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Publicado: Domingo, 21 de março de 2010

Quando as coisas mudam de lugar

Quando as coisas mudam de lugar
A educação de valores é revelada nas atitudes

No auge da juventude, quando acreditamos que as revoluções são capazes de mudar o mundo e salvar a humanidade, é muito comum desprezarmos os pequenos gestos e, principalmente, as ações rotineiras, de pouca visibilidade, na maioria das vezes escondidas entre quatro paredes no âmbito familiar.  

Por sorte, a maturidade e a experiência nos permitem rever os conceitos e com isso mudar as coisas de lugar. Hoje, já não mais acredito em grandes transformações sociais, em líderes revolucionários e, nem tão pouco, nas políticas públicas partidárias.  Acredito, sim, na transformação pessoal, que provoca crescimento emocional e qualifica as relações interpessoais. Acredito na família, na presença dos pais na vida dos filhos e nos modelos praticados diariamente, que lapidam valores e constroem gente de verdade. 

Por isso, trago para essas linhas o episódio ocorrido num colégio tradicional e conceituado de São Paulo, que viveu uma situação difícil e polêmica, mas de forte reflexão sobre o papel formativo dos pais na vida dos filhos. A situação refere-se ao episódio, amplamente divulgado nos grandes jornais, do aluno de 14 anos de idade que levou uma arma de fogo para dentro da escola e no intervalo mostrou aos amigos.

Ao tomarem ciência do ocorrido, os pais desse adolescente praticaram com legitimidade a função educadora: primeiro, foram até a escola e informaram a direção; que não sabia do fato.  Depois, foram com o filho à sede da Polícia Federal para entregar a arma, que apesar de registrada legalmente em nome do pai, estava esquecida dentro de casa em um esconderijo. O garoto descobriu o esconderijo e a arma quando desesperadamente procurava seu computador portátil, escondido pelos pais como ação controladora ao uso excessivo.   

E aqui, faço uma pausa para reforçar o que já disse muitas vezes como alerta aos pais de adolescentes: vigiem rigorosamente o uso da Internet. O perigo que antigamente morava na esquina, hoje está dentro dos quartos, disfarçado de acesso tecnológico e numa proporção incontrolável, capaz de conseqüências patológicas e irreversíveis na formação do caráter.

Mas voltando ao assunto, além dessas atitudes, os pais ainda passaram o final de semana fazendo pesquisas e mostrando ao filho as estatísticas de mortes por acidentes com armas de fogo. Com isso, é obvio que os pais sofreram as conseqüências pela exposição do problema, que não foram poucas: desde a suspensão escolar para o filho, seguida de assembléia para decisão de uma possível expulsão escolar, até a pena judicial por negligência paterna. 

Mas o que deve ficar dessa história, é a coragem e a posição legítima de pais educadores, que assumiram sem medir esforços o que realmente impera na formação de valores: princípios e atitudes. Não tenho dúvida do aprendizado que os pais proporcionaram ao filho. Quantos de nós não guardamos a lição que recebemos dos nossos pais, em nos fazer, por exemplo, devolver um objeto furtado ou um troco recebido a mais? 

A educação de valores, revelada em atitudes, é a única revolução capaz de profundas transformações.  E essa é, também, a única verdade que fica depois que as coisas mudam de lugar.

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Conversas Entrelinhas

Mércia Falcini

Mércia Falcini

Psicopedagoga com Especialização em Formação de Professores e Sistema de Gestão. Atualmente é Diretora da Consultoria e Assessoria Saberes, Membro Fundador da Academia Saltense de Letras e colunista do site Itu.com.br.

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