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Publicado: Quinta-feira, 30 de abril de 2015

Quando Até o Macho Sofre Machismo

Quando Até o Macho Sofre Machismo

Eu tremia. Minhas mãos não paravam quietas um segundo sequer. Minhas pernas já nem respondiam mais, ao mesmo tempo que o suor insistia em escorrer denso através da minha testa, denunciando parte do nervosismo que me corroia as entranhas.

Fechei os olhos, respirei fundo e entrei.

O homem estava sentado de costas pra mim, em frente a uma escrivaninha, remexendo em algum objeto qualquer. Não sei o que era. Não vi. Não prestei atenção. Quando me ouviu entrar, virou-se para me encarar. Fez uma expressão de espanto, embora soubesse que eu viria. Em seguida, sorriu, exibindo seus imensos dentes amarelados.

- Ah, então você veio.

- Sim. - Respondi, timidamente.

Levantou-se e veio em minha direção. Perguntou se tinha mais alguém comigo, o que respondi afirmativamente. Sorriu de novo, um sorriso mais amplo que o anterior. Dessa vez, pude distinguir seus dentes de ouro que lhe conferiam a alcunha e lhe davam um visual ainda mais grotesco.

- Toma alguma coisa...?

- Não.

- Fazendo cerimônia comigo?

- Claro que não.

Movia-se como quem sabia ser o dono da situação. Eu, por outro lado, me sentia completamente vulnerável, fato que ele não ignorava. Ao contrário: explorava a situação com a perfeição de um mestre que já havia feito isso inúmeras vezes.

- Sabe o que é isso? - perguntou, estendendo a mão e me mostrando um grande maço de dinheiro. - Vai. Pode pegar. Uma parte você usa pro velório da sua mãe, a outra você gasta com você.

Gastar comigo? Isso sequer me passou pela cabeça. Minhas ideias giravam em torno da minha mãe que ainda estava no IML, a espera de um serviço funerário que não vinha nunca porque sua família pobre não podia lhe pagar.

Estiquei a mão, mas o homem recolheu a sua, não me permitindo apanhar as notas. Aproximou-se mais de mim, fazendo movimentos que se revelaram uma tentativa patética de exibir um charme que ele não tinha. Em seguida, me tocou nos ombros, sussurrando em meu ouvido.

- Antes, você vai precisar me fazer alguns favores...

Fiz menção de levantar, mas ele não me permitiu, insistindo que eu deveria ir para o quarto com ele. Tirando forças que não sei de onde, consegui me desvencilhar dos seus braços. Berrei-lhe que não estava só.

- Meu marido está aí fora. Ele lhe dá um tiro, ouviu bem? Um tiro!

- Leleco! Leleco! - gritou ele, chamando por meu marido.

Ele entrou, esbaforido, tanto pelo susto quanto pelo nervosismo de estar ali, na presença daquele homem sinistro. Boca de Ouro, o homem a quem vim pedir dinheiro, passou a vociferar-lhe impropérios e ameaças, mas meu pobre marido sequer reagia. Por fim, o bandido tirou uma arma da cintura e apontou pra cabeça de Leleco.

- Fala pra sua mulher entrar no quarto agora! Agora! Senão eu te mato aqui mesmo!

Meu marido era um homem fraco mas, mesmo que não o fosse, não estava em posição de discordar. Baixando a cabeça, me mandou obedecer Boca de Ouro. Lhe lancei um olhar de desprezo, antes de seguir para o quarto na direção da onde o bandido me indicava com a ponta da arma. Meu orgulho, minha dignidade e meu amor, ficando em pedaços...


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Na nossa aula de teatro daquela semana, havíamos combinado de encenar uma parte da peça "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues. Para isso, nos dividimos em trios: dois homens, um pra fazer o papel do bandido Boca de Ouro e outro pra interpretar o marido Leleco, e uma menina que seria a Celeste, a mulher que precisava de dinheiro pra enterrar sua mãe recém falecida.

Por um imprevisto qualquer, nossa parceira de cena não foi ao teatro naquele dia. Houve certa deliberação sobre o que iríamos fazer, até que um de meus colegas localizou uma saia. Era a provocação que me faltava para que eu me oferecesse pra fazer o papel da Celeste.

A cena não era cômica, mas é claro que rimos muito com a ideia de um homem barbado como eu interpretar a doce e frágil moça do morro. Evidentemente, aquilo não ia acabar em nada sério e produtivo. Ou, ao menos, era assim que todos nós, incluindo eu, esperávamos que fosse.

Meu parceiro de cena fazia o Boca de Ouro com a ênfase que o papel exigia. Mais alto que eu, ele tinha facilidade pra projetar-se sobre mim, o que automaticamente me fazia me sentir acuado. De repente, tudo se transformou. Num momento, eu era só um sujeito de saia interpretando Celeste. No outro, eu era uma mulher desprotegida e desamparada sendo maltratada e humilhada por um sujeito maior, mais forte e com poderes físicos, mentais e financeiros sobre mim.

Já no caminho de volta pra casa, enquanto dirigia meu carro, meu cérebro ainda estava envolto na energia do teatro e meus pensamentos, inevitavelmente, foram parar na jovem Celeste. Me dei conta de como, no auge da cena, mais do que incorporar a personagem, eu pude me sentir como ela. No momento em que Boca de Ouro fazia exigências sobre mim e meu marido era conivente com isso, eu me senti, como nunca, violado física e moralmente.

No meu íntimo, claro, eu sabia que era apenas uma interpretação. Tratava-se apenas de uma peça de teatro. Uma mera visão tragicomicamente caricata da realidade, mas com pouca relação com o mundo real.

 

Será?

 

Nós, enquanto homens machistas e primatas escravos dos instintos, esquecemos de quão Boca de Ouro nós podemos ser. Pior: nos esquecemos do quanto nós também subjugamos, maltratamos e violamos as mulheres que nos rodeiam. Duvida?

Quantas vezes aquele pequeno (ou o grande?) Boca de Ouro que vive dentro de você não tomou conta das suas intenções? Quantas vezes você não fez um gesto ofensivo pra uma amiga, ou assoviou desrespeitosamente pra sua vizinha, ou disse um comentário desonesto sobre a madame que vai na sua academia?
E o que me diz daquela deixadinha de mão no ônibus lotado só pra sentir o calor daquela jovem mulher sem que ela percebesse?

Uma única vez eu fui maltratado, humilhado e desrespeitado no corpo de Celeste, mas eu já sabia que isso iria acontecer. Era uma cena, um texto pronto. Eu já tinha tudo decorado e as minhas reações já estavam todas ensaiadas.

Fora do ambiente do teatro, as incontáveis Celestes que são maltratadas por desconhecidos, maridos, amantes, chefes e amigos de confiança, nunca esperam por isso. Elas não sabem que isso vai lhes acontecer, nem tampouco sabem como reagir. E pior: como Celeste, elas também não tem pra quem pedir ajuda, seja por medo, vergonha ou culpa.

Já parou pra pensar quantas Celestes nós não fizemos se sentir um lixo só para que nós nos sentíssemos incríveis?

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Papo Cabeça

Rafael Cavacchini

Rafael Cavacchini

Empresário, romancista, redator, crítico político e antropólogo. Escreve utilizando linguagem ácida e direta, sem abandonar a ética nem apelar pra demagogia desnecessária.

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