americano, que passa pelo povo e seus delegados por Estado, é confuso e nem sempre resulta na vontade da maioria. Na Rússia as eleições existem, mas são ainda de cartas marcadas.
 
Acredito que o Brasil pode ser considerado um país em que a democracia navega calmamente nas águas da história. Aqui temos liberdade de expressão, liberdade para atuar na política, liberdade para criticar o Presidente e as instituições. Somo um país que, depois dos anos de chumbo, conseguimos desfrutar de quase todos os nossos direitos.
 
Fico na torcida de que o país progrida sempre mais nesse sentido. Porém, otimismo demais não me faz esquecer as mazelas que ainda persistem. As recentes mudanças na lei eleitoral ajudaram muito, proibindo showmícios e propagandas em camisetas e bonés. Mas ainda há candidatos querendo ganhar votos na base da churrascada, da pressão sobre funcionários, da intimidação diante de necessidades básicas e de promessas vazias.
 
Esses maus candidatos estão com a vida cada vez mais complicada, pois o povo já não se ilude com eles. Finalmente estamos aprendendo a votar e a não tolerar certas coisas do sistema eleitoral, que continuará sendo corrigido a cada pleito. Os maus políticos estão ficando fora do jogo e todos só temos a ganhar com isso.
 
Boa eleição!
 
Amém.
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Visão de Mundo

Salathiel de Souza

Salathiel de Souza

Jornalista, professor e teólogo, iniciou carreira em 1996. Membro da Academia Ituana de Letras, é diácono transitório na Diocese de Jundiaí (SP) e autor de "Tudo Pela Missão! - Minha Experiência Missionária em Roraima".

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