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Publicado: Quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Recomeços Inglórios

Crédito: Photos&Focos Recomeços Inglórios

Quando foi que a vida e as relações passaram a significar tão pouco? Quando foi que o amor proclamado só tem a validade de um segundo? Quando foi que os recomeços começaram a ser cultuados como realidades felizes?

 

Se foi necessário recomeçar, então talvez signifique que deu tudo errado? Onde está o valor de um recomeço? O que é um recomeço? Pois o mesmo não quer dizer necessariamente que os problemas foram resolvidos e as mazelas suavizadas e tudo encaminhado perfeitamente, ao contrário, na grande maioria dos casos o recomeço quer dizer apenas que foi passada uma borracha em cima e tudo bem.

 

E as ausências deixadas pelo caminho? As dores que cortam a pele e invadem os momentos sem serem almejadas? As irresponsabilidades, negligências, indiferenças e covardias que mudaram a vida de todos ao redor para sempre? 

 

Quero saber onde está a glória desses recomeços que firmam seus alicerces nos corpos e pendências e ossos quebrados pelo caminho? Como é possível viver uma vida inteira e nunca se questionar do por que ser assim tão volátil, tão passageiro? Por que permitir que todo vapor da afetividade se esvaia na ausência da reciprocidade? Os recomeços de vida não deveriam ser medidos pelos sucessos particulares que as pessoas vão acumulando ao longo de suas ínfimas existências e sim avaliado pelo “bem” ou pelo “mal” que provocamos à vida das pessoas quando cruzamos seus caminhos.

 

De que vale um recomeço que é todo pautado na destruição dos outros que foram sendo deixados para atrás? Qual o valor de um recomeço que é sustentado por valores egoístas e inglórios?

 

Quem já escolhe recomeçar uma vida desmerecendo a importância de todos aqueles que lhe deram sustentação, amparo, carinho, motivação e ideias com as quais pensar não há de encontrar um desfecho muito diferente daquele que o colocou na condição de quem precisava recomeçar.

 

Só necessita recomeçar aquele que de um modo ou de outro não soube e não sabe como lidar com seus próprios sentimentos, não tem controle de suas atitudes e necessidades, não enfrenta e sim foge. Quem quer em sã consciência recomeçar? Por que uma pessoa chega num momento em que deseja deixar todo seu passado e história para atrás e se propõe a olhar fixamente para frente? Começar do zero uma vida que já é pequena e única?

 

Ainda não ficou evidente que não adianta? Quem foi, quem é, quem pretende ser, passa inevitavelmente pela sombra do como agiu no mundo, do como fez as pessoas se sentirem com a sua presença e no modo como atuou em seus afetos. Não tem como fugir da lacerante ideia de um passado ruim.

 

Recomeçar deveria significar tentar de novo de modo diferente e não mudar as roupas, mudar de casa, de parceiros e repetir os mesmos padrões. Que novos horizontes são esses que aniquilam com toda a bagagem que sempre irá carregar todos os dias? Que recomeço é esse que se ampara nas mesmas ideias e modos de ser de um passado que é proclamado no esquecimento, porém cresce e se infiltra na realidade nossa de cada dia.

 

Recomeços inglórios são como pragas que vão corroendo o direito das existências alheias. Usa, abusa e descarta pessoas e vivências apenas como mote da “vida que segue”.

 

Não se gabe de um recomeço vazio. Não tripudie na dor de quem sente alguma coisa que vai além de seus próprios interesses materiais e circunstanciais. Não brinque com a intensidade de uma lembrança e o ardor de um corpo que sempre pede mais. Não existe recomeço em cima do sofrimento alheio. Isso é insano demais para ser cultuado e pintado como um dia de confraternização sagaz.  

 

Os recomeços não deveriam ser postados na felicidade e sim meditados em dias tranquilos nas dores que carregamos dentro do peito e nos amores que deixamos de lado em nome de uma conduta ruim.

 

A vida não é feita de recomeços. A vida é uma só. Uma sequência de acontecimentos provocados e permitidos por nossas próprias mãos, resultado de tudo que fomos, somos e ainda seremos, aritmética de todas as nossas relações, aflições e ilusões. Ninguém nasce de novo, ninguém volta no tempo. Quem é o idiota que conclama e bate no peito para dizer que nasceu de novo? A vida vai seguindo em frente e carregamos conosco toda a bagagem que nos pertence, todas as dores e amores, todas os ganhos e acertos e também todo mal que provemos.

 

É cruel e mesquinho aquele que proclama acerca de um recomeço alicerçado por fracassos. Quem está tendo sucesso não quer recomeçar nada, quer apenas continuar vivendo do modo como está e por isso esse papo de recomeço não passa de uma blasfêmia sensacionalista. Encare suas limitações. Viva com as culpas daqueles que feriu e desonrou. Não fuja da realidade nua e crua que nos circunda e nos lança no movimento etéreo de viver. Fique bem longe daqueles que com a força de uma vida sofrida saem em busca de autoconhecimento para que desse modo as atitudes inglórias não gerem recomeços inglórios.

 

Não entendo certas pessoas e penso que morrerei sem compreendê-las. Como alguém em sã consciência retribui amor com dor, carícias com tapas e doações genuínas com o esquecimento?

 

Sendo assim, cale-se, comemore calado no sepulcro de uma existência vazia e não venha gritar acerca de suas vitórias, porque não há ganho algum quando os demais perdem. Não há glória nenhuma quando se olha para atrás e só sobrou cinzas, marcas e ruinas.

 

Quem é o imbecil que consegue ser feliz diante da infelicidade do outro? Regozijar diante da mazela alheia? Sorrir e festejar na presença do sofrimento que as ações mesquinhas causam nas pessoas todos os dias? Quem? Que espécie de pessoa é essa? É por isso que a felicidade são instantes que nos agarramos com o ardor de uma batalha final. Por isso que ela não pode ser um sentimento absoluto, um estado permanente, pois devemos ter espaço para a dor, para o crescimento que essas dores suscitam em nós. E respeito. Não devemos nunca nos esquecer do respeito a tudo e a todos que de nós divergem, não como numa estratégia bélica e sim pelo simples fato de sermos todos diferentes na vida, porém iguais na dor.

 

Qual o propósito de ser feliz sozinho? De conquistar toda a materialidade que uma vida aparentemente necessita e usufruir sem parceria, não poder dividir ou compartilhar os dias? De que vale uma vida toda arquitetada com o amálgama do individualismo, se cercar de relações por interesses imediatos e viver praticamente só? Qual o sentido da vida humana e de toda sua consciência e racionalidade sem o turbilhão das relações? Qual o sentido de acumular fracassos e nunca viver nada genuinamente verdadeiro?

 

A vida é apenas conexão e carne. Então, ame, viva, não deixe sentimentos intensos passarem despercebidos, não subestime a força de uma alma que se entrega e comove e move toda uma vontade insana de mais e mais e mais. 

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Ana Paula Cavalheiro

Ana Paula Cavalheiro

Formada em Ciências Sociais pela USP-SP e em Psicologia pela Unimep e especialista em Psicopedagogia.

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