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Publicado: Segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Que Barbaridade!

Desde quando podia lembrar-se, Bárbie ouvia sua Mãe falar do carro que ia comprar com o dinheiro que estava guardando na poupança. De parcos recursos, espremia todo o mês o minguado orçamento doméstico para guardar uma parcela do valor do carro que queria comprar e que era o seu único sonho de consumo. Mas, nunca conseguia juntar o necessário porque sempre surgiam necessidades inadiáveis ou o filho pedia “emprestado”.
 
E lá se iam o seu sonho e o seu rico dinheirinho...
Isto é, o dinheiro, sim, mas o sonho, não! Nada nem ninguém podiam impedi-la de continuar sonhando.
 
Um dia, porém a sorte bafejou-a. Comprou um bilhete de rifa de um carro e foi contemplada!
Nem podia acreditar em tanta sorte! Um carrinho lindo! Novinho em folha! 0 km!
Imediatamente pensou em aprender a dirigir.
Barbie ponderou:
- Você não está mais na idade de aprender a dirigir. Deixe que a gente dirige e você viaja de madame.
- Imagine! Não estou na idade de dirigir! Tem tanta gente mais velha do que eu dirigindo.
- Mas são pessoas que sempre dirigiram. Já têm prática. Começar depois de uma certa idade é complicado.
 
Bárbara não deu ouvidos a filha. Nunca permitira que ninguém dissesse o que devia e o que não devia fazer. Não obedecera ao Pai severo nem o marido autoritário, imagine se ia dar importância à opinião de uma “criança” feito a Barbie.
 
No dia seguinte mesmo procurou por uma Auto Escola e começou as aulas. A parte teórica foi muito bem. Decorou o livrinho com uma rapidez de fazer inveja a muito adolescente por ai.
 
Quando começaram as aulas práticas, porém, a coisa mudou de figura.
Sentada pela primeira vez à direção, ficou meio assustada. Nunca tinha reparado quantos pedais, botões e alavancas tinha um carro. O instrutor, partindo da premissa de que ela já devia ter algum conhecimento, começou a falar de coisas que ela não tinha a mínima noção do que seria. Coisas como acelerador, freio, embreagem e marchas.
- Perai, moço! Começa do começo que eu não estou entendendo nada.
 
O rapaz, pacientemente, mostrou todos os comandos explicando minuciosamente a utilidade de cada um. Assim, nessa primeira aula ela não tirou o carro do lugar, mas, ficou muito animada com o seu aprendizado.
 
Como dedicado aluno que se prepara para um vestibular difícil, ela não pensava em outra coisa o tempo todo querendo memorizar o que aprendera. “São três pedais. Um é acelerador, outro freio e o outro... Não me lembro, mas o acelerador é para andar e o freio para parar. Acho que isto é o que interessa, o resto é frescura.”
- Ele me falou de um negócio de primeira, segunda e terceira, mas não sei pra que serve isso... não deve ser nada muito importante.
 
Nas próximas aulas, pouco a pouco ela foi entendendo como funciona um carro, familiarizando-se com seus comandos e chegou o dia em que conseguiu dirigi-lo sofrivelmente. Mais um pouco de prática e poderia fazer o exame de trânsito para receber a ambicionada carteira e mostrar à Barbie do que era capaz!
 
Até então, só andara ao lado do instrutor, mas, naquela tarde, resolveu fazer uma proeza: sair sozinha com o carro. Todo mundo diz que a gente só aprende a dirigir, realmente, depois que começa a andar só, e ela já estava enjoada daquele sujeitinho o tempo todo ao seu lado dando palpites.
 
Saiu bem da garagem e foi andando pela rua. Sentia-se livre, solta e feliz. Poderosa no domínio daquela máquina maravilhosa que obedecia todo seu comando. Mas, ao tentar virar uma esquina, uma bicicleta atrapalhou, ela subiu na calçada e, assustada, perdeu completamente o controle do veículo entrando em uma vitrine, atropelando manequins e provocando sobre o carro uma chuva de vidro quebrados. Perdeu os sentidos, ouvindo os gritos assustados dos que se encontravam por perto e presenciaram a cena.
 
Barbie chegou assustada no hospital onde a Mãe estava em observação, mas ao ver que ela tivera apenas leves escoriações e já estava pronta para voltar para casa, que sua travessura não tivera piores conseqüências, entre aliviada e furiosa investiu:
- Viu o que você fez? Eu não disse que você não ia conseguir dirigir?
- Foi um acidente! Acidentes podem acontecer com qualquer um!
- Não sei como pode estar tão calma. Você podia ter se machucado muito! Podia ter matado alguém! Podia até ir parar na cadeia!
- Ora, não faça drama! Não aconteceu nada disso! Foram só danos materiais e isso a gente pode pagar.
- Pagar como? Você não tem dinheiro! Vai ter que vender o carro para pagar o estrago que você fez na loja.
- E o que é que tem isso? Eu vendo o carro e pago o que devo. Depois começo a guardar dinheiro de novo para comprar outro...
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Maith

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Escritora amadora, apelidada carinhosamente de bisavó blogueira. Vive em Sorocaba.

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